Esperança e presságios em Doha

Reunião no Catar mostra como o Hezbollah cresceu na debilidade do Estado libanês e como joga na ambigüidade

Rami G. Khouri*, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2008 | 22h48

O acordo entre os líderes políticos libaneses fechado em um encontro em Doha, no Catar, e o compromisso de prosseguir com as reuniões até que seja resolvido o impasse político atual vai provavelmente trazer paz e tranqüilidade para o Líbano durante algum tempo. Certamente meses. Quem sabe anos. Mas há muito ceticismo concomitante aos sinais de esperança e maturidade que estão despontando. De minha parte, esta é a terceira vez na vida que moro em Beirute - 1958, 1975 e 2008 - e continuo vendo o país marcado por lutas internas e pelo envolvimento de potências e tropas estrangeiras .Uma complexa matriz de problemas define a situação atual. Relações de poder locais, regionais e globais precisam de solução, só que hoje os três níveis estão emaranhados. Vejo dois problemas centrais em disputa no momento, e todo o resto não passa de detalhes.Primeiro problema: se o Estado central não atende às necessidades dos cidadãos, como ele encontrará um equilíbrio de poder com grupos nativos e organizações armadas poderosas como o Hezbollah - que de fato atende às necessidades dos cidadãos com maior eficiência?Segundo problema: afinal, o Líbano é na sua maior parte uma sociedade árabe-islâmica do Oriente Médio, central para os interesses da Síria e do Irã, ou uma sociedade liberal, de caráter mais ocidental, que se encaixa melhor na órbita americana ou francesa?Em ambos os casos, o problema crucial neste momento é a relação entre o Hezbollah e o Estado. Os combates e a crise política das últimas semanas giraram em torno da decisão do governo libanês de restringir certos aspectos do sistema de segurança do Hezbollah. A essa providência o Hezbollah respondeu com uma rápida e decisiva demonstração de força, que sobrepujou os partidários de Hariri e grupos da coalizão 14 de Março, aliados do governo.Duas linhas vermelhas, antes vistas como sagradas, foram ultrapassadas: quando o governo tentou interferir no sistema telefônico do Hezbollah - vital para a rede de segurança do grupo - e quando o Hezbollah e seus aliados usaram a força contra conterrâneos libaneses. Essas duas ações, até então inéditas, ilustram os principais problemas que precisam ser debatidos e resolvidos em Doha e mais além. Ainda assim o encontro de Doha é impedido pela questão persistente que paira sobre todos os problemas atuais do Líbano: o sentimento entre muitos libaneses pró-governo de que o Hezbollah é usado pela Síria e pelo Irã para atender aos propósitos desses dois países.Essas pessoas afirmam que a Síria pretende recuperar o controle sobre o Líbano e retardar - ou impedir - o tribunal internacional que levaria à Justiça os acusados pelo assassinato do falecido primeiro-ministro Rafik Hariri e uma dúzia de outras personalidades. Ao passo que o Irã pretende usar o Hezbollah e sua formidável capacidade militar e logística em qualquer confronto potencial com Israel e os Estados Unidos.Essas são acusações sérias, às quais o Hezbollah permanece vulnerável por causa de sua insistência no uso da ambigüidade como arma estratégica ao lidar com seus oponentes e críticos. O fato é que muitos libaneses simplesmente não confiam no Hezbollah, e esse sentimento aumentou desde os enfrentamentos da semana passada.A emergência do Hezbollah como grupo político-militar mais poderoso do Líbano é aumentada pela sua aliança com o proeminente líder cristão Michel Aoun. A aliança (comandada pelo Hezbollah, porém composta também por grupos menores e similares) exige capacidade de decisão nos ministérios e no Parlamento, que são projetados para refletir o equilíbrio de poder entre os muitos grupos religiosos e sectários do país. Uma significativa reconfiguração do tradicional sistema de divisão dos poderes precisa acontecer.Isso provavelmente pode ser feito de uma maneira que todos os libaneses possam aceitar. O que segue problemático são os temas do armamento do Hezbollah, e da influência do Irã, da Síria e dos Estados Unidos. Portanto, para que prevaleçam a paz e a segurança a longo prazo, o encontro de Doha teria de criar o consenso de uma reforma estrutural, que é urgente no sistema libanês de governo, e também nos valores ideológicos que definem o país.Uma verdadeira mudança no equilíbrio de poder entre os principais grupos religiosos do Líbano significa que os cristãos e os sunitas, em particular, teriam de abrir mão de parte de seu poder em favor do Hezbollah xiita e de seus aliados. Eles relutam em fazê-lo sem garantias quanto ao status e o emprego do armamento do Hezbollah. Isso por sua vez exige que o Hezbollah esclareça sua futura posição de combate, seu relacionamento com Israel, e outros temas importantes.Quando algum dos dois lados depende mais do apoio externo para superar pressões internas, o outro lado se torna mais combativo e ousado. O resultado é o Líbano de hoje, que segue precisando recorrer à ajuda externa para resolver confrontos políticos internos, que também são em grande parte causados por outra ajuda externa anterior.O verdadeiro problema acaba ficando claro: a viabilidade, credibilidade e legitimidade da condição de Estado árabe. O Líbano - como Estado fraco - levou ao nascimento de grupos como o Hezbollah, que proporciona serviços que o Estado enfraquecido não é capaz de oferecer aos cidadãos. O Hezbollah é agora um Estado paralelo. Como podem coexistir o Estado e o Hezbollah? Este é o problema central em torno do qual todos os outros se articulam. É também um problema que aflige muitos outros governos árabes, conforme os anos vindouros provavelmente demonstrarão. *Rami G. Khouri é editor do The Daily Star, e diretor do Instituto Issam Fares de Políticas Públicas e Assuntos Internacionais da Universidade Americana de Beirute, em Beirute, LíbanoQUARTA, 21 DE MAIOA vez de SuleimanApós 18 meses de conflito, líderes do governo libanês e do grupo xiita Hezbollah fecharam acordo em reunião no Catar. O Hezbollah saiu fortalecido: ganhou poder de veto nas decisões de governo. Hoje o Parlamento apontará o militar Michel Suleiman como presidente.

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