Espionagem absolvida

PETER BAKER, THE NEW YORK TIMES/WASHINGTON ,

03 de julho de 2010 | 12h16

Ponto. Em Cambridge, a residência de um casal detido

Tiraram o paletó e pularam em cima dos hambúrgueres, falando de tudo, de comércio internacional, de geopolítica e até de suas famílias. De tudo, menos dos espiões que o governo de um deles havia escondido em uma casa a poucos quilômetros dali e o governo do outro estava prestes a prender.

 

A prisão de uma rede de supostos espiões russos não só desbaratou uma operação extremamente sigilosa que vinha sendo realizada havia anos nos EUA, mas afetou, em parte, a iniciativa do presidente Barack Obama de transformar o relacionamento entre os dois países. O timing das prisões, pouco menos de 72 horas depois da visita do presidente Dmitry Medvedev à Casa Branca, frustrou a equipe de Obama. Mas enquanto os promotores montavam o processo, Obama decidiu que não deixaria que os fantasmas do século 20 atrapalhassem seus objetivos no século 21.

 

O governo Obama anunciou na quarta-feira que não expulsaria os diplomatas russos e não manifestou indignação por seu suposto parceiro estar espionando. O plano de Obama é ignorar em grande parte a questão, publicamente, deixando que diplomatas e investigadores se encarreguem dela enquanto ele continua com os assuntos que considera mais importantes.

 

"Gostaríamos de chegar a um nível de tal confiança entre os EUA e a Rússia que ninguém pensasse em recorrer ao serviço secreto para descobrir coisas que não descobriria por outros canais", disse Philip Gordon, secretário de Estado adjunto para a política com a Rússia. "Aparentemente ainda não chegamos lá. Não acredito que alguém nesta sala esteja chocado com essa descoberta."

 

Mas o escândalo dos agentes russos poderá levar os críticos a afirmar que Obama tem sido excessivamente otimista quanto a sua capacidade de reformular uma relação há muito tempo carregada de suspeitas e interesses conflitantes. O episódio poderá complicar os esforços de Obama para convencer o Senado a aprovar o novo tratado de controle de armas que negociou com Medvedev. "Teremos de reformular nossa visão rósea da Rússia e conscientizar-nos de que ela não é uma aliada confiável", afirmou o senador Christopher S. Bond, do Missouri, principal representante da bancada republicana na comissão de inteligência do Senado.

 

Referindo-se à antiga estratégia do presidente Ronald Reagan, Bond disse: "Temos de nos relacionar com eles. Mas não havia um grande presidente que disse ‘confiem, mas verifiquem’?".

Mesmo que Obama consiga superar as dúvidas a respeito do tratado, o escândalo revelou os limites do novo relacionamento. O caso "não deverá comprometer a reformulação das nossas relações porque ambos os lados investiram muito no sucesso desse programa", afirmou Angela E. Stent, ex-funcionária do Conselho Nacional de Inteligência, atualmente na Universidade Georgetown. "Mas ele deve nos lembrar que as relações russo-americanas continuam sendo uma parceria em campos específicos sempre que persiste o legado da Guerra Fria."

 

O problema para Obama está em parte no fato de que seu desejo de redefinir a relação foi interpretado erroneamente como um esforço para redefinir a própria Rússia, disse Samuel Charap, acadêmico do Center for American Progress. "Serve para lembrar que, na realidade, a Rússia é sempre a Rússia e Putin é sempre Putin."

 

Não deve surpreender se os dois países ainda usam agentes para se espionarem, duas décadas depois do fim da Guerra Fria. Mesmo aliados próximos como Israel foram apanhados espionando aqui. A história recente mostra que Washington e Moscou conseguiram deixar para trás esses episódios quando seus governos estavam determinados a cuidar de outras questões.

 

George W. Bush enfrentou esse desafio na sua presidência, com a prisão de Robert Hanssen, agente do FBI apanhado trabalhando para a Rússia. Na ocasião, Bush expulsou 50 diplomatas russos e Moscou fez o mesmo com 50 diplomatas americanos. Mas três meses mais tarde ele se reuniu com Putin, então presidente, e declarou ter conhecido um parceiro ideal com o qual poderia trabalhar.

 

Este caso deveria ser mais fácil de resolver sem expulsões porque o suposto foco de espionagem aparentemente não conseguiu entrar em nenhum ponto importante da segurança nacional. Os líderes russos parecem interessados em minimizar o caso. Embora Moscou inicialmente afirmasse que as acusações eram "infundadas", o Ministério do Exterior retirou pouco depois essa avaliação do seu site e confirmou que os suspeitos eram cidadãos russos. Putin disse que as autoridades americanas perderam o controle ao realizar as prisões, mas depois minimizou o episódio afirmando que as relações "não sofrerão". O comentário russo sugeria em grande parte que as prisões foram uma iniciativa de forças obscuras no governo americano para minar a estratégia de redefinição de Obama.

 

Em um telefonema entre Serguei Prikhodko, assessor de política externa de Medvedev, e o general James L. Jones, assessor de Obama para a segurança nacional, o russo enfatizou que Moscou queria resolver a questão sem comprometer as mudanças positivas do relacionamento entre os dois países.

/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.