Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

'Estamos perdendo a guerra para o ódio', afirma o jornalista Jamil Chade

Correspondente do 'Estado' na Europa estreia na literatura com história sobre a guerra na Síria

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2018 | 16h00

O Caminho de Abraão, primeiro livro de ficção do jornalista Jamil Chade, publicado pela editora Planeta, conta a história de Hagar, uma jovem marselhesa de ascendência argelina que se torna química de uma multinacional em Damasco antes que a guerra estourasse, quando a Síria ainda era um país pacífico. Correspondente na Europa há quase duas décadas, o repórter do Estado explora, por meio da jornada individual dessa garota, as atuais contradições sociais que assolam o Velho Continente e demonstra a possibilidade de conciliar o que se convencionou pensar que são opostos: passado e presente, ciência e religião, ocidente e mundo árabe.  

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Enquanto o Brasil lamentava a derrota por três a zero diante da França na final da Copa do Mundo de 1998, não havia apenas um campeão: a nação estava fraturada entre os franceses “de primeira classe” e os cidadãos excluídos por sua origem árabe. A narradora-personagem Hagar lembra que seu bairro muçulmano na periferia de Marselha comemorou não somente o título de futebol, mas a possibilidade de integração que vislumbrou: “A tese de um país miscigenado que poderia funcionar finalmente ganhava espaço. Era a França ‘black-blanc-bleu’.”

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Se a vitória na Copa, capitaneada pelo franco-argelino Zinedine Yazid Zidane e composta por franceses cuja origem familiar era a Nova Caledônia e as Antilhas, trouxe esperança aos imigrantes, a década seguinte mostrou a Hagar que a discriminação era mais persistente do que ela poderia imaginar: “São vocês, árabes, que costumam adotar essas posturas radicais para lidar com a vida”, decreta a atendente da operadora de telefone quando a protagonista pede o cancelamento do serviço, tomada pelo discurso islamofóbico alimentado pela guerra ao terror, pela invasão ao Iraque e, em grande medida, pela associação entre terrorismo e muçulmanos acolhida pela opinião pública europeia. Acostumado a cobrir a política da região, em determinados momentos Chade veste a capa de repórter e coloca dados, fatos e informações para embasar o que se passa com sua protagonista.

Hagar, cujo nome significa “estrangeira”, sente-se uma francesa em seu bairro árabe e uma estranha nos círculos parisienses onde cursou a faculdade de química. Chade trabalha no registro desse sentimento de pertencimento que nunca é concretizado na personagem e nos que a cercam: “O homem marginal vivia suspenso entre duas culturas, entre dois mundos irreconciliáveis. Sua face não era mais a do sacrificado imigrante que havia deixado para trás tudo o que tinha na vida, era agora tão somente a de alguém que não encontrava em sua nova pátria os direitos de que desfrutavam os demais cidadãos.”

Conforme a protagonista crescia e galgava conquistas pessoais e acadêmicas, via o preconceito cada vez mais próximo e, por outro lado, o radicalismo seduzir seus antigos amigos de infância. “Dez anos depois dos ataques terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos, éramos vistos como uma ameaça não apenas à segurança, mas também à identidade nacional.”

Ao estabelecer um laço de empatia entre a personagem a o leitor, Chade demonstra que a questão não é tão clara quanto o noticiário faz pensar. “Quis desconstruir a ideia de que as coisas são claras, de um lado há o terrorismo e do outro as pessoas de bem. Se fosse tão simples, já teria sido resolvido. É muito mais complexo do que essa narrativa que a gente ouve normalmente”, afirmou em entrevista ao Aliás. “Aquela história é real. O que eu fiz foi colocar em um enredo para poder contar uma realidade que é dramática. Essa função de repórter é absolutamente presente no livro”, completa o autor.

Chade intercala a narrativa principal com interstícios que contam a história mítica de Abraão, conciliando passado e presente, fé e ciência – pela formação de Hagar em química e sua religião islâmica – e Ocidente e mundo árabe. O livro será lançado em dois eventos: no dia 7 de maio, às 19h30, no Clube Pinheiros; e em 9 de maio, às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Sobre a obra, o autor respondeu às seguintes perguntas do Aliás

Como foi o processo de escrita enquanto você fazia reportagens sobre essa temática?

A apuração desse livro, se é que a gente pode ter apuração em ficção, foi facilmente de dez anos, porque a Europa viveu uma crise a partir de 2008 que chacoalhou a sociedade de uma forma inédita para essa geração tinha vivido uma prosperidade contínua desde a 2.ª Guerra. Você não tem países quebrando, governos caindo, sem algum tipo de efeito na sociedade. 

De que forma a sua experiência como repórter o ajudou a contar essa história? 

Contar histórias é o que a gente faz diariamente, é o nosso trabalho. Quando eu saio para uma dessas viagens, o que a gente nunca perde é essa capacidade de contar uma histórias que o leitor não pode nem sequer imaginar que exista. 

Você acredita que, ao colocar o leitor na pele de Hagar, seja possível estabelecer empatia pelos excluídos que se encontram em sua situação?

Esse é o objetivo, mas não só empatia com a personagem. É um grito de alerta, uma denúncia em forma de ficção, porque faz 20 anos que eu viajo para lugares como esses e o que eu sinto é que a gente está fracassando. A humanidade está perdendo a guerra para o ódio. O medo começa a ser manipulado justamente por aqueles que querem chegar ao poder. Esse fracasso em lidar com crises foi transformado em arma eleitoral. Ao levar o leitor à pele da Hagar, o objetivo é que ele se depare com essa realidade, uma era de demagogia, de líderes que nos apresentam soluções supostamente fáceis para um mundo complexo. Não só na Síria, mas mesmo na América do Sul, de falar “Vamos fechar as fronteiras de Roraima com a Venezuela”, que parece uma solução simples, mas que é absolutamente mentirosa e demagoga. Eu queria que essa era fosse denunciada, não num panfleto, mas numa história de dois personagens, que representam uma insurreição de consciências. Hagar, que só tinha vivido na França, e Ibrahim, um jihadista. Os dois se sentem traídos pelas experiências que tinham, ela pelo estado laico que garante proteção a todos os cidadãos, quando se descobre que nem é uma cidadã no mesmo patamar dos demais, e ele que descobre que a ideologia daqueles supostos religiosos é usada para garantir o poder.

Hagar é um amálgama das histórias que você coletou ao longo desses anos de cobertura?

Várias passagens são de pessoas que contaram e pediram anonimato porque tinham vergonha ou medo de alguma represália. A conversa com um refugiado é um relato superficial. As viagens mais dramáticas que eles fazem são interiores, porque vão perdendo a identidade ao longo do caminho, se redefinindo, se reconstruindo, inventando histórias para as autoridades, isso quando não têm que se prostituir, agir de uma forma que jamais teriam pensado originalmente. Esse trajeto é dramático não só porque é longo ou cansativo, mas porque internamente transforma as pessoas de uma maneira bastante dura, com a percepção ao longo do caminho de que ninguém os quer, de que eles se transformam num instrumento de manobras políticas. Essa reunião de histórias em uma personagem tenta trazer o leitor para perto de uma situação que, eu insisto, adoraria que fosse só uma ficção.

Romances históricos em geral retratam épocas de um passado distante, já bem estabelecidas no imaginário popular. Como foi recriar uma época tão recente, mas já tão diferente, como os anos 2000? 

A questão do tempo foi interessante, alguns aspectos não precisavam ser pesquisados porque nós vivemos. Mas tentei mostrar que essa realidade não se explica pelo que aconteceu há 50 anos ou na era colonial, mas por fatos que ainda estão acontecendo. Nós estamos ainda vivendo a guerra da Síria, que é o maior desastre humanitário no século 21. Quem são os novos europeus? Essa pergunta não está respondida. Você vê alguns governos, como na Hungria, dizendo que querem ser só brancos e cristãos, mas isso dificilmente terá qualquer tipo de êxito, porque é recuperar uma coisa idealizada do passado. A Europa passou por várias ondas migratórias. A imigração é tão parte da humanidade quanto respirar, os fluxos migratórios são a respiração do planeta.

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