Entre a cruz e a degola

Entre a cruz e a degola

Como as execuções pelo Estado Islâmico estão mudando o debate sobre pagamento de resgate

Adam Taylor, O Estado de S. Paulo

22 Novembro 2014 | 16h00


A decapitação, essa semana, de Abdul-Rahman Kassig, ou Peter Kassig, americano que trabalhava em ajuda humanitária, foi o quinto assassinato de um estrangeiro filmado e divulgado pelo Estado Islâmico (EI). Até agora o grupo extremista assassinou três cidadãos americanos e dois ingleses. E mantém ainda uma refém americana.

A nacionalidade dos indivíduos decapitados é importante. Enquanto cidadãos americanos e britânicos são mortos, reféns de outras nacionalidades foram libertados pelo Estado Islâmico. De acordo com o New York Times, cativos da Itália, Dinamarca, França, Alemanha, Espanha, Bélgica, Suíça, Peru e Suécia supostamente foram libertados depois do pagamento de resgate. Embora muitos países, em teoria, concordem que não se deve pagar a sequestradores, muitos o fazem secretamente. Estados Unidos e Grã-Bretanha não pagaram. E a lógica que rege essa política foi posta em dúvida diante da brutalidade do EI.

Na segunda-feira, Shane Harris, do site Daily Beast, informou que a Casa Branca poderá reconsiderar sua estratégia a respeito. E deverá reavaliar, em particular, a posição do governo americano contrária ao pagamento de resgate pelas famílias de sequestrados. Washington anteriormente recusou-se a facilitar tais pagamentos e as famílias de James Foley e Steven Sotloff - dois jornalistas americanos mortos pelo Estado Islâmico - alegaram ter sido ameaçadas de processo pelas autoridades da área de antiterrorismo da Casa Branca caso arrecadassem recursos e pagassem o resgate pedido.

Parece assim que há um reconhecimento de que a política adotada pelos Estados Unidos com relação ao pagamento de resgates é falha, mas isso leva a uma outra questão preocupante: o que seria melhor?

Basicamente, o raciocínio das autoridades no caso pode ser reduzido a dois fatores chave. Em primeiro lugar, a ideia de que o pagamento de resgate incentiva os sequestradores a continuarem fazendo reféns e os compele a ter em mira pessoas de determinada nacionalidade. Há evidências de que isso pode ser verdade: o governo francês supostamente é um dos mais propensos a pagar resgate e teria despendido dezenas de milhões de dólares nos últimos anos, além do que em todo o mundo o número de reféns de cidadania francesa é maior do que qualquer outra nacionalidade.

Em segundo lugar, há um problema mais direto. Os sequestradores com frequência são grupos extremistas com planos mais violentos para fazer frente à política externa dos Estados Unidos. Ao dar a eles somas substanciais de dinheiro, você os estará ajudando a se aproximarem cada vez mais de seus objetivos. No caso do EI, que os Estados Unidos agora vêm combatendo diretamente, seria na verdade ajudar o inimigo.

Os Estados Unidos têm expressado repetidamente sua posição nesse sentido, criticando outras nações que pagam resgate. “Os pagamentos levam a futuros sequestros que, por sua vez, conduzem a novos pagamentos de resgate, o que vai reforçar a capacidade das organizações terroristas de realizar ataques”, disse David Cohen, subsecretário da área de inteligência financeira e terrorismo do Departamento do Tesouro, no Chatham House, em 2012. “Precisamos encontrar um meio de interromper o ciclo. A recusa em pagar resgate ou em fazer outras concessões aos terroristas é, claramente, a melhor maneira de quebrar o ciclo, porque se os sequestradores não obtiverem o que desejam terão um forte incentivo para deixar de fazer reféns.”

Agora que três reféns americanos foram mortos pelo Estado Islâmico e a vida de uma outra está em suspenso, tal raciocínio começa a parecer absurdo. A percepção geral de que os Estados Unidos não pagam resgate não impediu que Foley, Sotloff ou Kassig fossem sequestrados e, com certeza, também não impediu que fossem assassinados.

A publicidade explícita de suas mortes e notícias sobre os absurdos resgates exigidos (os sequestradores teriam pedido US$ 132 milhões para libertar Foley) sugerem que nem tudo tem a ver com dinheiro. É possível que, em parte, o EI talvez não necessite realmente de dinheiro: o Tesouro dos Estados Unidos calcula que o grupo até recentemente arrecadava em torno de US$ 1 milhão por dia com venda de petróleo, uma soma impressionante. Mas pode ser também que a mensagem enviada pelas decapitações seja mais valiosa para o EI do que o dinheiro que poderia ter recebido.

Quais seriam outras opções para o governo americano a não ser pagar ou facilitar o pagamento de somas enormes de dinheiro? Uma delas parece simples: salvar os reféns. O que é mais fácil falar do que fazer. O governo dos Estados Unidos tentou resgatar reféns americanos em mãos do EI num ousado assalto em segredo no início do ano, mas fracassou. As autoridades poderiam também tentar um acordo de troca de prisioneiros, como foi feito com o Taleban pela libertação do sargento Bowe Bergdhal. Esse método implica riscos e críticas, naturalmente, e nem sempre é uma boa opção.

A reavaliação da política em relação ao pagamento de resgates por parte da Casa Branca reflete uma situação que vem mudando e o estreitamento de oportunidades diante da brutalidade do Estado Islâmico. Se o governo dos Estados Unidos começar a ajudar as famílias a pagar algum resgate em particular (o que é um pouco diferente de os governos europeus pagarem secretamente resgates), seria o reconhecimento de que pagar resgate é uma estratégia falha - mas qualquer outra opção nessa situação também é de algum modo falha. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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Adam Taylor escreve sobre política internacional para The Washington Post

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