Christian Sinibaldi/Moinhos
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Escritora Jokha Alharthi faz exame da escravidão em Omã com livro premiado

Por meio de uma protagonista ex-escrava, 'Damas da Lua', vencedor do Booker Prize International apresenta a história do sultanato do Omã em uma saga de três famílias

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

10 de outubro de 2020 | 16h00

Em 2019, Damas da Lua, da escritora nascida no Sultanato de Omã, Jokha Alharthi, venceu o Man Booker International Prize, concedido a obras de ficção traduzidas para o inglês. O valor do prêmio é dividido igualmente entre autor e tradutor; no caso, foi dividido com Marilyn Booth, sua tradutora. Aqui no Brasil, a escritora compartilharia a sua conquista com Safa Jubran, tradutora e professora da Universidade de São Paulo, que destaca a oralidade da narrativa de Alharthi e oferece ao leitor, em nota de tradução prévia, a explicação de determinados termos culturais e religiosos, de modo que, quando se chega ao texto de Alharthi, a leitura flui sem a interrupção de notas de rodapé.

Num primeiro momento, o leitor poderá pensar que se trata de um livro sobre mulheres e narrado por mulheres, dentro do estereótipo criado pela cultura ocidental. Afinal, o primeiro capítulo conta um pouco da vida de Mayya, “eternamente entregue à sua máquina de costura”, obrigada a casar com um homem escolhido pela família, ainda que goste de outro. 

Mas Alharthi surpreende o leitor. Ela é uma grande romancista, que, como diria Virginia Woolf, quando vai para o seu quarto solitário, faz com que a vida, a qual observou, seja “submetida a mil disciplinas e exercícios”, sendo “misturada a isso, enrijecida com aquilo, contrastada com aquilo outro, assim, um ano depois, quando fica pronta nossa cena num café, já desapareceram os sinais superficiais pelos quais nos recordávamos dela. Da bruma emerge algo firme, algo tremendo e resistente, a própria medula em que se sustentava nosso fluxo de emoções indiferenciadas”. 

Da bruma de Alharthi surge a saga de pelo menos três famílias que vivem em Omã. As histórias são narradas por Abdallah, marido de Mayya que, num voo entre Omã e a Alemanha, vai se recordando da infância, do pai tirano e dos amigos numa ida e vinda temporal que nos leva, numa mesma página, de volta a meados do século passado e aos dias atuais.

Assim, um pouco da história de Omã nos é apresentada. Através de Zarifa, uma ex-escrava, cujos ancestrais vieram da África, o leitor é introduzido a um país cuja escravidão durou até 1970 e deixou marcas profundas na população. Zarifa, por exemplo, precisava ser lembrada reiteradas vezes pelo filho de que são agora “livres, livres pela lei”, e que podem dar aos descendentes os nomes que quiserem, diferentemente do passado recente, quando escravos não podiam dar nomes semelhantes nem iguais aos de seus senhores. 

A vida da personagem Sálima revela um outro lado da história. Na época da escravidão, foi criada por um tio, um xeique, que não a tratava como as outras filhas. Ainda que não precisasse varrer o chão nem carregar água ou lenha sobre a cabeça, ela não “comia bem ou se vestia de roupas bonitas, nem aprendia a bordar, pois xeique Saíd não era seu pai, apenas seu tio”. O narrador afirma que “ela crescia ao lado da parede externa da cozinha, passando fome, olhando a liberdade que as escravas tinham para viver e dançar e a liberdade que as senhoras tinham para mandar, se adornar e fazerem visitas”. 

Sobre a imprensa, Abdallah a vê com certa desconfiança: certa vez não escutou o primo e, no lugar de comprar um imóvel, investiu na bolsa, que despencou: “Houve uma manipulação grande, mas a imprensa se calou, da mesma forma como se calou quando a Hanan e suas colegas professoras foram estupradas no Sul. Todo mundo se calou, inclusive as famílias das vítimas, quem pagou por esse silêncio?”.

Em Damas da Lua, o leitor é apresentado a dois Omãs, um do passado com suas crenças e costumes, com um sistema educacional que não permitia “às crianças maiores de dez anos frequentar as aulas”, a não ser as que fossem “destinadas posteriormente à alfabetização dos adultos”. Lê-se no livro de Alharthi que, “Na década de 1940, a ideia de instruir os omaneses assustava o poder. Uma grande autoridade chegou a comentar com seu colega inglês: ‘Vamos educar os omaneses como vocês educaram os indianos que depois se voltaram contra vocês e logo se livrariam totalmente de vocês?”. 

No Omã do presente, a filha do narrador (que não chamo de protagonista, pois o protagonismo é compartilhado por muitas personagens) é médica bem-sucedida que se livra de um relacionamento abusivo, pois agora as mulheres sabiam que não eram de nenhum homem em particular. 

Jokha Alharthi cria um caleidoscópio de histórias que fogem do lugar-comum e permitem uma multiplicidade de muitas imagens de Omã e de seus habitantes. 

*DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É AUTORA, ENTRE OUTROS, DE ‘MINHA PEQUENA IRLANDA’  (RAFAEL COPETTI EDITOR) 

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