Plenilunio Films & Arts
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Era de ouro do cinema venezuelano pode acabar por causa de Maduro

Após reformas na lei, filmes da Venezuela foram premiados, mas governo pode colocar em xeque independência dos cineastas

The Economist, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2017 | 16h00

Alguns elementos de La Soledad, primeiro longa de Jorge Thielen Armand, que retrata a vida dos moradores de uma mansão colonial abandonada, em Caracas, atuam como ótimo estímulo à imaginação. José (representado por José Dolores López) passa seus dias examinando as paredes e os jardins da casa com um detector de metais, à procura de um tesouro de morocotas (moedas de ouro) que sua avó diz ter sido escondido séculos antes por antigos proprietários do lugar. À noite, sem conseguir dormir, ele se sente atraído pelo jardim, onde entrevê uma presença fantasmagórica em meio aos arbustos. Apesar de misturar fantasia e realismo, o filme tem raízes fincadas na realidade da crise vivida atualmente pela Venezuela.

Enquanto José vasculha as prateleiras vazias dos supermercados e as barracas ilegais dos camelôs de Caracas, numa busca desesperada por alimentos e remédios para sua família, Thielen Armand, que está sempre filmando, passa dias e dias atrás de baterias para seus equipamentos. Até acontecimentos fantásticos – o súbito ressurgimento do avô de José, morto há muito tempo; a aparição, certa noite, de um cavalo branco na penumbra do jardim – parecem fazer parte da ordem natural das coisas. “Como poderia ser diferente, se os venezuelanos convivem diariamente com os maiores absurdos?”, indaga Thielen Armand. “A pessoa encontra muito realismo mágico por aqui!” O cineasta sabe o que diz. Conceito particularmente associado à arte latino-americana, o realismo mágico sempre ofereceu possibilidades férteis para os que desejam criticar forças social e politicamente opressivas.

La Soledad é a mais recente representante de uma leva de produções venezuelanas empenhadas em narrar, sem meias palavras, complexas histórias de vida na problemática nação andina. Pode parecer surpreendente, tendo em vista o caráter progressivamente autoritário do regime de Nicolás Maduro, mas o fato é que esses filmes com frequência são financiados com recursos públicos. Desde 1994, o cinema venezuelano conta com o apoio do Cnac, órgão estatal autônomo. Além disso, em 2005, com a reforma na lei nacional do cinema, o segmento passou por grandes transformações. Entre outros dispositivos, exibidores e distribuidoras passaram a ser tributados com um imposto destinado ao financiamento dos cineastas do país. Também foram criadas cotas para filmes venezuelanos exibidos nas salas de cinema e isenções tributárias a empresas do setor privado que invistam em produções nacionais.

Desde que a lei entrou em vigor, é cada vez maior o número de venezuelanos que vão ao cinema: em 2014, as salas de projeção registraram um recorde de 4,2 milhões de espectadores. Tanto interesse se deve, em parte, às produções da Villa del Cine, estúdio estatal inaugurado em 2006, no âmbito da “revolução cultural” que Hugo Chávez promoveu com o intuito de contrabalançar a influência de produtos culturais importados, em particular os grandes sucessos de bilheteria americanos. O resultado, na prática, são épicos revolucionários, com orçamentos polpudos e retórica inflamada, que perpetuam a mitologia do socialismo venezuelano — com destaque para Libertador, documentário sobre a vida Simón Bolívar, herói revolucionário do país.

Apesar disso, cineastas independentes também passaram a ter papel significativo, com uma série de produções que exploram o realismo social. Das 4,2 milhões de pessoas que foram ao cinema em 2014, cerca de 700 mil assistiram a Pelo Malo, em que Mariana Rondón retrata com coragem as atitudes em relação a raça e sexualidade dos moradores de bairros pobres em Caracas. O filme, que conquistou prêmios e reconhecimento na América Latina, na Europa e nos EUA, faz parte de uma série de lançamentos recentes que obtiveram sucesso comercial no mercado interno e, ao mesmo tempo, foram aclamados pela crítica no exterior. Em 2014, Azul y No Tan Rosa, produção da Villa de Cine, tornou-se a primeira película venezuelana a conquistar o prêmio de melhor filme ibero-americano no Goya (versão espanhola do Oscar). Em 2015, De Longe te Observo, de Lorenzo Vigas, tornou-se o primeiro filme latino-americano a vencer o Leão de Ouro, principal prêmio do Festival de Veneza. E em maio deste ano, La Familia, dirigido por Gustavo Rondón Córdova, tornou-se o primeiro filme venezuelano a ser incluído na Semana da Crítica, no Festival de Cannes.

Todas essas produções mostram como as questões de classe, raça, gênero e sexualidade contaminaram profundamente a vida e a política na Venezuela. “O cinema venezuelano vive um momento muito especial”, diz Thielen Armand. “Esses filmes lidam com questões sociais, e isso é muito bom.” E, ainda que La Soledad seja uma exceção (em virtude dos termos que regem o financiamento da produção pela Bienal de Veneza), o Cnac ofereceu algum tipo de apoio financeiro a muitas dessas obras marcadas por tal consciência social.

Por outro lado, com a deterioração da crise política e econômica do país, essa nova onda da cinematografia venezuelana corre o risco de morrer na praia. O número de espectadores recuou nos últimos dois anos, o mesmo acontecendo com a quantidade de produções financiadas pelo Cnac. Além disso, é cada vez maior o número de os jovens criativos – elemento fundamental em qualquer movimento cultural desse tipo – que opta por deixar o país. La Soledad foi filmado em fevereiro de 2016; quando Thielen Armand, que vive no Canadá, retornou à Venezuela, em dezembro, 15 integrantes da equipe de 25 pessoas envolvidas na produção tinham emigrado. “Está havendo um êxodo”, diz ele, “e isso é preocupante.”

Há também dúvidas em relação à independência do Cnac sob o regime de Maduro. Em fevereiro, o presidente venezuelano afirmou ser necessário levar a história de Hugo Chávez às telas, de maneira a combater a “distorção e a manipulação promovidas pelas redes de TV da oligarquia internacional”. De lá para cá, as publicações do Cnac nas mídias sociais pedem que os venezuelanos apoiem Maduro. Em julho, Aracelis García, vice-ministra da Cultura, foi temporariamente nomeada presidente do órgão – cargo que ela passou a acumular com sua posição no Ministério –, estabelecendo um vínculo direto entre o Cnac e o governo Maduro.

Apesar de o Cnac ainda ser respeitado pelos cineastas venezuelanos, muitos temem pelo futuro do órgão. “Houve um curto-circuito”, diz Thielen Armand, “mas a gente não sabe o que vem pela frente”. Como muitos dos responsáveis pelo recente sucesso de crítica do cinema venezuelano, o diretor já está trabalhando em seu próximo filme, que, segundo ele, também retrata as realidades da Venezuela contemporânea, ao mesmo tempo em que busca um futuro mais esperançoso. A produtora de Thielen Armand se chama La Falena (“A Faina”). “É meu dever”, diz ele, “fazer o que precisa ser feito.” Os espectadores venezuelanos e estrangeiros aguardam. / Tradução de Alexandre Hubner 

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