Rina Castelnuovo/The New York Times
Rina Castelnuovo/The New York Times

Escritor israelense Amós Oz tem dois lançamentos póstumos no Brasil

Morto em 2018, autor chega às prateleiras nacionais com 'Sumchi' e 'Do Que É Feita a Maçã'

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

04 de maio de 2019 | 16h00

O israelense Amós Oz, que morreu em dezembro passado aos 79 anos, foi um admirável ficcionista, mas também um intelectual público, surfando décadas a fio no Triângulo das Bermudas político que é o Oriente Médio – por vezes caindo da prancha e engolindo água, porém jamais sumindo do mapa. Qualquer vírgula dele merece atenção, e ainda mais duas obras da estirpe de Sumchi e Do Que É Feita a Maçã, que acabam de sair no Brasil. 

Em 1992, Oz recebeu o Prêmio Frankfurt pela Paz e o prêmio Israel (o mais prestigioso do país). Em 1998 (50.º ano da independência israelense), embolsou o Femina (França). Em 2002 foi indicado para o Nobel e em 2015 para o Booker Prize. Era um daqueles artistas que, ao premiá-los, os prêmios também premiam a si mesmos. 

Oz nasceu em Jerusalém, mas aos 14 anos deu no pé para um kibutz, comunidades agrárias que cultivam o ideal de uma vida camponesa robusta e articulada. Trocou de nome: de Klausner para Oz, que em hebraico significa “força”. Em Do Que É Feita a Maçã, ele ri disso: “É o nome que um garoto escolheu, como se assobiasse no escuro para ganhar coragem. Hoje preferiria algo menos melodramático.” Oz começou a escrever no kibutz, com o qual partilhava seus direitos autorais. Mais tarde, relativizou a coisa: “Aqueles enclaves idealistas tentavam criar pessoas boas e saudáveis, sem nem sequer desconfiar que nós, seres humanos, não somos nem bons nem saudáveis.”

A prosa de Oz, de uma limpidez diamantina, sempre me recorda a dica de Aristóteles: “A perfeição do estilo está em ser claro sem ser raso.” O que não exclui imagens arrebatadoras, como esta, em Sumchi, a propósito de metamorfoses: “Um belo dia esse caixa se tornou baterista de um clube noturno. Mas na verdade não foi um caso de troca, foi como uma meia na qual se enfia a mão para revirá-la toda, de dentro para fora.”

Sumchi é uma pequena obra-prima. O herói epônimo tem onze anos e vive na Jerusalém ocupada pelos britânicos, depois da 2.ª Guerra Mundial. Ganha uma bicicleta, mas depois a troca por um trenzinho elétrico, e depois este por um cão, que lhe foge, e assim o contempla com o primeiro amor. Oz contou esse “causo” outra vezes, em autobiografias e ficções (como Pantera no Porão). Trata-se de um rito de passagem, mas não só infantil: o menino deve prosseguir com fantasias pueris de violência ou dar o passo para a próxima etapa, se expondo tanto a amar quanto a odiar, e na qual perguntas e respostas se tornam cada vez mais ambíguas? 

Os devaneios belicosos de Sumchi são contra o ocupante britânico, mas também contra as meninas, numa disciplina viril: “No recreio eu provocava Esti duas ou três vezes até magoá-la e brotarem as lágrimas. Por isso nossa educadora me aplicava castigos que eu enfrentava como um homem, com os lábios bem apertados.”

Mas Amós Oz nunca derrapa na santimônia politicamente correta, sempre tão conveniente e facinha. Em Do Que É Feita a Maçã, uma conversa com a editora Shira Hadad, ele evoca: “Quando era garoto, as mulheres se calavam quando os homens falavam. No kibutz era diferente: as mulheres falavam nas reuniões, e de maneira muito assertiva. Mas depois vi que não era legal. Toda essa igualdade entre os gêneros no kibutz estava torta. Na ‘libertação da mulher’ que houve nos kibutzim era como se estivessem dizendo às mulheres: ‘Se você se vestir como um homem e se comportar como um homem e fizer trabalhos de homem, nós a receberemos como um de nós e terá os mesmos direitos.’ Mas isto quer dizer: nem batom, nem meias de nylon, nem cosméticos, nada de sinais de sensualidade. Se você abrir mão de tudo que é considerado ‘feminino’, ou ‘sensual’ – em suma, se você virar homem –, será recebida com igualdade de direitos. Mas os homens no kibutz nem sonhavam em abrir mão de nem um só dos clichês da masculinidade. Por exemplo, quem queria deixar crescer o bigode deixava crescer o bigode, e não passava pela cabeça de ninguém dizer: ‘Aqui entre nós é proibido ter bigode.’ Havia uma mulher, uma das fundadoras, já idosa e doente, que me disse: ‘Se eu precisasse viver minha vida novamente, abriria mão das comissões e dos cargos públicos, e teria um piano em casa e convidaria amigos e faria saraus em que tocaria, cozinharia, pintaria e receberia pessoas.’ Eu lhe disse: ‘Acha que é impossível ter as duas coisas?’ Ela não respondeu, apenas rompeu num choro terrível. Eu era o único homem em Hulda para quem trocar as fraldas dos filhos era parte da rotina. E não estou falando de 1 milhão de anos atrás, mas de cinquenta anos atrás. O único que não tinha vergonha de ficar pendurando roupa lavada.”

Em Sumchi, as trocas cada vez mais desvantajosas do protagonista lembram os negócios contraproducentes de João e o Pé de Feijão. Só que, se a vida e ficção têm algo em comum, é que em ambas as aparências podem enganar. Se o garoto encontra casualmente um apontador, só para dá-lo à sua amada Esti, não se trata de um símbolo esquemático da correspondência entre escrita e paixão: “Eu poderia ter contado tudo numa só frase: Uma vez me deram uma bicicleta de presente e eu a troquei por um trem e por ele recebi um cão em cujo lugar achei um apontador que eu dei de presente por amor. E nem isso está correto, pois o amor estava lá o tempo todo, ainda antes de eu dar o apontador e antes de as trocas começarem. Por que o amor foi interrompido, essa é a questão. E também outras perguntas: por que passou e terminou aquele verão? E o verão depois dele?” Como diria Borges, a vida é como um rio: um caminho que anda.

Em sua obra Oz celebra o hebraico, uma língua ao mesmo tempo antiga e novinha em folha. O hebraico moderno foi criado por Ben-Yehuda, como uma miscelânea do hebraico bíblico (que não tem vogais) com o aramaico, o árabe, o ladino, o iídiche, o russo, inglês e o alemão – quase um Esperanto. A princípio o projeto foi desprezado, mas depois o imperativo de um idioma comum e viável se tornou óbvio: hoje o hebraico moderno é a língua oficial do Estado de Israel (o árabe também tem status de idioma oficial). Smuel Yossef Agnon entronizou o hebraico moderno ao receber no Nobel de Literatura em 1966.

Amós Oz foi o fundador do movimento Paz Agora, que nos anos 1980 chegou a ter milhões de seguidores. Hoje, em seu país, ele é encarado por muitos como um grande escritor, mas um político derrotado. E, pelos fundamentalistas judaicos, até como um traidor (daí, provavelmente, que o último romance de Oz se intitule Judas). Era um sionista, pois acreditava que os israelenses tinham direito a uma terra à qual estavam historicamente ligados e um país que haviam desentranhado do deserto. E tinha orgulho de Israel, um atol democrático no arquipélago de ditaduras medievais ou teocráticas que é o Oriente Médio.

Mas nada disso o impedia de clamar contra os colonatos israelenses. Defendeu até o fim a ideia de dois Estados – um israelense e outro palestino, por achar o Estado único irrealista. Seja em Dear Zelots, seja em Como Curar um Fanático, Oz aponta o erro que é associar o fanatismo só à religião ou à política. Como explica, o fanatismo começa em casa, no afã de mudar os outros supostamente “para o bem deles”. Utopias degeneram em distopias, paraísos teóricos em infernos práticos. Como antídoto, sugere o humor e curiosidade. Até porque todo bom escritor é um xereta. “Vivi como um espião. Ouço conversas que não são minhas, olho para pessoas estranhas, e quando estou numa fila nunca fico lendo jornal. Surrupio pedaços de conversas e as completo. Meu vizinho Meir Sibahi dizia: toda vez que passo pela janela do quarto em que o Amós escreve, me detenho um momento, pego um pente e me penteio, pois se eu entrar numa história do Amós, quero entrar penteado.”

A literatura é um ofício peculiar como notava Thomas Mann: “Escritor é aquela pessoa para a qual escrever é mais difícil do que é para os outros.” Oz matiza: “Acha-se que se alguém escreve livros durante cinquenta anos fica mais fácil com o tempo. Isso é verdade em quase todas as profissões. Para um marceneiro, fazer sua trigésima mesa com certeza é mais fácil do que fazer a primeira. Na literatura, não, por duas razões: uma, eu não quero escrever a mesma história duas vezes. A segunda razão: escrever é como dirigir o tempo todo com um pé no acelerador e outro no freio. O pé no acelerador é feito de ingenuidade, da alegria da escrita. O pé no freio é feito de autoconsciência e autocrítica. Com os anos, quando se adquire mais consciência da escrita e de si mesmo, o pé no freio fica cada vez mais pesado e o pé no acelerador cada vez mais hesitante, e isso é muito ruim para o motorista e não é saudável para o veículo.”

A morte de Oz – como a de sua nêmesis, o general Ariel Sharon, em 2014 – assinala talvez o rompimento das últimas conexões entre o Israel contemporâneo e o Israel do pré-Estado e dos anos fundadores. Mas no panteão da literatura universal, Amós Oz encontrou sua terra prometida.

*PAULO NOGUEIRA É AUTOR DE ‘O AMOR É UM LUGAR COMUM’ (INTERMEIOS) 

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