Estátua, pra que te quero?

Bustos servem para que se lembre que as pessoas importam. Mas não mais que isso

Marco Aurélio Nogueira,

31 Maio 2014 | 16h00

Se preciso fosse algum fato novo para destacar o prestígio e a fama de que goza Lula no mundo, o escultor chinês Yuan Xikun resolveu a questão. É dele a estátua em bronze do ex-presidente que integra exposição em exibição no National Mall, ao lado da Casa Branca, em Washington. A versão original da peça está no Jardim das Esculturas da Amizade Internacional em Beijing. Exposta nos EUA, tornou-se parte de uma política dedicada a facilitar o diálogo entre a China e o continente americano. 

A homenagem veio cercada de pompa e circunstância: as pessoas retratadas foram escolhidas entre aquelas que deram contribuições extraordinárias para a sociedade. Ao lado de Lula estão, entre outros, Abraham Lincoln (Estados Unidos), Bolívar (Venezuela), Tupac Amarú (Peru), Gabriel García Márquez (Colômbia), Jose Martí (Cuba) e San Martín? (Argentina). Lula é o único vivo e o primeiro presidente do Brasil a ter uma estátua na capital dos Estados Unidos, o que amplificou ainda mais o fato.

Somado às seguidas homenagens e às três dezenas de títulos honoris causa recebidos por Lula (o mais recente dele, mês passado, na Universidade de Salamanca, Espanha), o fato foi interpretado, por seus incontáveis admiradores, como prova irrefutável de que o complexo de vira-latas é mesmo coisa de oposicionistas impatrióticos.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra. É preciso contextualizar o fato. O clima eleitoral e as oscilações esperadas de Dilma têm feito aumentar a torcida para que Lula entre na disputa presidencial. Se uma pena cair no chão, haverá estrondo: tudo serve para que os tambores anunciem a volta do líder.

Ter um busto em Washington e diplomas universitários pelo mundo é um reconhecimento a Lula e a seu papel político. Tem a ver com isso, não com qualquer homenagem à grandeza da Pátria brasileira. Tem a ver também com relações internacionais e comércio exterior, num ambiente em que China e Brasil são parceiros estratégicos. Nesse patamar, a iniciativa de Xikun está orientada pelo realismo que preside as relações entre os Estados, não por um particular empenho artístico. No mínimo por isso, deveria ser assimilada como menos ardor e sem instrumentalização política.

A trajetória de Lula está inscrita na história nacional, não deveríamos ter de nos lembrar disso a toda hora. Ele enfrentou e venceu preconceitos de parte ponderável das elites brasileiras, mostrou que lideranças vindas “de baixo” também podem governar. Deu a volta por cima e passou a ser respeitado e até mesmo seguido pelas mesmas elites que o hostilizaram antes. Foi eleito e reeleito democraticamente e seus governos representaram uma importante inflexão no processo político. 

Não se trata, porém, de um herói, no sentido em que Max Weber, por exemplo, usou a expressão: alguém que conquista o direito de mexer nas engrenagens do destino. Lula tem sido um político inteligente, com grande capacidade de persuasão, astúcia e disposição para conversar, fato que o converteu em figura chave das principais articulações que impulsionaram o capitalismo brasileiro na última década e meia. 

Mas não é um “Libertador”, por mais que se queira pintá-lo assim. Nunca vestiu o figurino de um chefe bolivariano à testa de uma democracia popular ou de uma obra de “salvação nacional”. Não representa um movimento ou partido de esquerda, ideia que nunca frequentou seu vocabulário ou sua cultura política. Não é sequer um “mito”, como dizia o revolucionário Sorel na sua busca incansável do fator que poderia imprimir um componente mágico e magnético à história.

Nesse mundo louco em que vivemos, repleto de memes, ícones e ídolos que se revezam no imaginário popular, simbolicamente congestionado mas pobre de utopias e significados densos, um busto pode ajudar a que se faça um verão. Se a grande massa brasileira pudesse vê-lo, certamente sentiria orgulho, ainda que talvez torcesse o nariz para a feiura da peça. Bustos, afinal, servem para que se lembre que as pessoas importam. Mostram que arte e política continuam tão abraçadas como sempre estiveram, prestando serviços para o poder e para as relações entre os povos. Mas não fazem muito mais que isso.

Bustos, estátuas e memoriais são coisas que nós, brasileiros, não cultivamos nem cultuamos. Passamos por eles, olhamos e seguimos em frente, tratando-os como detalhes da paisagem. Não somos como os norte-coreanos, que chegam a celebrar casamentos pungentes no sopé da gigantesca estátua de Kim Il-sung (que, morto há 20 anos, ainda é oficialmente o Presidente da Coreia do Norte), diante da qual se deve passar em posição de respeito profundo e sem dar as costas.

No Brasil, os poucos que merecem alguma atenção popular - como Joaquim Nabuco, no Recife - associam-se a personagens que tiveram inserção ativa em episódios históricos emblemáticos. Nem Getúlio Vargas, nosso mais importante estadista, mereceu algo semelhante. O herói de nossa gente é Macunaíma, de quem Mario de Andrade disse não ter nenhum caráter... Gostamos mais de ruas, praças e avenidas para prestar homenagens. Ou nem. 

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Marco Aurélio Nogueira é professor titular de Teoria Política e Coordenador do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp

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