FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Espelho Trincado

Foi-se a imagem do Estado onipotente, mas isso não trouxe ganhos suficientes de participação política

Gabriel Zacarias, O Estado de S. Paulo

11 Abril 2015 | 16h00

Não se pode prever se as manifestações de hoje levarão tantas pessoas às ruas como no último dia 15 de março. Mas pode-se antecipar que sua presença se fará sentir nas redes sociais. Na manifestação de março, chamou atenção a quantidade de fotografias pessoais que circularam pela rede, sobretudo os “selfies”. Todos queriam compartilhar um registro de sua presença no ato. Os manifestantes de março se sentiam partícipes de um evento histórico. Não à toa, pois as manifestações foram amplamente noticiadas, sobretudo pela grande mídia, como se se tratasse já de um acontecimento histórico. E isso antes mesmo que elas tivessem acontecido. Uma curiosa inversão no âmbito da temporalidade coletiva que, embora incomum no âmbito da política, é um fenômeno típico da sociedade do espetáculo. Guy Debord já notara que na sociedade do espetáculo é o próprio tempo que é transformado em mercadoria. A indústria do lazer coloca à venda “blocos de tempo” com “tudo incluso”. Nos pacotes de viagens ou nos festivais culturais, vende-se uma experiência espaço-temporal fechada. Daí que se opera uma inversão temporal. A experiência que se projeta para o futuro aparece como pronta antes mesmo de ser vivida. Ela já é, nesse sentido, uma experiência passada.

Se a prática do autorretrato não costuma ser habitual nas manifestações de rua, isso se deve ao intenso envolvimento dos participantes com o presente, um campo de possibilidades aberto tanto à criatividade quanto ao perigo. O que os “selfies” das manifestações atuais revelam é, pelo contrário, o empobrecimento da experiência presente. A consequência da reificação espetacular do tempo é a redução extrema do campo de possibilidades do sujeito, uma vez que tudo já está dado. Na experiência reificada como passado, o sujeito se vê desprovido de sua capacidade de ação no presente. Destituído de potência, torna-se presa fácil do ressentimento. 

Giorgio Agamben escrevera justamente que a mídia produz o homem do ressentimento, veiculando sempre acontecimentos findos sobre os quais o sujeito não pode mais agir. Apresentadas como acontecimentos antes de acontecerem, as manifestações atuais propagam o ressentimento, e podem incorrer no esvaziamento de toda força propriamente política - isto é, de uma política não compreendida como simples representação, mas como ação de indivíduos autônomos na construção da vida coletiva.

Com efeito, para o já citado Guy Debord, o espetáculo não estava apenas nas mídias. A moderna democracia representativa seria também uma forma de espetáculo por não dar lugar a uma vida política em comum, reduzindo a participação política à escolha individual de representantes. Nesse sentido, a política representativa comporta já o germe do ressentimento, pois, ao delegarem toda ação política aos representantes, os indivíduos se veem mais uma vez destituídos de potência. Esse ressentimento pode se voltar contra os representantes, ou ainda contra um bode expiatório. Nasce daí a construção paranoica de um inimigo intolerável, o ódio contra um outro que é visto como aquele que pode fazer o que eu não posso fazer; como se a sua potência fosse a razão da minha impotência. No Brasil, vemos a retomada atual da paranoia anticomunista, mais de meio século após o fim do comunismo.

Mas a frustração que resulta de uma participação política limitada ao voto pode também dar lugar à demanda por uma ampliação da vida democrática, para além dos limites da política representativa, como ocorreu em junho de 2013. O Movimento do Passe Livre (MPL), que impulsionou aquelas manifestações, era avesso à política representativa e se construíra através de uma experiência de democracia direta, com horizontalidade e sem lideranças. Já os movimentos que coordenam as manifestações atuais são distintos. O Movimento Brasil Livre (MBL), por exemplo, é um movimento recém-formado e que se esforça por projetar lideranças. Tendo como alvo o governo e afirmando fazer o papel da oposição, seu objetivo resume-se a interferir no jogo de poder existente. Mas fica patente o ressentimento de seus membros para com aqueles que seriam seus representantes. Em um dos vídeos veiculados na internet, o grupo ataca o PSDB, que acusam de incapaz de “ganhar uma mísera eleição”. O impeachment, posto pelo grupo como principal reivindicação do ato de hoje, revela-se assim uma bandeira do ressentimento, trazendo o amargor mal resolvido da derrota nas eleições. 

O ressentimento que nasce da frustração com a política representativa tem como grande risco a adoção de uma via autoritária. Nas manifestações de hoje devemos ver mais uma vez a presença, minoritária mas inquietante, daqueles que, sob a sombra do mais triste dos passados brasileiros, clamam por intervenção militar. O autoritarismo busca justamente recompensar a impotência real dos indivíduos através da identificação imaginária com um Estado onipotente. Acostumada por muito tempo ao autoritarismo, uma parte da população brasileira parece ressentir-se hoje dos trinta anos de experiência democrática. Mas isso pode se dever também ao fato de que a nova ordem democrática, que quebrou a identificação imaginária com o Estado onipotente, não trouxe suficientes ganhos reais de participação política para a população. 

GABRIEL ZACARIAS É DOUTOR EM ESTUDOS CULTURAIS PELO PROGRAMA ERASMUS MUNDUS, DA UNIÃO EUROPEIA, E HISTORIADOR HABILITADO PELO CONSEIL NATIONAL DES UNIVERSITÉS, DA FRANCA

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