Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Escolas levam arte até a sala de aula para formar seus alunos

Instituições como a Chapel School e o Ateliescola Acaia usam a arte como meio de educação

Júlia Corrêa, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2017 | 16h00

Quem circula pela Chapel School, colégio localizado na Chácara Flora, zona sul de São Paulo, pode ter a sensação de estar percorrendo uma galeria de arte. De origem cristã, a escola aposta em um ambiente em que seus alunos, de idades entre 5 e 17 anos, possam conviver com o universo das artes visuais. Pelos corredores e salas de aula, quadros dispostos à altura do olhar dos estudantes evidenciam esse estímulo.

Durante a aula de artes, Sofia, de cinco anos, relata a morte de seu cão de estimação. No desenho que está fazendo, quer representá-lo como uma estrela. “Ele tinha o pelo branco”, diz em sobressalto, percebendo a falta de um lápis na cor. Mas ela logo acha uma solução: recorre à pressão com a ponta oposta de uma caneta para marcar na folha os traços de sua estrela sem cor.

Cerca de 15 quilômetros separam a rotina de Sofia da de Gabriel, de nove anos, um dos 87 alunos do Ateliescola Acaia, voltado a jovens das favelas da Linha e do Nove, no bairro Vila Leopoldina, zona oeste da capital. Enquanto aguarda a hora de tomar banho, o menino mostra seus desenhos e pinturas, contando achar mais divertido criar formas abstratas. Em sua escola, o incentivo à criatividade também é constante, ainda que em circunstâncias bem diversas.

Quando se chega para visitar a Chapel, é necessário, antes, passar por um cuidadoso esquema de segurança. Após apresentar documentos e aguardar a autorização da portaria, é preciso também percorrer um bom trecho, dos 40 mil metros quadrados de um campus arborizado e cercado por muros altos, para que se tenha acesso às dependências da instituição.

“70 years of faith in education”. Vista ao fundo de um grande campo esportivo, tal inscrição dá indícios das origens da escola, fundada por missionários americanos associados à congregação francesa dos Oblatos de Maria Imaculada. Instalados em São Paulo em 1945, eles assumiram a formação de crianças de famílias americanas que se mudavam para o Brasil na época. Hoje, a escola conta com cerca de 700 alunos, de 30 países. 

De uma antessala, uma secretária atende à ligação de alguém interessado em matricular o filho na escola. Sem revelar os valores da mensalidade, ela explica detalhadamente como funciona seu esquema bilíngue, que garante três diplomas diferentes aos estudantes. Também insiste que, embora tenha forte tradição católica, o colégio procura apenas transmitir valores morais ligados à religião, sem interferência na fé de ninguém. A poucos metros dali, uma árvore repleta de cartões escritos pelos alunos chama atenção no pátio. Uma professora que passa pelo local esclarece, então, tratar-se de uma atividade ligada ao Dia de Ação de Graças, celebrado poucos dias antes.

No entanto, o que mais se destaca naquele mesmo espaço é um grande painel, de nove metros de largura, criado pela artista Tomie Ohtake para a instituição. Feita com pastilhas vitrificadas, a obra foi inaugurada em 1992, sob o patrocínio do casal de colecionadores Ricard e Angela Akagawa, cujos filhos haviam estudado na Chapel.

Próximo ao painel, uma turma de crianças corre livremente depois do horário do almoço. Dali, é possível escutar o coro de outro grupo de alunos, vindo de dentro de um amplo auditório, onde ensaiam para as apresentações de Natal. Uma espiada pela porta permite percebê-los afinados, em perfeita harmonia com os professores. Fica evidente que, para todos eles, a rotina artística não tem nada de solene.

Curadora da coleção de arte da Chapel, Adriana Rede guarda uma série de histórias da relação dos jovens com a educação na área. Nas primeiras vezes em que andava de metrô na cidade, um ex-aluno, por exemplo, reconheceu em uma parede da estação Consolação um painel de Tomie Ohtake, semelhante ao da escola. A familiaridade com a obra teria acalmado os ânimos do garoto, acanhado pelo movimento da metrópole. Segundo Rede, é exatamente o desenvolvimento da sensibilidade e do repertório dos jovens o que leva a escola a apostar em tal tipo de formação. 

Um marco dessa tradição é uma exposição beneficente que acontece lá há 50 anos, a Chapel Art Show. Hoje bianual, chega a reunir mais de mil trabalhos por edição, com um público aproximado de duas mil pessoas. Alguns artistas desenvolvem ações educativas com os alunos. E é na doação realizada por muitos deles que se originou o acervo da escola. Homenageado da edição de 2017, German Lorca, por exemplo, doou recentemente uma fotografia intitulada Anjos (1962). Alice Brill, Maria Leontina e Paulo Pasta são outros nomes que integram a coleção. 

Nos corredores, essas obras aparecem ao lado de produções dos alunos. Também há painéis com uma série de regras que eles mesmos estabelecem para suas relações. Empatia e perdão se destacam, dando uma dimensão de uma rotina pautada pela educação artística e por valores cristãos tradicionais. Quem circula ali, dificilmente duvidará de um futuro promissor. 

Outra realidade. “Existem coisas que crianças que têm sobressaltos na vida demoram a adquirir”, explica a artista plástica Elisa Bracher, uma das fundadoras do Instituto Acaia, referindo-se a aspectos como a concentração e a higiene. “Em muitas escolas, isso já é pressuposto, aqui chega aluno que não consegue ficar 10 minutos sentado na classe.”

Nos anos 1990, Licó, apelido de Elisa, precisou deixar seu ateliê em Pinheiros para poder usar ferramentas barulhentas sem perturbar a vizinhança. Foi na Vila Leopoldina, bairro mais isolado, que ela deu continuidade à produção de suas esculturas. Os aparelhos, no entanto, ficavam ociosos boa parte do tempo. Ao que a artista teve a ideia de receber um grupo jovens de duas comunidades próximas à Ceagesp, as favelas da Linha e do Nove, para atividades de marcenaria. 

A semente estava plantada para a criação, em 1997, do Instituto Acaia. De família de banqueiros, Elisa ganhou a parceria da psicanalista Ana Cristina de Araújo Cintra para fazer crescer uma ONG que mudaria a realidade de muitos mais jovens. Desde lá, o instituto abriga o Ateliê Acaia, com diversas oficinas no contraturno escolar, em áreas como gravura, capoeira, música e vídeo. Desde 2005, também conta com o Centro de Estudar Acaia Sagarana, que oferece a jovens do ensino médio aulas preparatórias para o vestibular. E, fora de São Paulo, em 2008, criou o Acaia Pantanal, com ações socioeducativas destinadas a moradores da beira do rio Paraguai, no Mato Grosso do Sul. 

Em 2017, um fundo de endowment encabeçado pela família de Licó garantiu a estabilidade do instituto, e veio acompanhado da criação de uma escola formal de educação infantil e fundamental (até a 4.ª série), o Ateliescola Acaia. A existência de recursos, entretanto, não garante a linearidade das atividades. A falta de estabilidade na vida de muitas crianças que chegam lá é um desafio constante para os educadores.

Adversidade. Na portaria da escola, fixado em um mural, um aviso chama atenção: dois alunos estão proibidos de ser retirados das dependências sem a devida autorização. Relações familiares tumultuadas criam esse tipo de imbróglio. Em uma sala de professores perto dali, um garoto choraminga, cansado, e é acolhido por uma funcionária. Não conseguiu dormir a noite toda, por causa de mosquitos e do barulho perto de sua casa. “Quando entrou aqui, esse mesmo menino grunhia, tomamos mordida, soco e cuspe”, relata Elisa. “Hoje em dia, ele é maravilhoso”. 

Para ela, o importante é não encarar isso como uma ofensa. Certa vez, outro aluno ameaçou que um tio mataria um professor de marcenaria. O mestre levou na esportiva, criando seu próprio caixão. Depois disso, ele e o menino viraram grandes amigos, e o objeto chegou a ser usado em uma disciplina de vídeo.

É para lidar com toda essa distância social que as atividades são moldadas de acordo com necessidades dos estudantes, que podem até mesmo tomar banho e jantar no local. “A gente desenvolve praticamente uma estratégia por aluno, indo até as últimas consequências para garantir a permanência dele”, salienta Fabrício de Jesus Barrio Lopez, coordenador de artes da escola. 

Um exemplo dessa insistência é a presença de um barraco em cada uma das comunidades. Se eventualmente um aluno não tem como ser levado à escola, pode ir até o local, onde um educador de plantão dará um jeito de resolver a questão. Em uma atividade chamada “oficina de sentimentos”, que oferece atendimento psicológico, os alunos podem desabafar sobre o que quiserem. 

Organização. De tempo integral, a escola carrega os mesmos princípios que já guiavam o Ateliê. “Eles estão envolvidos em um fazer intenso. É tudo integrado. Tem um dia em que o café da manhã é aberto para as famílias, e a primeira atividade é uma de música pra todo mundo junto”, explica Lopez, que coordena uma gráfica artesanal no local. Em 2006, ele projetou a criação de uma tipografia para os jovens lidarem com a construção física das palavras. A iniciativa foi crescendo, e eles passaram a circular, com seus trabalhos de xilogravura, em feiras e galerias de São Paulo. “Muitos deles nunca tinham ido até a Avenida Paulista”, relata o educador.

Na visão de Licó, o fazer é “organizador”. No instituto, diz ela, os alunos ganham noções de procedimento, de como devem se aproximar de um objeto de interesse, desenvolver questões para, então, materializar uma ideia. “O que importa é a organização humana, a arte acaba sendo um caminho eventual”, explica. 

Pesquisa divulgada pelo IBGE aponta que filhos de famílias ricas têm chance cerca de 14 vezes maior de permanecer no topo da pirâmide que jovens de origem mais pobre chegarem ao mesmo degrau. Os alunos do Instituto Acaia parecem caminhar em direção a uma perspectiva mais positiva. É possível até mesmo vislumbrar o dia em que Sofia, da Chapel, e Gabriel, da Acaia, estejam unidos no mesmo patamar. 

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