Epitáfio

Aqui jaz o Brasil que quis jogar como Alemanha, humilhado por alemães que jogaram como Brasil

Marcos Caetano, O Estado de S. Paulo

26 Julho 2014 | 16h00

Espanto. Não há outra palavra para descrever o que os brasileiros com algum envolvimento sentimental com o tema futebol - ou seja, 200 milhões menos uns gatos pingados - vêm experimentando nas últimas semanas.

Ainda demolido pelo placar-bofetada que a Alemanha estalou em nossa face, tive o desgosto de ver a seleção brasileira perder para uma Holanda que nem sequer teve de fazer força. Ainda assim, essas derrotas aconteceram no mundo encantado da Copa do Mundo, no qual tudo adquire ares de festa. Terminada a festa, tivemos que voltar a nossa dura realidade: jogos cheios de faltas, estádios vazios, Dunga de volta à seleção, Luxemburgo de volta ao Flamengo, o último metrô (e não estou falando do filme do François Truffaut) que partiu de Itaquera antes da torcida do Corinthians ver o terceiro gol do time, o diabo. Sobretudo, o diabo. No entanto, em meio a esse desfile de tragédias, foi uma história aparentemente menor que me fez perder o elã, como diriam os mais antigos. Refiro-me ao caso do jogador André Santos, covardemente agredido por torcedores do próprio time.

Teste rápido de desenvolvimento esportivo: se um atleta do clube que você dirige é agredido por torcedores, qual sua reação? A) Apoia o atleta e bane os agressores dos estádios por toda a vida; B) Não faz nada; ou C) Demite o atleta. Em países desenvolvidos, a opção escolhida deverá sempre ser A. A resposta B caracteriza países subdesenvolvidos. Já a resposta C pertence a outro universo. Surrealista, dadaísta, kafkiano, felliniano ou qualquer nome que se queira usar para descrever uma situação completamente absurda. O caso de André Santos é, assim, a suma das sumas ou o resto dos restos do estado de coisas do futebol nacional - que era o último campo no qual nosso eterno improviso parecia capaz de andar de mãos dadas com o sucesso.

A crônica esportiva brasileira é de uma riqueza extraordinária, graças, sobretudo, a Nelson Rodrigues. E foi ele quem, em um texto recheado de ironia, explicou ao colega Armando Nogueira - grande defensor das virtudes atléticas e de planejamento das equipes europeias - como foi a vitória do Brasil de Pelé e Garrincha sobre a temível União Soviética, na Copa de 1958. Título da coluna: As Vacas Premiadas Somos nós.

Catorze copas e cinco títulos mundiais depois daquele jogo, é deprimente constatar que não somos mais as vacas premiadas. E a coisa é bem pior do que parece. Sim, porque o Brasil podia ao menos ter cumprido tardiamente a profecia de Armando Nogueira para a Copa de 1958: um time brilhante e talentoso que acabaria derrotado por outro mais forte atleticamente e mais organizado taticamente. Foi assim que perdemos em 1982, por exemplo, sem que sentíssemos um pingo de vergonha, embora náufragos em um oceano de dor. O real problema da seleção brasileira que levou a maior goleada de sua história centenária foi ver os alemães não apenas ganharem com a saúde de vacas premiadas como, ainda por cima, carregarem o estandarte do jogo bonito que costumava ser nosso. Isso sim é o que me causa profunda depressão - no sentido tarja preta da palavra.

A Alemanha da já saudosa Copa do Mundo (embora definitivamente não por isso) varreu nosso time do mapa jogando como uma espécie de cruzamento do Brasil de 1982 com a União Soviética de 1958. Confesso que, ao ver os alemães treinando na sauna para simular o calor dos jogos de 1 da tarde, o moderno centro de treinamento construído por eles, os reservas que davam piques em campo logo após o apito final dos jogos oficiais, não me impressionei. Ao contrário: tive foi um acesso de Nelson Rodrigues. Disse para mim mesmo que aquilo tudo era visagem, que os alemães eram os novos soviéticos, que nosso talento ia falar mais alto, que o malemolente menino Neymar - qual um Macunaíma emo de óculos de aros grossos - resolveria a parada e, ao fim e ao cabo, as vacas premiadas continuaríamos sendo nós. Pura ilusão.

Quando eliminamos os valentes Chile e Colômbia, deixei o estádio com aquele velho chavão na cabeça: jogaram como nunca, perderam como sempre. Depois dos 7 x 1, com o mundo como conhecemos já desmoronado, o que me veio à cabeça, além de uma imensa dor, foi o seguinte: perdemos como nunca porque jogamos como nunca. Porque nunca jogamos tão mal uma partida de futebol. Simplesmente não é suposto que o Brasil perca um jogo daquela maneira. Nem nos mais doces sonhos dos alemães, nem nos meus mais atrozes pesadelos. Nem quando eu sou o Brasil enquanto meu filho João - um virtuoso do Fifa 14 - opera o joystick pela Alemanha.

Tenho quase 50 anos, o que me credencia como um ser um tanto rodado que já viu o Brasil perder a bagatela de nove copas. Nenhuma delas com mínimos vestígios de desonra. Inventário breve: Em 1974 perdemos de 2 x 0 para o time que criou o futebol moderno; em 1978 não perdemos um jogo sequer e fomos mesmo é roubados; em 1982 perdemos e o mundo chorou conosco a morte definitiva do futebol sublime; em 1986 perdemos em uma decisão por pênaltis; em 1990 perdemos nosso melhor jogo para um passe de Maradona; em 1998 e 2006 perdemos para Zidane e a melhor geração da história do futebol francês; e em 2010 dominamos o jogo, mas perdemos para uma espetacular Holanda. Arrependimentos? Alguns. Vergonha? Absolutamente nenhuma.

O inapelável saldo final é que não somos mais as vacas sagradas. E, pior, que os arautos do futebol-arte agora são outros. Nossa lápide da Copa de 2014 poderia trazer a seguinte inscrição: “Aqui jaz o Brasil que tentou jogar como Alemanha, humilhado por uma Alemanha que ousou jogar como Brasil”. Mais devastador que isso, impossível. Que a terra nos seja leve. Porque derrotas são passageiras, mas vergonhas são eternas.

*

Marcos Caetano é cronista esportivo e escreve para o portal 433 (www.quatrotrestres.com.br)

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