Governo do Irã/NYT
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Esperneio atômico

Líderes do Irã se aferram ao programa nuclear, única área em que podem mostrar algum progresso

Meir Javedanfar*,

17 de fevereiro de 2010 | 11h22

O programa nuclear iraniano começou na época do xá. Ele queria a bomba para transformar o Irã numa superpotência do Oriente Médio. Entretanto, muitos iranianos começaram a sentir a necessidade de armamento nuclear de maneira mais aguda depois que Saddam Hussein usou armas químicas contra soldados e civis iranianos durante a guerra que durou oito anos entre os dois países, na década de 80. Os iranianos sentiram-se impotentes, à mercê do "Açougueiro de Bagdá", sem nenhum meio de detê-lo e sem que as violações do direito internacional por Saddam provocassem a menor crítica por parte do Ocidente.

 

Como na época eu vivia no Irá, lembro nitidamente daqueles dias. Um dos meus amigos muçulmanos, meu vizinho, considerava-me seu protetor, embora eu fosse judeu. Por quê? Na sua opinião, para Saddam não importava matar muçulmanos. Mas, raciocinava meu vizinho, ele pensaria duas vezes antes de arriscar a morte de milhares de judeus lançando armas químicas sobre Teerã, porque Israel poderia destruí-lo. Nunca deixei de perceber a ironia e de me orgulhar pelo fato de o meu amigo muçulmano xiita sentir-se protegido porque minha família morava perto da dele num bairro de Teerã.

 

Hoje, muitos iranianos são favoráveis à tecnologia nuclear para produzir eletricidade e atender ao aumento anual de 8% da demanda de energia. Embora o Irã disponha de abundantes reservas de gás e petróleo, eles prefeririam exportar e usar a receita para o desenvolvimento da infraestrutura do país.

 

Mas não se deve supor que o apelo dos líderes iranianos, essa semana, para a aceleração do enriquecimento dos estoques nacionais de urânio tenha sido ditado por esse pensamento. O objetivo principal do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, para levar adiante a atual política nuclear é manter o Irã isolado. Os ultraconservadores de Teerã acreditam que, provocando a ira do Ocidente e mantendo o país à margem da comunidade internacional, será mais fácil reprimir a oposição interna. A segunda prioridade de Khamenei é a esperança de que, quando o Irã se tornar uma potência nuclear, ninguém de fora vá ameaçar o regime.

 

Sentindo-se cada vez mais pressionados, os líderes querem, mais que nunca, avançar com o programa nuclear. Para Khamenei e para o presidente Mahmoud Ahmadinejad, ele é um dos poucos exemplos de progresso alcançado durante a Revolução Islâmica. Com a aproximação do 31º aniversário da revolução, os iranianos olham para seu país e se dão conta de que na maioria dos casos ele retrocedeu. O Irã está mais pobre. A corrupção aumentou. É cada vez maior o número de iranianos com formação superior que prefere deixar o país. A moeda é a terceira menor em valor do mundo. Obter visto estrangeiro com passaporte iraniano tornou-se uma experiência ainda mais humilhante. O programa nuclear é a única área em que o governo julga poder mostrar algum progresso. Dada a situação tão dramática de todo o restante, alardear esse sucesso se tornou um instrumento importante para o governo pedir apoio e reivindicar legitimidade.

 

Há também a questão da longevidade da revolução. A recusa do Irã em aceitar as condições do recente acordo oferecido pela comunidade internacional - que propôs ao país que mandasse para o exterior 75% do seu urânio, para recebê-lo de volta na forma de combustível nuclear - é mais um problema de política interna. Khamenei teme que o acordo promova a imagem de Obama no Irã.

 

A realidade de um presidente negro nos EUA que se chama também Hossein neutralizou anos de declarações do governo iraniano, depois da revolução, de que os EUA são um país racista, anti-islâmico. Além disso, infelizmente para Khamenei, o nome Obama também pode ser pronunciado como "oo-ba-ma", ou "ele está conosco", em farsi. Todos esses fatores tornaram os EUA mais simpáticos ao povo do Irã. A última coisa que Khamenei quer é melhorar a imagem dos EUA mediante a conclusão de um acordo; com isso, seu regime perderia o elemento aglutinador antiamericano do qual depende cada vez mais para preservar sua unidade.

 

O anúncio dessa semana provavelmente não será o último. Devemos esperar de Teerã muitas outras provocações como essas nos próximos meses. Quanto mais ameaçado o regime se sentir internamente, mais tentará provocar o Ocidente.

 

Embora o Ocidente, principalmente Israel, tenha todo o direito de se sentir ameaçado, deve também se lembrar de que se encontra diante de um regime enfraquecido, que perde legitimidade a cada dia que passa e está dilacerado por lutas internas numa escala sem precedentes.

 

A resposta, quando possível, deverá ser equilibrada. Embora as sanções pareçam inevitáveis, têm de visar ao regime. E, se o presidente Obama quiser aplicar um golpe de duplo efeito, deve também abolir as sanções impostas à venda de aviões comerciais ao Irã, que estão tornando a vida dos iranianos muito difícil. Melhorar a imagem do Ocidente entre as pessoas comuns, ao mesmo tempo isolando mais as figuras dos governantes, seria uma ação em duas frentes da qual o regime dificilmente conseguiria se recuperar. Mais difícil até do que de um ataque militar.

Tradução de Anna Capovilla

 

*Analista iraniano-israelense, especialista em Oriente Médio, coautor do livro The Nuclear Sphinx of Teheran: Mahmoud Ahmadinejad and the State of Iran (Carrol & Graf Publi). Escreveu este artigo para The Guardian

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