Keir Gravil via REUTERS
Keir Gravil via REUTERS

Estátua racista derrubada é sinal da volta da iconoclastia

Monumentos não são propriedades privadas, mas patrimônio público sobre o qual todos têm o mesmo direito, inclusive o de querer derrubá-las

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

13 de junho de 2020 | 16h00

Existem no mundo 34 cidades chamadas Bristol, nenhuma delas mais antiga, conhecida e com mais histórias do que a do sudoeste da Inglaterra. Até o último fim de semana, Bristol se notabilizara por sua importância estratégica no tráfico internacional de escravos e por ser a cidade natal do pirata Barba Negra, do Nobel de Física Paul Dirac, do ator Cary Grant e do artista de rua Bansky. Faz sete dias que ela se tornou, acima de tudo, a nova capital mundial da iconoclastia, a Bizâncio do novo milênio.

Milhões de olhos assistiram ao vivo, domingo passado, à derrubada da estátua do patriarca de Bristol, Edward Colston (1636-1721), por uma multidão mais folgazã que enfurecida. Por 125 anos naquela praça, ao relento e na mira de titicas aladas, a estátua era um constrangimento geral. Derrubá-la e em seguida jogá-la ao mar não foi um ato de vandalismo, mas de purificação urbanística e revisionismo histórico, afetuosamente aceito pelo prefeito da cidade, Marvin Rees, de origem jamaicana.

Havia mais de três décadas que a estátua estava jurada de remoção. A revolta mundial contra o racismo desencadeada pelo assassinato de George Floyd apenas a precipitou.

“Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie”, escreveu Walter Benjamin. Erguidas quase sempre com recursos do erário, estátuas como a do bárbaro Colston não são propriedades privadas, mas patrimônio público sobre o qual todos têm os mesmos direitos de propriedade e usufruto, inclusive o de querer e tentar derrubá-las.

Como alto oficial da Royal African Company, Colston fez fortuna traficando e trucidando milhares de escravos entre o continente africano e o Caribe, no século 17. Sua estátua não era um marco histórico, mas um tótem glorificante, a celebrar o horror escravagista. A placa que lhe anexaram rassaltava apenas as virtudes e ações filantrópicas do homenageado, de resto financiadas com o dinheiro sujo do tráfico negreiro porém negadas a quem discordasse de suas ideias religiosas e políticas.  

O ritual iconoclástico em Bristol provocou, de imediato, duas ondas: uma de polêmicas na imprensa e nas mídias digitais, outra de vandalizações de monumentos que há muito deveriam ter sido recolhidos a museus dedicados à preservação crítica do passado, e não exibidos a céu aberto como objetos de culto e adorno paisagístico de gosto quase sempre duvidoso.

História não se aprende apreciando e tirando fotos ao lado de esculturas e memoriais, mas lendo e estudando ou ouvindo quem a conhece bem. “Estátuas não são gente”, argumentou um professor de história. “O que é a destruição de um monumento se comparada à exploração, ao sofrimento e ao morticínio dos mais de cem mil escravos negociados pela Royal African Company entre 1672 e 1689?”, perguntou outro.

Essa é uma discussão espinhosa, que, mesmo circunscrita à escravidão, pode nos levar até às pirâmides do Egito e à estatuária greco-romana—sem poupar ninguém.

A onda de bota-abaixos que se seguiu ao “mergulho” de Colston nas águas de Bristol desmoronou, em Londres, a estátua do armador e comerciante de escravos escocês Robert Milligan, e a do genocida rei belga Leopoldo 2º, na Antuérpia. Cecil Rhodes, sumo artífice do colonialismo britânico na África, está com todas as suas estátuas no Reino Unido pela bola sete.

Do outro lado do Atlântico que Colston e assemelhados cruzavam, atirando aos peixes os escravos mortos ou adoecidos durante a travessia, os antirracistas em permanente vigília cívica partiram atrás de seus mais visados vilões históricos—de Cristóvão Colombo, o iniciador da barbárie, aos generais e capitães do mato confederados, liderados por Robert E. Lee.

Colombo já teve a estátua que lhe erigiram em Richmond (Virginia) despejada no lago mais próximo e a cabeça de outra decapitada em Boston. Expurgar o general Lee da paisagem sulista vai dar um trabalhão. Tentei contar os tributos que em mármore e metal lhe fizeram nos Estados do Sul. Desisti no meio.

Ao sabor das primeiras reações ao patético fim do Colston de bronze, internautas brasileiros começaram a elaborar listas de escravocratas de nossa história para uma eventual faxina iconoclástica.

O primeiro que vi, no Twitter, escalou o gaúcho Bento Gonçalves, homenageado  pelos pampas afora e até nome de cidade. A segunda indicação viralizou com mais intensidade ainda, pois raras figuras de nosso passado são mais abominadas que o paulistano Borba Gato, genro de Fernão Dias Paes, o Caçador de Esmeraldas, bandeirantes com centenas de negros e índios mortes nas costas.

Fernão Dias tem estátuas em várias localidades de Minas Gerais e até uma rodovia com seu nome. Borba Gato ganhou uma estátua em Santo Amaro que, de tão medonha, sequer merecia mofar no porão de um museu.

Assassino indultado com o posto de tenente-general do mato porque sabia onde havia ouro nas matas de São Paulo e Mato Grosso, Borba Gato era um corrupto das botinas ao penacho. Distribuiu permissões de minas e lavras a parentes e amigos. Se não tivesse morrido no século 18, poderia ser ministro das Minas e Energia do governo Bolsonaro.

João Ramalho, o Patriarca dos Bandeirantes; Baltasar Fernandes, fundador de Sorocaba; Gaspar Vaz Guedes, o guardião de Mogi das Cruzes, também foram lembrados.

Aliás, praticamente todos os bandeirantes e alferes que se destacaram na exploração, perseguição e massacre de negros e indígenas entraram, com suas estátuas, na lista de sugestões — sem exclusão de duas estrelas do panteão de heróis nacionais: Tiradentes, que tinha seis escravos quando o enforcaram, e Duque de Caxias, cuja atuação contra escravos, alforriados, quilombolas e outras classes exploradas pela casa-grande, no Maranhão da Balaiada, tisnou à beça sua fama de “pacificador”.

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