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Escritora portuguesa lança olhar sobre o Brasil contemporâneo

Os últimos dois livros de Alexandra Lucas Coelho podem ser aplicados ao cotidiano nacional

Wilson Alves-Bezerra*, Especial para o Estado

20 Outubro 2018 | 16h00

Todos os cronistas da Colônia eram homens e dirigiam seus relatos a um leitor ausente, do outro lado do oceano. Trata-se de uma afirmação óbvia, mas que ganha outros contornos diante da obra recente da escritora e jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho, que vem se dedicando, desde 2010, a escrever crônicas e reportagens sobre o Brasil, reunidas em seu Vai, Brasil (2015), e que já havia feito o mesmo com México, Afeganistão e Egito. Refiro-me a seus dois últimos romances: Deus-dará (2016) e A Nossa Alegria Chegou (2018). 

Deus-dará é um romance singular, pois embora siga as convenções do gênero, também as subverte em grande medida. São sete personagens em sete dias no Rio de Janeiro – natais, carnavais, férias de julho e réveillons – entre 2012 e 2014. Cobre portanto, o período histórico da euforia sob governos do PT, as manifestações de junho de 2013, a visita do Papa e a iminência da Copa do Mundo. Porém, o Rio da escritora não é pura paisagem, é antes território de história, e cada objeto, local ou frase disparam devaneios, associações, ironias e reflexões com o peso do passado colonial, do escravagismo e de seus desdobramentos no mundo contemporâneo. É quando surge, desestabilizando a narrativa, a voz da ensaísta e jornalista que dialoga, literariamente, com fragmentos de canções populares (Racionais, Chico Buarque, Tom Jobim etc), referências literárias (Haroldo de Campos, Machado, Nelson Rodrigues etc), fotos antigas, poemas visuais e narrativas históricas.

Deus-dará quer devorar – antropofagicamente – o Brasil inteiro, natureza e cultura, e sua autora tem erudição, sensibilidade e fôlego para a tarefa, que realiza ao longo de mais de 500 páginas. Logo no início, ao descrever as formas luxuriantes do Corcovado carioca, o narrador – masculino – põe-se a pensar na escolha vocabular de Caminha, em sua Carta, entre moça ou rapariga, para logo chegar ao presente da narração: “Na favela, toda a moça é mina.” (p. 33) e, ato seguido, reproduzir a conversa de dois homens: “ – Olha a p(...) aí.” Ao que concluirá logo que era apenas uma “menina”, uma criança. Em toda esta série de nomeações – rapariga, moça, p (...), menina – descortinam-se as relações entre gêneros, etnias e classes sociais ao longo da história brasileira.

Assim, o achado do livro consiste em, no espaço dos dias nele contidos, inserir os personagens em acontecimentos coletivos, que disparam reflexões sobre a história, a língua e a sociabilidade dos brasileiros. E isso é feito, inclusive, com vasta bibliografia, indicada ao final do volume. Como os cronistas e viajantes, o narrador de Alexandra Lucas Coelho está sempre pasmo e tem algo a contar. Mulher, portuguesa, romancista e jornalista neste século 21, Coelho traz um ponto de vista radical: narra a partir de um mundo global, o que transforma seu Deus-dará na apoteose do livro de viagem: “o narrador será transatlântico ou não será” (p. 22). Diante de um Rio em que tudo já foi mapeado, fotografado, cantado, seu olhar perscrutador desnaturaliza o que está à volta, revelando um país de causar estranheza a todos, inclusive a seus moradores. 

Além da superfície natural, da matéria histórica, da obra de diversos artistas, o livro devora ainda a palavra da imprensa, e não é raro ver jornais sendo lidos, manipulados ou ignorados pela população de personagens que passa pelo livro, compondo o mosaico desta grande vertigem sensível e enciclopédica sobre o Brasil contemporâneo. 

Não seria de se estranhar, portanto, que o livro seguinte da escritora, A Nossa Alegria Chegou, fosse uma espécie de depuração da linguagem caudalosa e voraz de Deus-dará. Ambientado na mítica Alendabar – termo de sugestiva evocação árabe – num cruzamento entre o mundo tecnológico e o natural, há menos personagens e o tempo é concentrado: são as 12 horas de um equinócio de outono. Tudo narrado em menos de 200 páginas.

A ausência de um cenário hiper-saturado como o do Rio, permite a Coelho exercitar seus dotes de narradora, o que faz com sutileza e lirismo: “A morte é muito antiga mas não tanto quanto a vida, pensa agora Úrsula, seguindo o filho ao mar.” (p. 51) O furor intelectual está agora a serviço da narrativa, e não mais em primeiro plano. 

O grande achado é que embora o ambiente, a fauna e flora sejam imaginários, Alendabar é um lugar contemporâneo. Seu mar é poluído – “dragões-marinhos abraçam cotonetes, latas de refrigerante dão à luz crustáceos, amores loucos, mutantes, que não se veem de helicóptero, nem num fim de semana” (p. 24); há reservas naturais cercadas como se fossem propriedades privadas; o líder local, chamado Rei, é um chucro que proíbe seus funcionários de usarem seus nomes, mas somente números: “O Rei nunca pensa no que ganha com eles mas no que lhe custam” (p. 52). Nesse ambiente distópico é que três jovens – Aurora, Ira, Ossi – querem fazer uma revolução. Assim, embora não seja um romance sobre o Brasil, pode sim ser lido como tal.

Ao leitor cabe a nota anticlimática de que embora Alexandra Lucas Coelho tenha já vários de seus livros publicados no Brasil, estes dois – que nos falam tão de perto num momento delicado da história como o presente – ainda não foram lançados por aqui. Tal fato, enquanto persistir, nos relega, brasileiros, à condição de objetos de uma crônica estrangeira, e não seus interlocutores, o que, por si só, diz muito de nosso atual lugar no mundo. 

*Wilson Alves-Bezerra é professor de pós-graduação em estudos de literatura da Ufscar 

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