Esses inimigos tão parecidos

Os 16 anos de competição entre PT e PSDB trouxeram vantagens e problemas ao País. É hora de mudar?

Renato Janine Ribeiro*, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2009 | 00h26

No Brasil pré-1994, muitos cogitaram uma aliança entre o PT e o PSDB para a sucessão de Itamar Franco. Não deu certo. Essa proposta se baseava num raciocínio simples e forte.

Eram e são os melhores grandes partidos brasileiros. Em 1994, até o Plano Real, Lula liderou as enquetes de opinião para o Planalto. Isso só mudou em julho, dias depois do fim da inflação. A oposição do PT à corrupção e seu compromisso com as classes pobres auguravam uma significativa mudança social. Ora, esses pontos também eram essenciais para o PSDB, mais jovem, que parecia ter nascido de uma cisão da esquerda do PMDB. Diante da direita ditatorial e da corrupção, as duas agremiações poderiam construir uma grande aliança de centro para esquerda.

Não deu certo. A oposição entre os dois se radicalizou. O PSDB assumiu bandeiras que Collor quisera, sem êxito ou sabedoria, implantar. Para usarmos um adjetivo de Gramsci, Collor não soube ser "orgânico" à burguesia, enquanto FHC o soube, ou melhor, foi insider nela. Collor foi o outsider que tenta, percebendo as mudanças no mundo (o fim do comunismo e a generalização do thatcherismo), ocupar espaço político e econômico maior do que pode. Por isso FHC teve êxito onde ele fracassou. Já o PT manteve as teses anteriores a esse namoro.

Foi muito bom, porém, que a aliança PT-PSDB não desse certo. Caso funcionasse, ela suscitaria uma aliança de direita - que poderia triunfar, até porque na ocasião o PSDB só poderia pleitear a vice-presidência de Lula, muito popular após a queda de Collor. Já nas últimas quatro eleições, nenhum candidato de direita disputou a presidência com chances de obtê-la. Ela se tornou apêndice, sobretudo do PSDB, que ocupou o espaço que poderia ter sido do PFL, hoje DEM.

Para quem se coloca entre o centro e a esquerda, temos um balanço positivo e um negativo da não aliança entre PT e PSDB em 1994. A vantagem foi que esses partidos assumiram a liderança política do País. A desvantagem foi que cada um teve de se aliar a partidos criticados pela opinião pública. Na frase atribuída a Fernando Henrique, disputam quem lidera o atraso. Enfatizando o verbo, diremos que ter lideranças como as desses dois partidos foi bom. Se enfatizarmos o objeto direto, não foi bom se atarem ao atraso.

É hora de fazer o balanço desses 16 anos de competição entre os dois partidos e perguntar se caberia mudar de estratégia. Foram anos de tranquilidade política, sem suspensão de direitos nem crise institucional. Tivemos dois presidentes que se destacam no contingente de nossos chefes de Estado. Contudo, fica a questão das alianças que firmaram. As alianças do PSDB contradizem as razões alegadas para ele se separar do antigo PMDB. As alianças do PT contradizem o histórico de honestidade que ele construiu ao se erguer das bases da sociedade brasileira.

Tendem, os simpatizantes de um e de outro, a culpar por seus malfeitos os aliados. Ora, chegou o momento em que as desvantagens do conflito superam suas vantagens? As crises no comando do Congresso levam a questionar se ainda é compensadora essa participação subalterna do velho Brasil. Presidentes do Senado e da Câmara foram fortemente questionados; três deles renunciaram.

O sistema pelo qual alianças com "o atraso" garantem a liderança pelo "avanço", e excluem "o atraso" do protagonismo político, gerou decepção com os políticos e a política em geral. Este seria um argumento para uma grande coalizão dos dois partidos, promovendo reformas que assegurem uma política mais republicana em nosso país, isso supondo que sejam os dois partidos mais empenhados nas causas democráticas, desde a luta contra a ditadura.

Seria viável essa aliança? É difícil - já não tanto por oposições programáticas. E embora continue havendo diferenças, hoje ambos disputam um espaço próximo, que politicamente é o do centro, economicamente é o do apoio empresarial às campanhas, depois das eleições é o da ocupação de cargos. O caráter de disputa política cedeu espaço ao de disputa por espaços. Isso explica o caráter quase histérico da disputa política, no Parlamento, na imprensa e mesmo na opinião pública: justamente quando os dois principais partidos se veem envolvidos no "valerioduto", cada um lança a culpa no outro e ignora sua responsabilidade.

Imaginemos uma agenda comum entre PT e PSDB, tratando dos pontos de convergência, sem esquecer que se vai depois à disputa eleitoral. Deveria ser uma agenda de reformas rápidas e necessárias, uma forma de lancetar abscessos. O mais evidente é a contaminação da política pelo financiamento das campanhas. Para ele, temos duas propostas conflitantes. Uma é do PT e talvez do DEM: voto proporcional em lista fechada. Mantém-se o sistema brasileiro da proporcionalidade nos legislativos, mas os candidatos param de disputar entre eles junto ao eleitor (sua disputa se dá no interior do partido). Outra é do PSDB: sistema distrital misto. Metade dos cargos nas câmaras e assembleias seria preenchida por voto em distritos, e a outra metade, pelo voto proporcional.

São propostas distintas. Seus defensores trocam acusações pela imprensa. Mas não seria o caso de concordarem quanto à mudança e se comprometerem a apoiar a proposta com maior apoio no Congresso - ou na população - mesmo que não seja a deles?

Parece certo que o próximo presidente não terá o carisma de Lula ou a projeção de Cardoso. Será um presidente mais "normal", próximo da gestão e distante da formulação de grandes políticas. Será mais chefe de Estado que líder nacional, mais articulador de partidos que da sociedade. Se isso é bom ou não, é uma coisa. Mas mudará o perfil da Presidência.

O último comentário diz respeito à possível candidatura da senadora Marina Silva à Presidência da República pelo Partido Verde. Mesmo que não vença, ela abre um aspecto imprevisto há poucos meses. Pode ser que tenhamos uma campanha de verdade. Se as questões não só do meio ambiente, mas do Brasil como potência ambiental (e não apenas agrária, econômica ou industrial), com um projeto sustentável de sociedade, entrarem em cena, debateremos os fins e não só os meios. Pois Dilma e Serra divergem no tocante a meios, não tanto a fins. Disputam quem será o melhor gestor, mas não questionam o primado da produção, o papel do setor empresarial, a necessidade de melhorar a educação e a saúde.

Talvez por isso, só valha a pena um deles vencer se for para termos uma grande coalizão que efetue reformas urgentes, embora de dura negociação. Talvez, se não for assim, seja bom começar a pensar a política e a sociedade numa nova chave. Minha posição pessoal é que ou aproveitamos as convergências existentes para encerrar um ciclo de problemas no país e criar as bases para avanços posteriores - ou já partimos para definir um futuro que é bem diferente do que tivemos, até agora, como modelo de política. Pessoalmente, prefiro ir para o futuro. Mas seria bom pelo menos completarmos o que nosso País deixou incompleto.

*Professor titular de Ética e Filosofia Política na USP. O trecho acima foi extraído de um artigo da revista Interesse Nacional n.º 7, que sairá nesta semana

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