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Especialista fala sobre a obra de Ingmar Bergman no seu centenário

'Bergman parece comparar o mundo em que vive com um mundo onde há um Deus', afirma o professor Paisley Livingston

Felipe Cherubin*, Especial para o Estado

21 Julho 2018 | 16h00

Numa entrevista exclusiva ao Aliás, o professor Paisley Livingston, da Johns Hopkins University, autor de dois livros sobre Bergman, descarta a opinião corrente de que o cineasta sueco, cujo centenário de nascimento é comemorado este mês, fosse um existencialista, argumentando que, no teatro, Bergman jamais encenou peças do cânone existencialista (Sartre, Camus, Genet). Melhor seria dizer que a matriz das obras de Bergman foi mesmo sua experiência familiar – um pai agressivo e uma mãe controladora, apesar de carinhosa. Bergman, além disso, teve uma vida amorosa tumultuada: casou cinco vezes e teve nove filhos com diferentes mulheres. Em Cenas de um Casamento (1973), por exemplo, vemos um Bergman retratando a própria crueldade nas relações conjugais. Em Saraband (2003), leva as causas que ‘inspiraram’ Cenas de um Casamento às últimas consequências para tratar dos terríveis frutos de muitas de suas relações, sendo o mais grave deles o fato de ter abandonado afetivamente seus filhos.

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Bergman foi influenciado pelo ‘obscuro’ filósofo e psicólogo finlandês, Eino Kaila (1890-1958). Poderia falar um pouco desta conexão? 

No meu livro Cinema, Philosophy, Bergman: On Film as Philosophy (2009), escrevi sobre os muitos elos, bastante específicos e incontornáveis, entre o que Kaila diz em seu livro e o que foi assimilado nos trabalhos de Bergman. Considerada por muitos a obra-prima de Bergman, Persona conta com a influência de Kaila, uma vez que, em seu livro, Kaila faz idas e vindas exaustivas para explicar, com clareza, nada mais nada menos que o conceito de “persona”.

Kaila estava, de algum modo, ligado à tradição psicanalítica de Freud?

Quanto à psicanálise, Kaila foi um anti-freudiano, porque achava que havia sérios erros na doutrina psicanalítica. Kaila acreditava em processos mentais inconscientes, assim como Freud, mas achava que a psicanálise dizia coisas incorretas sobre a natureza do inconsciente. Ele pensava que o que era verdade na psicanálise não era original, e que o que era original não era verdade. Por exemplo, achava que, na teoria psicanalítica, havia uma ênfase excessiva na sexualidade.

Qual foi a influência de Nietzsche sobre Bergman?

É muito difícil saber quais textos de Nietzsche Bergman tenha lido e quais ideias específicas ele aceitou, ou pelo menos utilizou como artista. Talvez tenha sido a reflexão profunda sobre a morte de Deus em Nietzsche e os questionamentos das bases da ideologia cristã. Porém, penso que é seguro dizer que Bergman foi persuadido de que havia muita ênfase na racionalidade, por parte de muitos filósofos, em suas concepções do que seria a ‘humanidade’, sobretudo, em Kant. A ideia de Nietzsche da profusão da ‘vontade de poder’, poderia ser considerada, neste sentido, um bom corretivo contra estas concepções exageradamente racionalistas.

Bergman viveu no século 20, marcado por duas guerras mundiais, os horrores do nazismo e a crise da cristandade. Quais aspectos desse contexto histórico influenciaram seu trabalho?

Bergman flertou com o nacional-socialismo durante sua juventude e até participou de um acampamento de jovens na Alemanha. Mais tarde, ele sentiu repulsa, tanto deste episódio de sua vida, quanto da revelação da colaboração da Suécia com a Alemanha Nazista, apesar de manter uma posição oficial de neutralidade. A tendência de Bergman, ao longo de sua vida, em denunciar todas as formas de perseguição, refletiu em sua forte reação contra o nazismo e o Holocausto. Quanto à crise da cristandade, o tema de Bergman sobre o ‘Silêncio de Deus’ e seu período agnóstico ou até mesmo ateu, reflete, certamente, sua aversão em aceitar os dogmas da religião cristã institucionalizada. Há um discurso maravilhoso em Gritos e Sussurros, em que o padre, representando o cristianismo institucionalizado, prefacia cada sentença com um condicional ‘Se...’, dizendo ‘se existe um Deus’, ‘Se isso ou aquilo’...

Na obra de Bergman, há muitas alusões ao Novo Testamento. Poderíamos dizer que havia uma espécie de obsessão de Bergman em interpretar o legado de Cristo, o que seria reforçado pelo projeto cancelado de filmar a vida de Jesus?

Bergman foi bem pago pelo roteiro do filme sobre os últimos dias de Jesus, mas o projeto foi entregue a outro diretor. Em uma breve nota ao fim do roteiro, Bergman negou ter quaisquer crenças sobrenaturais sobre Jesus. No entanto, achava que Cristo transmitiu uma profunda mensagem ética, que, de alguma forma, teve grande impacto na humanidade. No roteiro, isso é ilustrado quando o centurião romano (chamado Rufus), que está encarregado da crucificação, tem uma conversão repentina. Ele está sobrecarregado de culpa e continua repetindo parte do que ouviu Jesus dizer: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” Essa parte do roteiro não tem absolutamente nenhuma base no Novo Testamento, então revela a interpretação pessoal de Bergman. O que acontece com Rufus, é que, por algum motivo, ele simpatiza com Cristo como vítima. A chave compreensiva é a noção de imitatio christi. Neste ponto, vejo uma relação com a cena da queima das bruxas no Sétimo Selo. Nestes e em muitos outros casos, Bergman nos alinha com aqueles que se alinham com as vítimas, não com os perseguidores. Esse amor não erótico ou o cuidado pela vítima (caritas) é, para Bergman, a contribuição crucial da ética cristã. 

Qual a finalidade de temas tão sombrios nas obras de Bergman, como o assassinato, o suicídio, a loucura, a depressão e o estupro, por exemplo?

Aqui, nos deparamos com o ‘paradoxo do afeto negativo’, isto é, por que queremos ver obras cinematográficas (e outras) que provocam emoções que normalmente não gostaríamos de experimentar? É isso que Santo Agostinho chamou de insanitas miserabilis. Estamos realmente loucos ou perdemos a razão por querer ver a miserabilidade da condição humana exibida nas telas? Para dissolver esse paradoxo, falamos sobre as “compensações” que surgem como parte deste pacote: o aprendizado (de uma distância segura) sobre os momentos negativos da vida; a satisfação da curiosidade; o alívio do tédio; o prazer; e, também, a admiração pela arte. Quanto ao interesse especial de Bergman nesses temas sombrios, digamos que há muitas razões para ele não ter uma perspectiva especialmente otimista ou “angelical” sobre a condição humana ou a situação sócio-histórica. Isso remonta à consciência dos descalabros da 2ª. Guerra Mundial, das incertezas aterrorizantes geradas pela Guerra Fria.

Na Trilogia do Silêncio (Através do Espelho, Luz de Inverno e O Silêncio), o problema da comunicação humana anda de mãos dadas com o delicado problema da fé. Essa incapacidade de se comunicar consigo mesmo, com os outros e com Deus foi o grande drama pessoal de Bergman?

Esta é uma questão fascinante. Bergman parece comparar o mundo em que vive com um mundo onde há um Deus benevolente, onipresente, onipotente e que sabe tudo sobre nós. Neste último mundo, nunca estamos sozinhos, pois Ele nos conhece desde sempre. Mesmo que não o conheçamos como Ele nos conhece, há esperança. Mas, se não há Deus em nosso mundo real, onde nos encontramos muitas vezes sozinhos e desamparados, devemos nos esforçar para ter algum contato com outras pessoas através de meios imperfeitos de comunicação. Tentar encontrar a santidade que habita em nós e que pode ser sentida nas relações humanas. Aqui encontramos o tema bergmaniano de “Deus é amor”. Por outro lado, a interação enganosa e manipuladora, em oposição à ânsia de contato carinhoso e conhecimento de outras pessoas, surge em um mundo onde a divindade não promete mais nada, nem garante mais este contato e conhecimento. 

*Felipe Cherubin é jornalista e filósofo, coautor de 'O Que É a Inteligência?' (Editora Lumen Juris), sobre a obra de Xavier Zubiri, e autor de 'O Homem de Duas Cidades' (Amazon) 

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