Leslie Hassler
Leslie Hassler

Escritora feminista Jessica Valenti conta memórias de abusos em livro

'Objeto Sexual' mostra como o assédio é normalizado pela sociedade

Marianna Holanda, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2018 | 16h00

O livro de Jessica Valenti faz parte do rol de memórias de feministas entre 20 e 30 anos, divertidas, mas nem sempre leve – e que não foram poucas nos últimos anos (vejam Roxanne Gay, Lena Dunham, etc). Durante minha leitura, quando devorei as 219 páginas em uma viagem para o aeroporto mais o voo de uma hora e meia, fiquei tentando entender o porquê deste livro ou o porquê consegui lê-lo com tanta facilidade e interesse. 

A primeira coisa que devo contar é: se você gosta de ler em público, dê um jeito na capa ou prepare-se para olhares julgadores ou desconfiados. Objeto Sexual não é um título que passa batido.

Dito isso, começamos. As notas autobiográficas de Valenti começam na sua juventude, quando acreditou que se sexualizar era a melhor forma de estar próxima, ser amiga ou ter o respeito de homens. Em seguida, vêm os relatos de abusos sexuais em transporte público, como os que ainda vemos hoje pipocando nas grandes cidades. 

Com 13 anos, a nova-iorquina chegou em casa com o bolso de trás sujo de esperma, depois de pegar o metrô na saída do colégio, ainda de uniforme. Um ano depois, ela esperava o trem na plataforma quando um homem veio se masturbando em sua direção. Valenti correu e ligou para o pai, que até o fim do ano letivo passou a acompanhá-la. Ela não pode ficar sozinha na estação, é perigoso, disse, desesperado. Lembrou-me o meu próprio pai. Um dia, quando entrei no elevador aos 11 anos com um grupo de homens mais velhos, amigos do meu vizinho, ele me disse para nunca mais entrar num elevador com homens, sendo a única mulher. 

Valenti já era conhecida de certa forma por seu blog, mas ganhou notoriedade quando uma foto que tirou ao lado do então presidente Bill Clinton viralizou na internet em 2009. O debate era sobre se ela teria projetado ou não seus seios, em uma tentativa de “aparecer” ou mesmo “seduzir” o presidente, então envolvido em escândalos com estagiárias. Então, se você procurar o nome da escritora no Google, “peitos” é uma das primeiras coisas que aparece. Antes de seus outros quatro livros ou do seu site. Seus seios, não o que ela disse ou fez, foram tema de podcasts sobre política (sim). 

Ser feminista de quarta geração é ser abençoada e, ao mesmo tempo, amaldiçoada com a internet, que serve tanto para criar uma rede de apoio e comunicação, quanto para torná-la alvo de “haters” – um jeito moderno de chamar odiosos com potencial para assassinos ou apenas um menino de 13 anos protegido por uma tela. 

Na vida real, explica a escritora, responder em tom rude às agressões pode ser perigoso. É um “jogo de estratégia”, escreveu, em que deve-se calcular se a iniciativa é segura. Desbocadas já aprenderam que, se não forem rápidas ou lutarem krav magá, podem apanhar – e muito. Lembrei daquela menina no carnaval que tentou “defender” a irmã de um beijo indesejado e levou um soco que quebrou o ossos do rosto. O sujeito, óbvio, desapareceu na multidão.

Mas, caro leitor, o livro não é uma tragédia grega ou uma Pollyana do século 21. Valenti é divertida e irônica, e sua narrativa é mais humana do que literária. As histórias não me surpreendem, porque me identifico com boa parte delas. Quando terminei de ler Objeto Sexual, emprestei para o meu companheiro, que, indigesto, me ligou para conversar depois do segundo capítulo, de relatos de assédio no transporte público. Isso, sim, me surpreendeu. 

Talvez essas histórias, tão corriqueiras para mulheres, foram silenciadas ao ponto que parte da população, a que não participou ativamente delas, como vítima ou agressor, se surpreenda que aconteçam todos os dias. O livro de Valenti, assim como o de Lena Dunham e outros, tem o papel de contar essas histórias. Também é bom ler sobre vivências que partilhamos – isso é outra novidade. 

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