Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Érico Nogueira emula historiador romano Tácito para pensar o Brasil

Em 'Contra um Bicho de Terra tão Pequeno', o escritor paulista cria trama política que lembra o País real

Martim Vasques da Cunha*, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2018 | 16h00

O historiador romano Tácito abre o prefácio de Histórias, seu relato implacável sobre as guerras civis que destruíram o império dos Césares, com a seguinte afirmação: a de que ele vivia em um mundo onde “tudo era um delírio de ódio e terror; os escravos eram subornados para traírem os senhores, os homens livres, os patrões. Aquele que não tinha inimigo era destruído pelo amigo.”

A descrição acima também parece aplicar-se ao Brasil dos últimos anos – e é exatamente isto o que faz o poeta Érico Nogueira com o livro Contra um Bicho da Terra Tão Pequeno (É Realizações). Após mostrar o domínio completo da forma e do conteúdo poéticos em seus O Livro de Scardanelli (2008), Dois (2010) e Poesia Bovina (2014), Nogueira emula Tácito com tal perfeição técnica na sua estreia no gênero romance que o leitor reconhece estarmos em um bacanal romano e que os atuais governantes da nação não passam de pequenos Neros.

Inspirado nos parágrafos 48-74 do livro XV dos Anais, de Tácito, Contra um Bicho da Terra Tão Pequeno constrói uma trama tão intrincada a respeito dos bastidores políticos do Brasil que todos entrarão alegremente no jogo de adivinhação. Perguntarão entre si quem é quem: se o presidente-poeta lembra alguém que deseja somente a sua anônima intimidade; se a primeira-dama nos remete a uma certa mocetona que nos amou por quinze meses e onze contos de réis; ou se o açougueiro, responsável por uma parte da conspiração descrita no romance, pode ser ou não ser o dono de um frigorífero que usou e abusou do erário público para montar seu vultuoso negócio.

Como se não bastasse – e isto sempre acontece nas obras de Nogueira – há também um poeta desastrado, uma paródia de Tomás Antônio Gonzaga, que, se não tem uma Marília ou um gado todo seu para cuidar, está igualmente obcecado pelo poder, o que, sem dúvida nenhuma, deforma as suas relações com a Musa. Assim como em seus livros anteriores, Nogueira faz uma reflexão sobre o fazer poético – ou melhor, sobre a deturpação da linguagem que leva à deformação da sociedade e que coloca não só a função do poeta como Dichter (informe-se, leitor) na berlinda, mas principalmente toda a casta intelectual de um país.

Neste ponto, temos de ir à origem do verso de Camões que dá origem ao título do romance – o “contra um bicho da terra tão pequeno” que é retirado do último verso do canto I do épico Os Lusíadas. Tanto o poeta português como o poeta brasileiro fazem verdadeiras declarações metafísicas com esta expressão. No primeiro caso, Camões fala das contingências e das vicissitudes da condição humana, em especial em uma empreitada tão arriscada como foram as Grandes Navegações iniciadas pelo Império Lusitano; já no segundo, Nogueira tira do sarro da abordagem épica, introduzindo depois o cinismo de Tácito, mas mantém o mesmo tipo de inquirição metafísica ao colocar o sujeito comum – o tal “bicho da terra tão pequeno” – como alguém que é constantemente oprimido por forças políticas que estão fora do seu controle, as mesmas forças políticas que, segundo o historiador romano, insistiam em manter a população escravizada neste “delírio de ódio e terror”.

Talvez Nogueira não saiba, mas o seu romance dialoga com outro livro que pode dar uma resposta para a sua aflição. Trata-se de Claridade, de Renato Moraes, que, por uma coincidência, tem como epígrafe o mesmo verso de Camões com o qual Nogueira intitula o seu livro. Contudo, são objetos completamente diferentes, em especial na intenção literária. Se Nogueira emula Tácito, Moraes nos remete aos clássicos da primeira fase de Machado de Assis, com uma prosa clara, límpida, que conta uma tragédia familiar – motivada pela violência que assola o Brasil, com seus 60 mil homicídios por ano. E se Contra um Bicho da Terra Tão Pequeno tem uma visão pessimista a respeito da natureza humana, Claridade vai pelo caminho oposto, ao mostrar que, apesar de todos os obstáculos, o homem possui a capacidade de encontrar a transcendência, principalmente por causa de algo que Nogueira percebe como inexistente na nossa política: a operação da graça divina.

De qualquer forma, a obra de Érico Nogueira é única na nossa literatura porque, como o próprio afirma, a sua obsessão pela perfeição técnica não despreza o “poema dissoluto” que se tornou a revolta constante da história brasileira. Ele sabe que o desespero da sociedade só pode ser articulado sem “arabesco e rococó”, quando “é um papinho reto/ o que o tempo demanda”. Nesta persona assumida de um “Tácito tarado pela técnica”, Nogueira prova que é um dos melhores poetas do Brasil atual porque faz o que todo grande vate deve fazer: impedir que uma nação onde “quem não tinha inimigo era destruído pelo amigo” esqueça que a claridade do dia sempre surge após a mais escura das noites.

*Martim Vasques da Cunha é autor de 'Crise e Utopia - O Dilema de Thomas More' (Vide Editorial) e 'A Poeira da Glória - Uma Inesperada História da Literatura Brasileira (Record); pós-doutorando pela FGV-Eaesp

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