Espionagem e drogas, sob a batuta da CIA

Para seus objetivos, agência associa tráfico e política

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2009 | 02h00

QUARTA, 28 DE OUTUBRO

Nem a ONU escapa

A ONU anuncia que não se intimidará com o ataque a uma de suas instalações em Cabul, no qual morreram cinco pessoas - mas mudará a segurança. O Taleban reivindicou a autoria do atentado, motivado pelo apoio das Nações Unidas às eleições afegãs do dia 7.

Juntas e separadas, a CIA e as drogas foram as maiores estrelas do noticiário da semana. Na segunda-feira, a revelação de que Juanita Castro, irmã caçula de Fidel e Raúl, espionou para a CIA, em Cuba, com o codinome de Donna. Na quarta, outro espião saiu (ou melhor, foi saído) do armário: Ahmed Wali Karzai, irmão do presidente do Afeganistão, Hamid Karzai. Juanita largou a segunda mais antiga profissão do mundo quando trocou Havana por Miami em 1964, ao contrário de Ahmed Karzai, a soldo da CIA desde 2001, segundo o New York Times.

Foi um furo e tanto de três enviados do Times a Cabul. O irmão do presidente afegão estaria metido no tráfico ilegal de papoula e ópio, de cambalacho com agentes da CIA, responsável por uma força paramilitar de combate aos rebeldes taleban, ao sul de Kandahar, cujos efetivos Ahmed Karzai recrutou pessoalmente. Mesmo com uma vantagem proporcional de 12 x 1, segundo a Associated Press, as forças americanas e seus aliados afegãos continuam perdendo a guerra. Só em outubro, a insurgência taleban matou 55 americanos, recorde mensal desde que a guerra, tida, inexplicavelmente, como "necessária" pelo presidente Obama, teve início.

Estaria Ahmed usando ou sendo usado pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos? Eis uma dúvida a ser esclarecida com o máximo de urgência e rigor investigativo.

Malvisto pelo governo Obama, também pesa sobre Ahmed a suspeita de haver falsificado dezenas de milhares de cédulas eleitorais na eleição que levou seu irmão à presidência, cinco anos atrás, e ajudado a capturar e extraditar um dos líderes do tráfico de ópio, Hajii Bashir Noorzai, em 2005, só para encampar uma parte de seus negócios. Mas contra ele Washington nada fez até agora. A julgar pela reportagem do Times, nem seus proventos a CIA cortou.

A família Karzai é bem o retrato de uma "república da papoula", a versão islâmica da nossa mui conhecida república de bananas. Segundo um ex-agente da CIA com larga experiência naquelas lonjuras, quase todos os figurões do Afeganistão têm um pé (e às vezes os dois) no tráfico. "Quem quiser encontrar uma madre Teresa na Ásia Central e no Oriente Médio, que a procure em outro lugar", aconselhou. "Não há clima para ela no Afeganistão."

Presume-se que, num ambiente desses, o melhor que Obama tenha a fazer não é corvejar, hamletianamente, sobre se deve ampliar o contingente de soldados americanos no Afeganistão ou levar de volta os que lá estão, mas investigar as nebulosas relações da CIA com a indústria do ópio. E não apenas para evitar que outros helicópteros com funcionários do Departamento de Justiça e Aduana dos Estados Unidos sejam derrubados por guerrilheiros taleban, como aconteceu na última segunda-feira. Mais de mil soldados americanos já morreram na "reconstrução" de um novo Afeganistão.

O ópio foi introduzido naquela região há mais de 2.300 anos, pelo exército de Alexandre Magno. Seus soldados foram enxotados de lá, como, aliás, todos os estrangeiros que tentaram dominá-la, mas as papoulas ficaram. O Afeganistão hoje cultiva e produz 80% do ópio que o tráfico transforma em heroína; é uma narcopotência, em que até os aliados dos americanos se beneficiam da indústria da droga e sua intrínseca corruptibilidade.

Antes da intervenção americana, em 2001, o regime taleban havia virtualmente eliminado a produção de ópio no país. Como entender sua recrudescência com os Estados Unidos controlando as finanças e tudo mais no Afeganistão? Talvez recapitulando o passado da CIA e seu insidioso envolvimento com o tráfico de heroína no Sudeste Asiático, durante a Guerra do Vietnã, e depois, com o tráfico de cocaína, durante a guerra do governo Reagan contra os sandinistas nicaraguenses.

Embora excelente e rica em informações, a matéria do Times sobre o suborno a Karzai não se reporta a antigas intimidades da inteligência americana com o tráfico de drogas. Talvez por uma questão de pudor.

O Times se comportou muito mal - e não apenas o Times, mas também o Washington Post, o Los Angeles Times e quase toda a grande imprensa americana - quando estouraram as primeiras acusações contra abusos da CIA na Nicarágua, e mesmo mais tarde, ao engavetar uma bem fundamentada denúncia das operações de espionagem doméstica montadas, ilegalmente, pela Agência Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos, no primeiro governo de George W. Bush, feita por James Risen, por coincidência, um dos três repórteres que agora tiraram a máscara de Karzai.

(A denúncia de Risen, só divulgada pelo Times depois da reeleição de Bush, virou livro, em 2006, com o título de State of War: The Secret History of the CIA and the Bush Administration.)

O primeiro deslize, porém, jamais foi reparado. O Los Angeles Times ainda se retratou, com atraso, é verdade, mas o New York Times jamais se desculpou publicamente pelo mal feito ao repórter investigativo Gary Webb, vencedor do Prêmio Pulitzer e primeiro herói-vítima do conúbio CIA-drogas.

Em 1996, Webb publicou, no San José Mercury News, uma série de três artigos sobre o contrabando de cocaína, bancado pela CIA, com o objetivo de angariar fundos para os contras da Nicarágua, então impedidos pelo Congresso americano de receber qualquer ajuda oficial dos Estados Unidos. Transformada em crack e distribuída na área de Los Angeles, a droga destruiu a vida de muitas famílias americanas, sobretudo de negros e pobres. Por inveja, ressentimento ou sabujice, os dois Times, o Post e outras publicações de expressão nacional investiram contra Webb, desqualificando seu trabalho como "falho", "leviano" e "irresponsável". Quando afinal se provou que Webb acertara em cheio, era tarde demais: ele já perdera o emprego e, desiludido, abandonara a profissão.

É um dos mais tristes capítulos da história da imprensa contemporânea e sua leniência com o poder estabelecido e, por tabela, com o tráfico de drogas.

Webb morreu em 13 de dezembro de 2004, aos 49 anos. O legista encarregado do caso optou pela hipótese de suicídio, sem esclarecer qual dos dois ferimentos a bala na cabeça do jornalista afinal o suicidou.

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