Esquecendo Pirro

Corrida armamentista com a Turquia é uma das razões da crise da Grécia, país pequeno que gasta em defesa 6,8 bilhões por ano

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 01h42

Ao mesmo tempo em que a Grécia luta para sair do naufrágio, chega a Atenas o primeiro-ministro turco, Recep Tayyp Erdogan, acompanhado de dez ministros de Estado. O que todos esses turcos estão buscando numa Grécia arruinada que é sua inimiga ancestral?

Entre os dois países o ódio é tenaz. A Grécia foi dominada pelo Império Otomano durante quatro séculos. Depois do desaparecimento do império (1920), as disputas entre os dois Estados do Mediterrâneo Oriental foram violentas: em 1974, a parte norte da ilha de Chipre foi invadida pelos turcos. E são inúmeros os litígios territoriais entre os dois países nas ilhas do Mar Egeu.

Grécia e Turquia estão armados até os dentes. São nações grotescas. A Grécia consagra somas enormes de dinheiro ao seu Exército. O orçamento militar grego em relação ao PIB - Produto Interno Bruto - é o segundo da Otan, depois do dos Estados Unidos. A crise financeira que atinge a Grécia atualmente foi provocada pelo custo do seu Exército. O Mar Egeu, entre os dois países, é uma das zonas mais militarizadas do mundo.

Claro que a viagem do premiê turco não foi decidida por causa do desastre financeiro de Atenas. Mas ocorre num bom momento. Esperemos que os dois países tenham se cansado de se odiar e agora partilhem o desejo de pacificar suas relações, pôr um fim a essa ridícula corrida armamentista.

Se essas boas intenções se concretizarem, a Grécia poderá encontrar um grande balão de oxigênio. "Essa corrida armamentista é uma das razões da crise grega. Nem Grécia nem Turquia necessitam de submarinos franceses ou alemães", declarou o ministro turco para os assuntos europeus.

Atualmente a Grécia gasta 6,8 bilhões por ano com seu Exército. Uma soma enorme para um país pequeno e arruinado. Menos soldados, menos aviões e menos navios poderiam ajudar Atenas a reencontrar o equilíbrio das suas contas.

E nesse ponto encontramos Alemanha e França, os dois países que empurraram o resto da Europa a vir em socorro da Grécia, com o fornecimento de uma ajuda de 750 bilhões. É acaso, se Berlim e Paris são os maiores fornecedores do Exército grego?

Um rumor circulou em Paris quando França e Alemanha impuseram esse plano de ajuda para a Grécia. O que se comentou é que o apoio de Paris e Berlim foi dado com a condição de os gregos manterem suas compras de armas francesas e alemãs. Interrogado a respeito, o ministro adjunto da Defesa da Grécia negou energicamente o fato.

A questão está em aberto. O governo precedente da Grécia assinou um acordo com Paris para compra de fragatas no valor de 2,5 bilhões. As negociações continuam. Chegarão a bom termo? E é possível compreender que um país que quase chegou à falência e foi salvo (provisoriamente) por uma ajuda financeira colossal da França, Alemanha e a Europa, insista em despender 2,5 bilhõespara comprar fragatas inúteis da França?

Se o contrato for assinado, então o plano de ajuda da Europa para os gregos terá conotações muito estranhas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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