Essa voz tamanha

A mãe de Caetano e Bethânia é muito mais que mãe de Caetano e Bethânia

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2007 | 17h34

- Alô. É da casa de Dona Arlete? Eu poderia falar com ela? Dona Arlete! Graças a Deus, passou tudo ótimo. Eu ainda tenho de descansar, Dona Arlete. Ainda não descansei. Mas foi demais! Ave Maria! Agora eu queria agradecer a doutor Antonio e a seu neto também. Me abraçaram chorando. Fiquei tão emocionada com aquilo, meu Deus. Coitados, eles ficaram sem eu poder dar atenção. Mas foi muito bonito. A chegada de Nossa Senhora Aparecida, Dona Arlete, foi um festival. Foi. Foi num caminhão de bombeiro. Foi gente que não acabava mais nessa cidade. Doutor ACM sempre dizia isso. Me agradava, me beijava na testa e me dizia ?o amor da Bahia?. Vai indo, dona Arlete, vai indo, felizmente o tempo corrói as pedras brutas. Eu posso não ver seus 100 anos, mas eu queria que chegasse pra senhora também. Quem é senhora, Dona Arlete? Tinha graça Dona Arlete me chamar de senhora? Eu sou velha, mas não sou senhora mais não. Enquanto Dona Canô desfia um colóquio telefônico com a viúva de Antonio Carlos Magalhães, chega Sua Santidade, o papa. Por intermédio de bênção paga, mas chega. O quadro envidraçado com a imagem de Bento XVI concede de coração a desejada bênção apostólica a Claudionor Vianna Telles Velloso por ocasião de seus 100 anos e invoca, por intercessão de Maria Santíssima, a abundância das graças divinas. Dona Canô se despede de Dona Arlete, abre sorriso de veraneio e abraça o quadro. - Pensa que eu sou qualquer coisa?Dona Canô está de molequice. Sabe que é muita coisa, mas não se gaba disso. Gosta de brincar com a própria celebridade. Insiste que sua vida não tem assim tanta importância, mas o povo pensa diferente. Na casa branca de janelas cobalto da Avenida Viana Bandeira, centro de Santo Amaro, não pára de chegar gente para lhe dar um cheiro e cumprimentar pela festança de domingo passado, quando aproximadamente 1.400 pessoas acorreram à Matriz de Nossa Senhora da Purificação para a missa em homenagem ao seu centenário. Quem chega à porta são amigos da cidade, conhecidos de Aracaju, um casal de Portugal, ônibus de turismo. Ela ajeita o metro e meio na cadeira de plástico e recebe um beijo atrás do outro no cocuruto. O braço esquerdo exibe uma mancha roxa. Tem outras duas nas canelas. Foi de fiéis que, no afã de se aproximar dela na entrada da igreja, tocaram-lhe com um pouco mais de fervor. - Não dói agora. Dói na hora em que apertam. Eu digo "vai ficar roxo". É a pressão da idade. A fisioterapeuta ronda a área. Quer fazer massagem para ajudar na circulação e, se sobrar tempo antes do almoço, estimular Dona Canô a esticar as juntas na barra de madeira parafusada ao lado da cama. Como todo mortal, Dona Canô precisa de exercício, ainda mais depois de levar um tombo de costas há três anos depois que um dos cinco bisnetos pulou no seu colo. Ela curva o corpo para que eu sinta a vértebra saltada no meio da coluna. Anda sempre apoiada em alguém porque não se acostumou com bengala. Rodrigo, filho de espírito galhofa, tem outra versão. Diz que médicos estrelistas disseram a Dona Canô que não era bom ficar dependente do apoio. "Uma mulher nessa idade tem por que não ficar dependente de uma bengala? Eu mesmo já estou precisando de uma!"O tecelão Rodrigo é o quarto na ordem filial. Primeiro vem Nicinha, de 78 anos, filha adotiva. Depois Clara Maria, de 75; Maria Isabel, de 73; Rodrigo Antônio, de 72; Roberto José, de 68; Caetano Emanuel, de 65; Maria Bethânia, de 61; e Irene, de 50 e tantos, também adotiva e prima de segundo grau de Nicinha. Rodrigo ou Digo, como a mãe chama o filho, parece damo de companhia. No momento, está à beira da assessoria de imprensa. Praticamente abandonou a própria casa em Salvador para pilotar o assédio a Dona Canô. Veste uma camiseta com a foto da mãe e atende a campainha de braços escancarados. Nos intervalos providencia a arrumação de pacotes de fraldas, caixas de sabonetes e latas de leite em pó doados pela população a pedido da mãe, que não quis presentes individualistas. Uma órfã moradora de abrigo pergunta se tem agulha de crochê. Rodrigo oferece um saco com o apetrecho, mais novelos de linha e um chumaço de lã. Dona Canô não reclama.- Eu tava fazendo, deixei. Fiz tanto... Não dá. Cansei. Dona Canô devia ter substituído Dona Sangalo no pífio movimento de agosto passado contra o descaso no Brasil. Na terça-feira, em cerimônia na Câmara dos Vereadores que tratava da criação de um câmpus da Universidade do Recôncavo Baiano na cidade, ela passou um carão nos que ficam de braços cruzados diante de tamanha emergência. Disse que até podia ligar para as autoridades (como sempre liga), mas que o povo, especialmente a juventude, precisa se mexer. Santamarenses em peso, "tirando alguns da soberba aristrocracia", como lembra o ex-vereador Chico Porto, vêem Dona Canô como embaixatriz do município. Nascida em 16 de setembro de 1907 de mãe simples, só veio a conhecer o pai pouco antes de ele morrer, quando seu Anízio Cezar mandou chamá-la ainda menina. Desde pequena fez parte de "dramas", "bailes pastoris" e "reisados" que aconteciam nas usinas de Doutor Batista e Dona Sinhazinha. Apurou a voz gostosa nas Capelas de Capanema e Passagem e, no Colégio das Irmãs Sacramentinas, aprendeu a costurar, a tocar piano e a falar francês. Namoradeira ela era, mas apaixonou-se por José Telles Velloso, funcionário dos Correios e Telégrafos. Em um ano e meio estavam de matrimônio marcado, vindo a morar na casa dos pais dele com mais 24 pessoas. Mudaram-se para a moradia atual, esta branca e azul, hoje com 9 quartos embaixo e dois salões em cima, depois que ela achou um trevo de quatro folhas e seu Zeca ganhou na Loteria Federal. Criaram os filhos sem exaltação, com amizade. Não eram pais de exigência, mas... - Antigamente a liberdade demorava até os filhos se aprumarem. Os meus, quando criaram asa, já estava tudo bem de vida. Hoje os filhos compram logo um carro, alugam apartamento e saem de casa. É a evolução do mundo.O casal ficou junto por 53 anos, até seu Zeca sucumbir ao câncer de próstata. Dona Canô, que nunca teve moléstia de precisar de cirurgia nem de hospital, foi parar num leito para fazer companhia ao marido. À revelia da enfermagem, juntava as camas e dormia ao lado dele. Seu Zeca queria voltar para casa. Assim foi. - Ele andou até a hora de morrer. Não foi pra cama, como hoje, que a pessoa fica até desfeita, desaparecem as feições. Nada, nada, nada. Ele morreu com o corpo que tinha. Os filhos e os médicos achavam que ela iria junto de tanto que se abateu. Mas Caetano pediu: "Minha mãe, não chore por meu pai". Diz que dona Canô nunca mais chorou, nem quando o amigo ACM morreu, em julho último. Levou três dias sem poder nem conversar, mas agüentou o tranco.Já Santo Amaro sofreu duro golpe há alguns anos, quando foi classificada como uma das cidades mais poluídas do mundo por metais pesados. Corre nos bastidores um projeto de descontaminação por causa do prejuízo ambiental gerado pela Cobrac, subsidiária da empresa francesa Penarroya Oxide S.A., uma das líderes mundiais na produção de óxidos de chumbo. Em 33 anos, a empresa despejou na cidade cerca de 300 mil toneladas de escória com alta concentração do mineral, usada inclusive para completar o aterramento das ruas. Muitos ex-trabalhadores e moradores do entorno da fábrica, hoje fechada, sofrem com paralisia nas mãos, câncer de pulmão, lesões renais, anencefalia nos bebês. O governo criou a Comissão da Purificação, que pretende despoluir o município e, ao mesmo tempo, revitalizar o ecossistema e a vida cultural. Nossa Senhora da Purificação, padroeira da cidade, há de ajudar. Assim como Dona Canô, que já tem prefixo de santa. Cidade que ostentou mais de cem periódicos, pátria do engenheiro e historiador Teodoro Sampaio, do compositor Assis Valente, do curador-chefe do Museu Afro Brasil, Emanoel Araujo, Santo Amaro tenta se reerguer com o Teatro de Dona Canô, inaugurado faz seis anos. A abertura da Casa do Samba na sexta-feira passada, num evento empilhado de figurões nacionais, também parece ter o dedo discador dela. Dona Canô até pensou em fazer ali, no Solar Araújo Pinho, finamente restaurado, a festa da ressaca do centenário, no próximo dia 16, com muito maculelê, samba de roda e capoeira, tudo regado a maniçoba. Rodrigo acha que é o caso de uma celebração mais íntima. Certamente vão convidar Caetano e Bethânia, rebentos de Mãe Canô, "a obra-prima de Santo Amaro", como salienta uma das faixas em frente da casa branca e anil.

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