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Escritores chineses de ficção científica ganham destaque no Ocidente

Cixin Liu, cuja trilogia está sendo publicada no Brasil, é um dos nomes ao lado de Han Song, Chen Qiufan e Dei Dao

Redação, The Economist

29 de junho de 2019 | 16h00

No futuro, quando o sol perder sua energia e começar a expandir, os humanos cavarão milhares de rochas do tamanho de montanhas na superfície da terra e as usarão para afastar suas casas da destruição certa. Bilhões morrerão, ao passo que, para transformar a Terra em uma arca eficaz, sua rotação natural precisará ser paralisada. Os tsunamis destruirão continentes inteiros e com eles toda a vida não abrigada em segurança nos subterrâneos.

Esta é a trama de Terra à Deriva, filme chinês adaptado de um conto do autor chinês Cixin Liu. Depois de arrecadar US$ 700 milhões com a venda de ingressos nos cinemas, especialmente na China, o primeiro filme chinês de ficção científica (FC) a ser visto globalmente foi lançado na Netflix em maio. Como grande parte da FC chinesa, a história é mais sombria e grandiosa do que muitos filmes ocidentais de grande sucesso. A perda implícita de vidas humanas é igual à que vemos em alguns filmes da Marvel, mas sem os super-heróis para amortecer o impacto, a autoridade das forças de segurança nunca é desafiada no filme. Longe de serem vilãs, elas ajudam a salvar o mundo.

Como em outras obras chinesas do gênero, é tentador traçar paralelos com o regime comunista, mesmo quando os próprios escritores não o fazem – e nem se atrevem – a tornar essas analogias explícitas. Para os leitores ocidentais, a FC chinesa permite entender mais claramente as esperanças e, especialmente, os medos do país.

A economia da China cresceu nos últimos 30 anos, e a visão dos seus escritores também. As suas histórias costumam ter por foco a própria Terra – afastando-se das galáxias muito distantes e ao mesmo tempo concebidas numa escala estupenda. Uma cena recorrente, em grande angular, em Terra à Deriva, por exemplo, mostra o planeta deslizando pelo espaço e sua atmosfera sendo arrastada para o vácuo.

Outras histórias chinesas transcorrem em dimensões similarmente alucinantes. Em Mountain, também escrita por Liu, uma nave alienígena que entra na órbita da Terra é tão gigantesca que sua força gravitacional cria uma torre de água no oceano nas costas de Taiwan. Em outro conto, Sun of China, um camponês muda para Pequim e começa a trabalhar na limpeza dos vidros de arranha-céus. Seu emprego acaba levando-o para cuidar do grande sol artificial que a China lança para iluminar suas cidades.

A FC chinesa deu seu primeiro passo na direção da cena global em 2014 com a publicação em inglês de O Problema dos Três Corpos (no Brasil, publicado pela Suma), o primeiro episódio de uma trilogia de Liu, em que ele narra a história do primeiro contato da Terra com uma civilização alienígena, os Trisolarans, cujo planeta está preso no caos climático e fica oscilando descontroladamente entre as três estrelas do seu sistema solar. Os Trisolarans cobiçam a estabilidade ambiental que decorre da relativa lassitude do sistema solar da Terra e, usando sua superioridade tecnológica, planejam tomar contra do planeta. Barack Obama mencionou a obra quando era presidente. Mark Zuckeberg leu e gostou. O presidente da Xiaomi, uma das maiores companhias de smartphones da China, exigiu que a trilogia fosse lida por seus funcionários. Li Yuanchao, ex-vice-presidente da China, é um fã de Liu. Seus contos épicos têm sido bem recebidos no exterior, mas as histórias de FC mais sinistras ainda não saíram do país.

Algumas das mais populares foram escritas por seu contemporâneo Han Song. Liu foi comparado ao escritor inglês Arthur C. Clarke, ao passo que Han às vezes é equiparado a Philip K. Dick. As histórias de Liu são rigorosas do ponto de vista científico. As de Han são alegóricas e insólitas, mas também mais lúgubres e subversivas. Liu oferece descrições lúcidas do futuro. Han evoca paralelos horrendos do presente.

Uma das suas histórias, The Passengers and the Creator, se desenrola num avião. Para seus ocupantes, a aeronave constitui o universo inteiro. Uma economia fechada de carne humana e escravidão sexual sustenta uma hierarquia surreal baseada em números de cadeiras; finalmente o herói encontra um meio de afastar seu avião do estrato de noite em que está voando perpetuamente, para alcançar a terra e a luz. Alguns leitores detectaram aí uma representação do Estado chinês – uma pessoa aprisionada pela sua visão de mundo, encapsulada em uma bolha que precisa ser perfurada.

Han também escreveu uma trilogia firmemente enraizada na Terra. Hospital descreve um futuro em que uma inteligência artificial benevolente aspira ajudar os humanos a desfrutar de uma vida longa e feliz. Mas algo dá errado e todos os cidadãos são tratados como pacientes, num caso aterrorizador de síndrome de Munchausen. Mesmo após a morte deles, a inteligência artificial vê que suas cobaias continuam a ser parte do sistema, rodando versões simuladas das suas vidas.

Enquanto a FC ocidental é, com frequência, alarmista, normalmente vale a pena descobrir a verdade. Mesmo nas fábulas ocidentais mais sinistras, como a do filme Soylent Green (1973), inspirado no livro Make Room! Make Room! (1966), de Harry Harrison – que termina com a revelação de que a comida é feita de pessoas – o público pelo menos têm o consolo de que o descerrar das cortinas levará a uma mudança positiva. 

A FC chinesa, pelo contrário, cria uma angústia com o ato da própria descoberta, quase sempre apresentando a verdade como algo que não vale a pena conhecer ou não vale o risco. Paralelos com o fortemente controlado fluxo de informações na China de hoje e o perigo de tentar contornar a proibição são difíceis de ignorar.

Apesar de todos os subterfúgios usados e da conquista de admiradores no exterior, a FC chinesa não escapa da censura doméstica. No manuscrito original da trilogia de Liu, por exemplo, o episódio determinante é o assassinato da família do protagonista pelas Guardas Vermelhas durante a Revolução Cultural. A versão inglesa mantém esse ponto crucial. Mas na versão chinesa, a ordem dos capítulos foi mudada de modo que a turbulência dessa era não é mais central para a trama. As descrições gráficas do assassinato foram eliminadas.

Os censores não parecem ter atacado Han. Seu segundo romance da trilogia Hospital chegou mesmo a receber o primeiro prêmio de FC na China em 2017, a primeira vez que um livro tão subversivo foi premiado, e Han continua produzindo histórias de ficção no país. Liu, por seu lado, não escreveu nada desde o encerramento de sua trilogia, O Fim da Morte, que será publicado em 2019 no Brasil. Ele agora se concentra em filmes e está escrevendo o roteiro de Wangzhe Rongyao (Honor of Kings), do videogame que se tornou um dos mais populares do mundo em 2017.

Uma nova geração de jovens escritores vem surgindo na esteira dos dois. Waste Tide, de Chen Qiufan, é ambientado numa ilha devotada ao descarte de produtos eletrônicos no Mar da China Meridional. Pertencente à casta mais baixa, Mimi trabalha com a reciclagem de componentes de computador para seus senhores. Um dia ela é infectada por um vírus, ganha poderes especiais e instiga uma guerra de classes. Esse cenário não está muito distante de áreas em que esta é a vida real na China, onde subprodutos da indústria eletrônica criam ambientes tóxicos inabitáveis.

Ted Chiang, americano de ascendência chinesa, é o autor de História da Sua Vida, conto que deu origem ao filme A Chegada, de Denis Villeneuve. Os escritores de FC chineses anteciparam a atração cada vez maior pelo seu gênero literário. Em 2010, Dei Dao, outro escritor do país, descreveu seus fãs como “um exército solitário oculto”. Para ele, a FC chinesa pode “inesperadamente sair em disparada e mudar céu e Terra”, afirmou. 

Isso ainda não ocorreu. Mas no futuro tudo é possível. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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