Desmond Boylan/Reuters
Desmond Boylan/Reuters

Entre dois bloqueios

O embargo a Cuba é daninho e intolerável, mas a centralização, o paternalismo, a falta de liberdades básicas e o controle do Estado são também problemas que é preciso resolver para seguir adiante

Félix Sautié Mederos

18 de setembro de 2010 | 16h00

Escrevo da minha morada no centro de Havana sobre meu direito de opinar baseado na necessidade de que sejam levadas em conta as opiniões daqueles que vivem neste país. Têm sido propagadas informações relativas a uma série de mudanças na economia cubana das quais tenho provas subjetivas e objetivas, porque as vejo refletidas nos nossos subúrbios. Entre elas estão a criação de algumas cooperativas, a ampliação das licenças de trabalho autônomo, a possibilidade de montar pequenos negócios, assim como um amplo plano de redução do número de servidores públicos pertencentes à estrutura estatal desenvolvida nos últimos 50 anos.

 

À parte polêmicas de interpretação semântica, quero expressar meu apoio resoluto ao movimento que se inicia, mesmo que os resultados sejam pequenos e insuficientes no início, já que o importante é que as coisas comecem a mudar, a vida saia da letargia em que nós, cubanos, estamos mergulhados e as pessoas possam agir com liberdade de consciência, pensamento, expressão e decisão sobre suas vidas.

 

É necessário, diria imprescindível, deixar de lado o paternalismo centralizador típico do capitalismo de Estado a que nos levou o socialismo real, que pouco tem a ver com o conceito do verdadeiro socialismo participativo e democrático, que respeita a diversidade e prega a convivência em paz com os que pensam diferentemente. É algo complexo, mas sua concretização não admite mais protelações nem palavras vazias.

 

Apoiei e apoio um socialismo que contemple a autogestão, o trabalho por conta própria, a criação de cooperativas e de pequenas e médias empresas locais e familiares - incluindo o recebimento de investimentos estrangeiros controlados que contribuam com tecnologia, capital e/ou mercados. Dentro da própria revolução, há algum tempo, alguns revolucionários, como nós, têm se manifestado publicamente, no limite das possibilidades, com artigos e exposições a respeito, tendo oferecido em 16 de agosto de 2008, no 83º aniversário da fundação do primeiro Partido Comunista de Cuba, e o 57º aniversário da morte de Eduardo Chibás, líder do Partido Ortodoxo, um programa intitulado Cuba Necessita de um Socialismo Participativo e Democrático. Fomos ignorados por toda a mídia local. Tentaram nos calar, fomos desqualificados e alguns até demitidos de seu trabalho. Por quê? Terá sido para defender a burocracia com suas sequelas de fracassos econômicos e desalentos?

 

É indubitável que o bloqueio decretado contra Cuba, mantido há 50 anos, é uma política genocida, intolerável e daninha em todos os sentidos, que afetou e afeta sensivelmente a sociedade cubana. Mas temos de reconhecer que a centralização, o paternalismo, o controle de tudo em nome do Estado, assim como a falta de estímulos e das liberdades básicas do cidadão, são também problemas importantes que precisamos resolver em primeiro lugar para seguir adiante. Caso contrário, não haverá possibilidade de fato de um verdadeiro socialismo e de um desenvolvimento nacional, mesmo que o bloqueio seja suspenso e cheguem ao país bilhões de dólares por conta do turismo e dos investimentos, como em outras épocas.

 

O bloqueio deve ser suspenso sem pré-condições de nenhum tipo, pois equivale a um genocídio contra o povo cubano. Pôr fim a ele é uma questão de justiça e princípios, acima de qualquer consideração econômica. Precisamos entender que se o bloqueio for suspenso, mas não conseguirmos resolver os problemas internos a que nos referimos, e cabe a nós solucionar, as tendências capitalistas podem se fortalecer. E vamos perder uma boa parte dos benefícios econômicos que a suspensão desse bloqueio iria promover.

 

** Tradução de Terezinha Martino

 

 

*FÉLIX SAUTIÉ MEDEROS, SOCIÓLOGO E TEÓLOGO CUBANO, PUBLICOU ESTE TEXTO NO JORNAL MEXICANO POR ESTO!

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