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Escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez observa país natal à distância

Autor vê seu novo livro, 'Songs for the Flames', como parte de um próspero cenário literário na Colômbia porque, segundo ele, 'lugares em conflito produzem ficção'.

Anderson Tepper, The New York Times

29 de julho de 2021 | 10h00

Na história de abertura de seu novo livro, Songs for the Flames (Canções para as chamas, em tradução livre), Juan Gabriel Vásquez, escreve a respeito de uma fotojornalista de guerra que volta a um trecho da zona rural colombiana onde, 20 anos antes, as vítimas do conflitos sangrento entre forças paramilitares e de guerrilha flutuaram em um rio próximo.

“Agora as coisas estavam diferentes em certos lugares afortunados: a violência estava recuando e as pessoas estavam começando a conhecer algo como tranquilidade outra vez”, ela pensa. No entanto, quando ela reencontra uma moradora local, percebe que os horrores do passado - as memórias ocultadas, quando não os corpos - permanecem abaixo da superfície.

“A história mostra como a realidade colombiana muda rapidamente”, disse Vásquez em uma entrevista por vídeo direto de Berlim, onde ele tem dado uma série de palestras sobre ficção e política (“minhas obsessões habituais”) na Universidade Livre de Berlim desde o início de abril. “Tentamos lidar com o tempo presente na ficção, mas a realidade nos supera.”

Ele está se referindo, é claro, ao final de abril, quando a realidade colombiana mudou abruptamente mais uma vez: depois que o governo do presidente Iván Duque tentou propor uma reforma tributária em resposta às consequências econômicas da pandemia, greves em massa e manifestações ocorreram em todo o país. Nas semanas seguintes, os protestos aumentaram de intensidade e se expandiram para abranger questões de desigualdade social e reforma policial.  As imagens dos confrontos com a polícia espalharam-se pelo mundo. O país estava inflamado mais uma vez.

Vásquez, 48 anos, cujos romances como O ruído das coisas ao cair e A forma das ruínas têm narrado a turbulenta história da Colômbia, assistiu a tudo com horror à distância. Foi "frustrante e irritante", disse ele, principalmente porque as dificuldades do país com a pandemia, a violência policial e o abismo entre ricos e pobres eram evidentes há muito tempo.

“Foi muito triste que alguns de nós - muitos de nós - fomos capazes de ver isso, mas não o governo”, disse ele com um suspiro.  “Tudo era uma tempestade esperando para acontecer.”

Por causa da instabilidade na Colômbia, Songs for the Flames, que a Riverhead lança em inglês em 3 de agosto nos Estados Unidos, traduzido do espanhol por Anne McLean, parece particularmente oportuno. Mas ele surgiu como um prenúncio quando foi publicado pela Alfaguara na Colômbia, em 2018. “Um ano depois, tivemos manifestações contra a brutalidade policial nas quais 13 pessoas foram mortas”, disse Vásquez. “E agora temos o que testemunhamos todos os dias. A realidade colombiana tem um talento incrível para cumprir maus presságios ”.

O livro inclui quatro histórias publicadas anteriormente e cinco novas, conectadas pelo que ele descreveu como “ecos e fios comuns”. Várias delas são levadas adiante por narradores que lembram versões anteriores de Vásquez - escritores em dificuldades à deriva na Europa, inseguros quanto ao futuro e se devem ou não voltar para casa. Em The Last Corrido, um jovem escritor assume a missão de acompanhar a turnê de uma banda mexicana na Espanha para uma revista, refletindo sobre doença, mortalidade e seu destino incerto ao longo do caminho. Em The Boys, os rituais de um grupo de adolescentes em Bogotá refletem um mundo onde juízes e políticos são mortos a tiros em plena luz do dia e os cartéis de drogas de Cali e Medellín estão "começando a ficar populares". A história, disse ele, é "uma metáfora da minha própria adolescência".

Depois de 16 anos em Paris, na região de Ardenas, na Bélgica, e em Barcelona, Vásquez voltou para Bogotá em 2012, onde tem sido um comentarista frequente das questões políticas e literárias contemporâneas.  Agora pai de meninas gêmeas, ele irradia cordialidade e consideração, tão apaixonado na conversa sobre escrever como ele é sobre futebol.

Vásquez acredita no poder da literatura para abrir novos espaços no diálogo com o passado e o presente tensos de seu país, algo que está cada vez mais em sua mente desde os acordos de paz de 2016 entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). “Percebi que uma das coisas mais importantes que estava sendo negociada era uma versão do nosso passado”, disse ele. “Estávamos tentando estabelecer o que aconteceu na Colômbia nesses 50 anos de guerra e, claro, a única maneira de saber isso é contando histórias. É aí que entram os jornalistas, historiadores e escritores.”

Na verdade, o cenário literário da Colômbia está prosperando atualmente, graças a escritores como Laura Restrepo, Jorge Franco, Pilar Quintana e Pablo Montoya, para citar alguns.  Não é de se estranhar, segundo Vásquez, porque “lugares em conflito produzem ficção; a ficção é onde todas as ansiedades e o descontentamento, as insatisfações e os medos de uma sociedade tornam-se conhecidos gradualmente. ”

Ricardo Silva Romero, escritor e jornalista que mora em Bogotá, demonstrou os mesmos sentimentos de Vásquez em uma troca de e-mail.

“Toda a literatura colombiana tem sido produzida no meio da guerra, toda ela, desde A voragem [romance de 1924 de José Eustasio Rivera] até Songs for the Flames”, disse Silva Romero. “Nossa tradição literária, assim como nossas vidas, acontece em paralelo a conflitos internos.”

Para ele, há até espaço para um otimismo moderado: “Temos autores maravilhosos que contam o que aconteceu e o que está acontecendo conosco com tanto vigor, com tanta coragem, que poderíamos viver com a esperança de nos livrarmos da lógica da violência”.

O tom de Vásquez é tenso: os acordos de paz, que tanto ele como Silva Romero consideram a melhor chance de “nos libertar da espiral de violência”, têm sido politizados e estão em perigo, disse. “E para mim, a instabilidade social que vemos hoje é inseparável do fracasso de nossos líderes em cumprir a promessa dos acordos.”

Mesmo assim, porém, ele conseguiu arrancar algo positivo deste ano difícil. “Uma das coisas estranhas em relação à pandemia foi que entrei nesse período de isolamento e concentração como nunca havia feito”, disse ele. “Em nove meses, escrevi um romance de 480 páginas. Foi sem precedentes. ”

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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