Espírito livre

Cantora das Pussy Riot faz uniformes enquanto puxa 2 anos, mas continuará protestando, diz marido

JAMIL CHADE, GENEBRA, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2013 | 02h10

Hoje, na Rússia, um jovem pode ser preso por discordar do poder estabelecido. A Rússia tornou-se um país de faz de conta." O alerta é de Pyotr Verzilov, marido de Nadezhda Tolokonnikova, uma das integrantes do grupo punk Pussy Riot condenada em 2012 a dois anos de prisão por "vandalismo" depois de a banda ter invadido num protesto uma missa na Catedral de Cristo Salvador, em Moscou.

A performance foi há pouco mais de um ano, em 21 de fevereiro de 2012, e a prisão de três das cinco cantoras ocorreu dez dias depois. Em agosto, duas delas foram condenadas a dois anos de prisão e hoje dedicam o tempo a costurar roupas na fábrica da cadeia. "É para que não possam pensar", denuncia Verzilov. Ele atua como uma espécie de porta-voz do movimento e falou ao Estado sobre o significado da luta da família.

O russo esteve em Genebra em sua campanha mundial por apoio a Nadezhda, que já conta com o respaldo de Madonna, da Anistia Internacional e de Yoko Ono.

Verzilov conheceu Nadezhda ainda na faculdade de filosofia e é ele quem cuida hoje da filha de 4 anos do casal. "Ela diz que vai derrubar o muro da prisão com um trator para recuperar a mãe", conta, num tom que oscila entre o orgulho e a frustração.

Verzilov ficou mais de cinco meses sem ver a mulher no ano passado. Mas insiste que sua luta, assim como a das demais integrantes do grupo, vai continuar. Ele rejeita a acusação de que a banda Pussy Riot teria abusado da provocação ao interromper uma missa. "Do ponto de vista artístico, provocação é uma palavra que não existe", afirma. "O que existe é a necessidade artística. Não se pode dizer que Cézanne foi provocador porque usou cores diferentes. Nem Picasso. Suas obras revolucionaram o modo como olhamos a pintura e nem por isso foram chamadas de provocação."

Segundo ele, o que a Pussy Riot fez foi usar métodos inusitados para passar uma mensagem quando acharam que a tática convencional já não funcionava. O ato de protesto, argumenta, foi uma resposta à iniciativa do patriarca de Moscou de fazer campanha por Vladimir Putin. "O que o protesto dizia, no fundo, é que a Igreja não tem o direito de fazer campanha por um candidato."

Os olhos azuis brilhantes de Pyotr destacam-se no rosto pálido de barba por fazer. Em inglês fluente, ele insiste que a mulher se transformou na prisioneira mais conhecida da Rússia e alerta que a situação no país é bem mais grave que o caso de um grupo rebelde de cantoras sendo presas.

"Minha mulher sabe que está cumprindo uma missão nesses dois anos. Não será um tempo perdido. Sua prisão é um sintoma de que a Rússia está se transformando num país em que a polícia pode prender praticamente por qualquer coisa. Elas foram as primeiras a serem presas. Antes disso, tínhamos pessoas presas por motivos políticos, mas não pelo crime de cantar na igreja", disse. Para ele, Putin deixou claro que não vai parar, nem tolerar questionamentos de seu poder.

"O Parlamento aprovou nos últimos meses leis absurdas, como as que restringem o que considera promoção do homossexualismo e as que proíbem protestos e críticas às instituições religiosas. A Rússia se transformou num país de faz de conta. Uma classe milionária acha que vive em um país desenvolvido e o restante da população vive sob uma ditadura", insistiu.

"Nos anos 1990, houve uma esperança de que as liberdades básicas se consolidariam. Não durou muito. O que ocorre hoje é que Putin quer um retorno à Rússia dos anos 1970, quando ele era jovem. Eram seus dias de KGB, seu ideal de estabilidade."

Segundo Verzilov, os jovens não vão aceitar essa situação sem pelo menos lutar. "Claro que há uma parte dessa juventude em silêncio, mas nas grandes cidades as mobilizações têm sido importantes." Para ele, não há como jovens artistas ignorarem a situação e ficar calados. "A energia de lutar contra essa realidade vem do fato de que simplesmente não podemos aceitá-la", disse. "Artistas ou quaisquer pessoas envolvidas em questões sociais e políticas não conseguem calar-se quando certas coisas ocorrem a seu redor."

Sobre o estado de espírito de Nadezhda, Verzilov admite que ela está fatigada. Chegou a ser transferida por alguns dias para um hospital por causa de constantes dores de cabeça. "Os guardas russos estão com medo de que alguma coisa ocorra com elas. Sabem o impacto que isso teria."

No dia 8, Nadezhda deu sua primeira entrevista a um veículo de comunicação estrangeiro e confirmou que continuará a ter uma posição ativista, tanto dentro da prisão como quando estiver fora. Em declarações ao jornal britânico The Guardian, ela garantiu: "Minha vida não vai mudar, mas haverá novos elementos chave devido à experiência que estou tendo aqui. E os vetores da política e da arte continuarão a ser os mesmos."

Nadezhda contou como é a vida na colônia prisional de Mordóvia, no centro da Rússia. Não tem nenhuma expectativa de ser libertada mais cedo, apesar da audiência marcada para o dia 26 para avaliar um pedido de liberdade condicional. "Para mim a audiência não significa nada", afirmou. "No nosso caso, o governo quer que admitamos a culpa, o que obviamente não faremos."

O tempo consumido no trabalho de costurar uniformes militares é contrabalançado pela leitura nos momentos livres. "Tento usar o tempo de forma construtiva, produtiva, criativa.".

A prisão das cantoras está definindo a imagem da Rússia no mundo muito mais que a organização de Jogos Olímpicos ou da Copa do Mundo de 2018, afirmou o marido de Nadezhda ao Estado. "Não tínhamos ideia de que as cantoras seriam condenadas a 2 anos de prisão. Mas Putin também não tinha ideia de que isso se transformaria num pesadelo para sua imagem."

Segundo o marido, Nadezhda está exausta, mas sabe que precisa continuar lutando. "Ela se transformou em exemplo para milhares de meninas russas", completou Vearzilov.

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