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Esqueletos à espreita

Se números podres escondidos em balanços bancários mundo afora e governo não atrapalharem, o Brasil terá um bom ano-novo

Edmar Bacha*, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2009 | 00h09

São boas as perspectivas da economia brasileira para 2010. Os indicadores disponíveis apontam para um crescimento vigoroso do PIB, da ordem de 6%, com a inflação dentro da meta de 4,5%. O ano de 2009 ajuda no desempenho esperado para 2010. Como o PIB começou lá em baixo e depois foi se acelerando, 2010 deverá começar com um PIB entre 2% e 3% maior do que a média deste ano. Isso quer dizer que os 6% estão à vista mesmo que a economia desacelere nos próximos meses.

A outra ajuda de 2009 é na inflação. Cerca de 30% dos produtos que entram na cesta que a medirá em 2010 dependem em parte do IGP-M de 2009, que será muito baixo, negativo, na verdade. Portanto, mesmo que os "preços livres" cresçam mais do que em 2009, a inflação não deverá superar a meta em 2010.

O que pode dar errado? Os riscos maiores vêm de fora, pois nosso crescimento depende da poupança externa. Em 2009, o déficit do balanço de pagamentos em conta corrente deve superar US$ 20 bilhões (1,3% do PIB) e para 2010 se projeta um déficit de até US$ 60 bilhões (3,3% do PIB). Por enquanto, não há problema de financiamento, pois o apetite pelo "risco Brasil" é grande lá fora e há excesso de entrada de capitais estrangeiros.

Entretanto, a confiança na retomada mundial que alimenta esses fluxos é tênue. Depois de cair 1,2% em 2009, espera-se que o PIB mundial ganhe 4% em 2010. Mas tal virada está sendo impulsionada por respiradores artificiais: massivos estímulos fiscais e monetários introduzidos desde o estouro da crise, em 2008. Se eles forem retirados prematuramente pode ocorrer um novo mergulho recessivo, de cujos efeitos não escaparíamos.

Outro risco que vem de fora são as bombas de efeito retardado: só neste final de 2009 houve a moratória de Dubai, a nacionalização de um banco austríaco e a piora da classificação de risco da Grécia. Que outros esqueletos ainda se escondem nos balanços dos bancos mundo afora?

Bancos enfraquecidos não auguram uma retomada econômica forte dos países industriais, o que aumenta a importância da manutenção do crescimento da China. Isso vem ocorrendo a taxas até maiores do que se antecipava, mas a relutância das autoridades chinesas em deixar o yuan se apreciar mostra quão inseguras ainda estão sobre a capacidade de o mercado interno chinês assegurar a continuidade do crescimento do país. A perda de vigor do crescimento da China, com seu fenomenal apetite pelas commodities brasileiras, é o terceiro risco que vem de fora.

Dentro do País, o maior risco vem da expansão descontrolada dos gastos do governo e dos empréstimos dos bancos públicos em ano eleitoral, pois ela alimenta o déficit externo e a inflação. Essa expansão já era um problema antes de crise estourar, em setembro de 2008: como o gasto do governo e o crédito dos bancos públicos cresciam sem parar, a demanda por bens e serviços se expandia a uma taxa maior do que a economia conseguia suprir. Em consequência, a inflação tendia a aumentar, o que só não se materializava porque o Banco Central aumentava os juros.

Com a crise, o que era um vício, virou uma virtude temporária. A crise contraiu as exportações, os investimentos e o crédito privado. Portanto, os gastos do governo e o crédito público em expansão preencheram uma lacuna. Junto com as isenções tributárias, a liberação dos compulsórios e a queda dos juros evitaram que a recessão se agravasse e contribuíram para uma rápida recuperação da economia.

Tudo bem enquanto há capacidade ociosa. Mas no ritmo que a demanda interna vem crescendo, em meados de 2010 já estaremos com a capacidade de produção esgotada. É preciso moderar os gastos do governo e a expansão do crédito dos bancos públicos. Não é isso, entretanto, o que acontece. Ainda este mês, novas isenções fiscais foram anunciadas, a Caixa incorporou o Banco Panamericano e o BNDES recebeu mais R$ 80 bilhões do governo.

Assim, para evitar que a inflação comece a desprender-se da meta e ameace disparar em 2011, só restaria ao Banco Central a alternativa de aumentar os juros. E se o Banco Central entrar no jogo eleitoral e não aumentar os juros? Isso significaria que, na ânsia de eleger sua candidata, o governo estaria alinhando o Banco Central com uma política econômica inflacionária. Aí que o bicho pega, pois, percebida a tempo pelo público, essa política poderia até facilitar a eleição de um candidato da oposição comprometido com a austeridade fiscal e o controle da inflação. De qualquer modo, o próximo presidente teria uma batata quente nas mãos. Isso sim é que seria uma herança maldita.

Edmar Bacha, Economista, diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica Casa das Garças e consultor sênior do Banco Itaú BBA

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