Claudia Trevisan/Estadão
Claudia Trevisan/Estadão

Escritor que vive na Coreia do Norte retrata cotidiano brutal em contos

'A Acusação' reúne sete ficções breves de autoria anônima contrabandeados pela fronteira com a China por um ativista humanitário

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

24 Março 2018 | 16h00

“Era uma vez um jardim, cercado de todos os lados por uma grande cerca, muito alta. Nesse jardim, um velho demônio governava milhares de escravos”, conta a senhora Oh à netinha Yeongsun. “O surpreendente”, prossegue, “era que o único som que se ouvia dentro desses muros altos era o som de risadas alegres.” A parábola não poderia tecer uma analogia mais clara da Coreia do Norte e encerra uma das sete ficções que compõem A Acusação: Histórias Proibidas Vindas da Coreia do Norte, de Bandi, que a Biblioteca Azul lança no Brasil. 

Essa é uma daquelas obras cuja publicação é tão interessante quanto o conteúdo: os originais foram contrabandeados pela fronteira com a China com a ajuda de Do Hee-yun, um ativista pelos direitos humanos. Bandi, pseudônimo que em coreano significa vaga-lume, ainda vive na Coreia do Norte, o que é inédito: até hoje, só se publicou relatos de autores que fugiram do país. O caso lembra o de outros escritores perseguidos em suas pátrias, como o Nobel de Literatura Alexander Soljenitsyn e o pai da distopia, Ievguêni Zamiátin, ambos soviéticos. 

Pelo pouco que se sabe, Bandi nasceu em 1950 e é membro da Liga de Escritores Chosun, uma organização fiscalizada pelo Partido. Não há como saber se é homem ou mulher. Nos contos Relato de uma Deserção, Cidade de Espectros e Pandemônio, consegue exprimir a perspectiva feminina com tanta clareza que se pode intuir que seja uma mulher, mas suas personagens são sempre mães, cônjuges, avós ou se afirmam pela relação com algum homem. 

Os contos que compõem A Acusação foram escritos entre 1989 e 1995, e tratam de pessoas comuns de posições sociais distintas – desde pobres e dissidentes do Partido até a filha de um mártir da Guerra da Coreia e o filho de um membro da Bowibu, a polícia secreta norte-coreana. O que une as narrativas é o senso trágico de cidadãos impotentes diante do totalitarismo, forçados a engolir a arbitrariedade do poder que os envolve. 

“Será que Solmoe, a vila em que cresceu, era uma cidade estrangeira como Tóquio ou Istambul? Como era possível que sua própria cidade, em seu próprio país, sua própria terra, fosse tão remota, tão completamente inatingível?”, pondera o narrador em Tão Perto, Tão Longe, quando Myeong-chol se vê proibido de viajar a fim de ver a mãe que agonizava porque a região estava isolada graças a um evento com a participação de Kim Il-sung.

Em Relato de uma Deserção, Lee Il-cheol é classificado como um elemento hostil pelo governo pois seu pai, um agricultor, estragou por acidente algumas sementes de arroz. “Mesmo se o pai tivesse cometido um crime hediondo que realmente merecesse a pena de morte, que tipo de crime podiam atribuir a seus filhos, que eram meras crianças na época?”, questiona sua mulher, indignada.

A protagonista de Cidade de Espectros, Gyeong-hee, é filha de um mártir da Guerra da Coreia, portanto tem uma excelente posição social e mora no centro de Pyongyang. No entanto, quando ela começa a usar cortinas diferentes em sua casa, torna-se suspeita de espionagem. O motivo real? Seu filhinho tinha medo dos retratos de Karl Marx e Kim Il-sung expostos na rua e ela queria protegê-lo dessa visão. Ninguém está livre da brutalidade do Estado em A Acusação.

O autoritarismo – ou o temor dele – sempre foi um manancial riquíssimo para romances distópicos, o que explica sua vasta produção na União Soviética, entrevista em livros como Nós, de Zamiátin (lançado no Brasil pela Aleph em 2017), e A Escavação, de Andrei Platonov (que chega ao País pela Editora 34 este ano). A ascensão e queda do fascismo também influenciou, em grande medida, a difusão desse subgênero da ficção científica em outros países por meio de Orwell, Huxley, Burgess etc. À época da ditadura militar, o estilo floresceu também no Brasil, cultivado por nomes como André Carneiro (Piscina Livre) e Ignácio de Loyola Brandão (Não Verás País Nenhum). Hoje a distopia retorna à baila, à luz de acontecimentos políticos recentes que explicam, por exemplo, o sucesso de Margaret Atwood e o resgate de Sinclair Lewis e Octavia Butler.

A Acusação daria uma excelente coletânea de ficções distópicas. Bandi, porém, não denuncia uma possibilidade remota ou especulativa. Sua literatura é um retrato da realidade. Há quem argumente que o livro é uma fraude, pois quem vive sob um regime como o norte-coreano não teria uma percepção tão aguçada das opressões às quais é submetido. Mas a veracidade d’A Acusação é seu aspecto menos relevante. 

A miséria reflete-se em cada linha, desde o frio que assola os pobres (“ele conhecia cadáveres que liberavam mais calor do que aquele aquecedor”) até a frustração que arrebata o filho do oficial da Bowibu: “Num lugar em que as emoções são reprimidas e as ações são monitoradas, a encenação se torna onipresente, e é tão convincente que chegamos a enganar a nós mesmos”, protesta o rapaz em No Palco, indignado ao ver o povo faminto ser obrigado a demonstrar luto após três meses da morte de Kim Il-sung. 

O líder supremo, aliás, merece atenta observação. Descrito como “um homem cujas roupas de um dourado pálido pareciam derramar uma suave camada de névoa, que o envolvia dos pés ao chapéu fedora”, Kim Il-sung irradia carisma, hipnotiza seus seguidores. “Não é mais alto que os céus e mais profundo do que os mares, o amor do Grande Líder?”, exalta um deles, esquecendo que o ar rarefeito das camadas superiores da atmosfera nos sufoca e a (o)pressão das obscuras águas abissais nos esmaga. Esse é o resultado da magia conjurada pelo velho demônio. “Por que ele lançava essa mágica?”, questiona a sra. Oh, não mais à netinha, mas possivelmente ao leitor. “Para esconder os sofrimentos que impunha àquelas pessoas, claro, e também para criar um engodo, dizendo, ‘Veja como são felizes as pessoas no nosso jardim’.”

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