Estamos à deriva?

No G-20, perda de liderança dos EUA e ausência de um comandante substituto devem ficar evidentes

John Gray*, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2009 | 02h03

A reunião dos ministros das Finanças na cúpula do G-20, a realizar-se esta semana em Londres, demonstrará, mais do que qualquer outra reunião passada, a falta de acordo a respeito de uma solução para a mais grave tempestade econômica desde os anos 30. O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, sugeriu um novo Bretton Woods - uma referência às reuniões realizadas em um hotel de New Hampshire em julho de 1944, nas quais se chegou a um acordo quanto à feição que a economia global assumiria no pós-guerra. Mas há diferenças profundas entre aquele momento da história e o atual. Não é apenas o fato de que a conferência de Bretton Woods tenha durado diversas semanas e sido o resultado de mais de dois anos de preparação, enquanto a reunião de 2 de abril, que terá um dia de duração, ocorre depois de meses de tropeços e improvisações por parte dos governos. O mais fundamental é que não há nenhum poder no mundo com a autoridade exercida pelos Estados Unidos nos últimos anos da 2ª Guerra Mundial. A ordem do pós-guerra determinada em Bretton Woods foi um feito americano, tornado possível pela posição preeminente dos EUA no mundo. No entanto, em consequência da crise financeira, a liderança dos EUA em grande parte se perdeu.

 

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Como os EUA, Grã-Bretanha privilegia políticas keynesianas

A atual convulsão dos mercados mundiais é mais do que uma crise econômica, embora de enormes dimensões. É um sinal de que o modelo de globalização promovido pelos EUA nos 20 anos depois do colapso comunista está se desintegrando. Nos dias de grande otimismo que se seguiram à queda do Muro de Berlim, e até os últimos meses do ano passado, muitos estavam absolutamente confiantes de que o futuro veria o avanço constante do capitalismo de estilo americano. Surgiu uma série de grandiosas teorias - o fim da história, a ascensão do mercado como Estado, o boom prolongado, a grande moderação e o mundo nivelado são algumas das mais conhecidas - expressando a convicção predominante de que a globalização disseminava livres mercados pelo mundo.

Entretanto, havia muitos sinais de que a história se deslocava em outra direção. Muito antes do colapso soviético, a China desencadeara o maior e mais rápido processo de industrialização da história, sob os auspícios de um tipo de capitalismo de Estado no qual o governo detinha o controle das commanding heights, as instituições financeiras que determinam o desenvolvimento de um país. Na Rússia, o planejamento central entrou em colapso com o regime soviético, mas, depois de um período de quase anarquia, surgiu um capitalismo baseado na exploração das matérias-primas, controlado pelos oligarcas e por elementos do serviço secreto, em lugar de uma economia de mercado segundo a linha americana ou ocidental. As economias emergentes da Índia, do Sudeste Asiático e da América Latina expandiram-se rapidamente, mas conseguiram isso tomando caminhos próprios, diferentes, e não seguindo os modelos desenvolvidos em outras partes do mundo.

Essa diversidade devia ser prevista. A globalização nunca promoveu um modelo econômico único. No final do século 19, ela alimentou vários tipos de capitalismo: uma versão do livre mercado na Inglaterra, o protecionismo nos EUA e as variedades russa e alemã, nas quais o Estado tinha uma função de direção. A globalização, no fundo, não passa de uma industrialização no plano mundial, impulsionada por novos meios de comunicação, um desdobramento que deverá produzir resultados divergentes em diferentes partes do mundo. À medida que ela avança, é acompanhada por tensões geopolíticas, pela intensificação da competição pelos recursos naturais e por uma luta constante para adaptar-se às progressivas mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, o poder econômico continuará a se deslocar para o Leste e para o Sul, distante do Velho Mundo do Norte e do Oeste.

A concepção de que a globalização seja um movimento voltado para um sistema econômico mundial moldado segundo o capitalismo anglo-americano é uma ilusão popular, mas pôde florescer enquanto o boom perdurou. As rachaduras no livre mercado mundial escancararam-se em crises recorrentes, como a crise do Leste da Ásia, em 1997, e o colapso da Long Term Capital Management, de fundos hedge, em 1999-2000, depois que a Rússia deixou de pagar suas dívidas. Esses sinais de advertência foram ignorados, ou considerados insignificantes enquanto os efeitos do sistema financeiro americano puderam ser contidos, mas os acontecimentos dos últimos meses acabaram com a ideia de que o capitalismo desregulamentado, dirigido pelo mundo das finanças dos últimos anos, era um modelo universal de desenvolvimento econômico. Embora deva sempre existir quem argumente que os livres mercados não foram postos à prova - assim como há ainda quem afirme que o comunismo não teve uma chance adequada -, o fato é que a filosofia do livre mercado foi totalmente desacreditada. Mas seria inteiramente equivocado imaginar que tenha surgido uma alternativa confiável capaz de orientar uma resposta global coordenada a essa crise.

Os líderes que se encontrarão esta semana em Londres seguramente conseguirão dissimular muitas de suas divergências. Não interessa a ninguém que os mercados mundiais concluam que não foi decidido nada substancioso. Talvez haja algum acordo sobre a necessidade de acabar com os paraísos fiscais, e outras questões relativamente marginais, e aumentar os recursos do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em se tratando de crises maiores, será difícil disfarçar o fato de que os participantes do G-20 chegarão com agendas e ideologias extremamente divergentes.

A Grã-Bretanha e os EUA promoverão um programa de estímulo fiscal e de expansão monetária baseado - ou pelo menos é o que afirmam - nas teorias de John Maynard Keynes, o economista de Cambridge que colaborou na determinação da ordem global que foi concordada na conferência de Bretton Woods, da qual ele participou como delegado britânico. Os líderes da Europa continental argumentarão que esse estímulo em larga escala talvez não seja necessário - pelo menos não na Europa Ocidental, onde o Estado previdenciário atua como uma espécie de estabilizador econômico - e até mesmo poderia ser prejudicial. Um estímulo maciço pode evitar a deflação, eles afirmam, mas somente elevando os níveis da dívida do governo, já perigosamente altos, principalmente nos EUA e na Grã-Bretanha, e atiçar a inflação futura. Ao contrário dos EUA ou da Grã-Bretanha, a China tem um superávit e pode custear o amplo programa de gastos públicos que empreendeu; por outro lado, as críticas da China à política americana subiram de tom nas últimas semanas e um presidente do banco central da China propôs o fim do dólar como moeda de reserva mundial. Os governantes chineses devem saber que não há perspectivas de que o G-20 leve em consideração essa proposta; mas o fato de a ideia ter sido ventilada antes da reunião mostra um aumento da autoafirmação na posição da China em relação aos EUA e prenuncia o objetivo chinês de assegurar-se de maior influência nas instituições internacionais.

Essas posturas divergentes refletem as diferentes histórias, circunstâncias e ideologias dos participantes do G-20, e cada uma delas é seriamente problemática. As políticas keynesianas, como as privilegiadas pelos EUA e Grã-Bretanha, não levaram em conta o fato de que o mundo hoje é muito diferente do que era no período que se seguiu a Bretton Woods, quando essas políticas entraram em vigor. Na época, as economias nacionais estavam menos abertas ao mundo e, quando os governos expandiam a oferta de dinheiro, o resultado era a reativação da demanda interna. Agora, quando os bancos centrais criam dinheiro - como fez o Banco da Inglaterra há algumas semanas, por meio de uma política de "afrouxamento quantitativo" que envolveu a compra de títulos da dívida do governo -, não há o que possa impedir que ela se espalhe no exterior, reduzindo seu impacto interno. Nos EUA, a ajuda à AIG, que envolveu a transferência de enormes somas às suas contrapartes no exterior, teve resultados semelhantes.

De fato, como o próprio Keynes reconhecia, as políticas keynesianas são mais eficientes em economias relativamente fechadas, em que o governo pode controlar o padrão geral de atividade do mercado. Hoje, somente a China tem a combinação necessária de mercados capitalistas e uma economia planificada, e ironicamente, é para a China que o Ocidente está se voltando na esperança de salvar o modelo de livre mercado da globalização. Mas a força mais poderosa que determina a estratégia dos governantes chineses não é o desejo de salvar o mercado global, e sim a necessidade de evitar o descontentamento civil e manter a estabilidade política no país, que está ameaçado por uma desaceleração do crescimento e pelo aumento do desemprego. A consequência inevitável é que uma crescente parcela das imensas reservas chinesas de dinheiro será usada para estimular a demanda interna.

Se é equivocado olhar para a China em busca de uma solução para sair da crise, a ideia de que a Europa possa mostrar o caminho é ainda mais improvável. É verdade que, com exceção da Grã-Bretanha, Irlanda e Espanha, a Europa não foi tão atingida por um boom insustentável do setor imobiliário, como os EUA, embora a dívida das famílias americanas e o uso dos cartões de crédito sejam muito menores em alguns países, principalmente na Alemanha. Mas seria extravagante pensar que a Europa esteja preparada para o próximo estágio da crise global. Extremamente vulneráveis à deterioração da situação nos países pós-comunistas, os bancos europeus estão muito mais alavancados à dívida tóxica do que suas contrapartes americanas. As economias europeias estão mergulhando cada vez mais na recessão e as instituições não dispõem de meios para deter essa queda. Os líderes europeus, como Angela Merkel, da Alemanha, pedem uma "nova arquitetura financeira global", mas a União Europeia não é um modelo promissor de governança global. Embora a UE tenha uma moeda e um banco central, ela não tem um governo ou um mecanismo fiscal como o dos EUA que possa ser usado para recuperar a atividade econômica. Em vez disso, os governos europeus agora estão seguindo os próprios caminhos. Longe de incentivar um movimento rumo a uma maior integração, como alguns em Bruxelas talvez esperem, a crise está tendo como efeito reviver a Nação-Estado europeia.

Entretanto, a ausência de liderança americana é a característica mais marcante do atual cenário. Evidentemente, uma das razões disso é que a crise tem o "made in America" carimbado nela. Depois do colapso dos últimos meses, que segundo muitos continua até agora, a autoridade dos EUA simplesmente não é mais aceita. Os insistentes pedidos para que os outros aceitem o modelo americano fracassaram. Muitos países acreditam que estariam em situação pior se tivessem feito o que sucessivas administrações os instaram a fazer, e emulado a liberalização americana. Mas, mesmo levando isso em consideração, o atual governo tem sido uma decepção de outro tipo. A única tendência política que surgiu em Washington até o momento é o protecionismo do tipo buy-and-hire American - uma linha perigosa para ser seguida pelos EUA, que estão tão endividados com outros países, principalmente com a China, que, por sua vez, depende tanto das exportações para os EUA. A opinião pública em grande parte do mundo aplaudiu entusiasticamente o novo governo, e suas iniciativas em política externa em relação ao Irã, ao Afeganistão e à Rússia foram mais do que bem-vindas. Por outro lado, a impressão provocada pelo tratamento que está sendo dado à crise econômica é de brigas internas, decisões pouco claras e um tatear cego, iluminado de modo irregular pela genialidade instável de Obama. Há uma crescente suspeita de que o governo não tenha uma estratégia coerente para a solução da crise, e ninguém no comando que realmente a compreenda.

Sem dúvida, em grande parte, a morosidade na liderança decorre de uma incapacidade de perceber até que ponto o mundo, e a posição dos EUA, tenham mudado. Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve (Fed, banco central americano), deixou clara sua determinação de evitar os erros na política monetária que agravaram - segundo alguns, causaram - a Grande Depressão. Mas fazer o oposto do que foi feito nos anos 30 - quando se permitiu que a base monetária encolhesse, acelerando a contração da atividade econômica - talvez não tenha os efeitos desejados hoje. Os EUA não são hoje uma potência industrial tão grande como eram na época e não podem ignorar as consequências de suas políticas em relação a seus credores externos. Desde o fim da 2ª Guerra Mundial, os EUA conseguiram estruturar suas políticas baseados no pressuposto de que elas constituem, no fim das contas, a única solução. Eles permanecem a maior economia mundial, com enormes recursos de empreendedorismo. Mas a globalização criou novas potências emergentes que não pretendem tomar lições dos EUA quanto a como devem organizar suas economias. E muito menos seguirão a liderança da Grã-Bretanha, que, apesar de toda a retórica pretensiosa de Brown, é um dos países mais expostos à tempestade financeira.

As grandes esperanças depositadas na reunião do G-20 refletem uma falta de perspectiva histórica. A globalização liderada pelos EUA nas duas últimas décadas está sofrendo um colapso que nenhuma cúpula poderá deter. Sem dúvida, o processo será doloroso, e talvez chegue um tempo em que muitos olharão para trás com saudade da era da liderança americana. Mas este não é o fim do capitalismo, do livre mercado ou da globalização. O que estamos testemunhando agora é o início incerto de um novo período da história, no qual o modelo anglo-americano é apenas uma das várias versões de capitalismo que conformarão o mundo. Nesse contexto histórico mais amplo, o verdadeiro significado da reunião do G-20 é quão pouco ela importa.

*Professor emérito da London School of Economics e autor, entre outros, de Cachorros de Palha (Record), Jogos Finais (Unesp) e Gray's Anatomy: Selected Writings (Penguin)

SEXTA, 27 DE MARÇO

Ensaios sobre o sistema

Poucos dias antes do G-20, novo ensaio do Banco do Povo da China - o banco central chinês - mais uma vez critica os EUA, centrando fogo no que considera um sistema regulador ineficaz. Foi o quarto ensaio sobre a crise publicado desde segunda-feira.

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