Este banco é de Jesus

Direto do púlpito, banqueiros surpreendem paroquianos ao enumerar as virtudes cristãs do sistema financeiro

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2009 | 00h41

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Em qual Evangelho mesmo Jesus diz que os banqueiros herdarão a terra?

Se não li uma contrafação da Bíblia, quem herdará a terra são os humildes (Mateus 5:5) e os justos (segundo os Salmos do Velho Testamento). Os banqueiros, como os ricos referidos por Mateus e Lucas (6:24), já "tiveram sua alegria" aqui embaixo e não deverão desfrutar o reino de Deus com os pobres e os humildes.

Mas eles ainda não perderam a esperança de um salvo-conduto para o paraíso. Para tanto, reaproximaram-se de Jesus. Inspirados ou não pelos plutômanos evangélicos, alguns banqueiros britânicos entregaram-se nas últimas semanas a uma reinterpretação tendenciosa, pro domo sua, das Sagradas Escrituras. Em público. Na casa de Deus.

Terça-feira passada, o principal executivo do Banco Barclays, John Varley, subiu ao púlpito da Igreja de St. Martin-in-the-Fields, na londrina Trafalgar Square, para um sermão sobre as virtudes cristãs do sistema financeiro. Os bancos são a "espinha dorsal" da economia, proclamou o ilustre banqueiro. Até aí, nada demais. Os paroquianos só ficaram boquiabertos quando ele, depois de afirmar que "o lucro não tem parte com o diabo", defendeu as milionárias gratificações dos executivos do mundo financeiro. "Bonificar as grandes performances dos banqueiros não vai contra os valores cristãos."

A que grandes performances Varley se referia? De que ano? De qual década? Por sua "performance" em 2008, o CEO do Barclays embolsou de salários o equivalente a R$ 3 milhões.

Enquanto isso, a economia britânica encolhia pelo sexto trimestre consecutivo, elevando a taxa de desemprego para 7,8%, a maior dos últimos 14 anos, competindo com a americana (que já bateu nos 10,2%, a maior dos últimos 26 anos). A distância entre pobres e ricos na Grã-Bretanha atingiu seu maior índice em cinco décadas. Não obstante, as bonificações na City (a Wall Street de lá) podem subir em torno de 50% este ano, e o Goldman Sachs separou o equivalente a R$ 47,2 bilhões para premiar o empenho de sua equipe no primeiro semestre deste ano.

Duas semanas antes da prédica de Varley, o conselheiro internacional do grupo Goldman Sachs, Brian Griffith, fizera ecoar nos mosaicos dourados da Catedral de St. Paul dois dogmas da Igreja Universal do Reino de Mamon: 1) "Devemos tolerar a desigualdade como uma maneira de assegurar maior prosperidade e oportunidade para todos"; 2) "Ao aconselhar que amemos nossos semelhantes como amamos a nós mesmos, Jesus endossou o autointeresse".

Depois foi a vez de Ken Costa, um dos chefões do Lazard International, defender a intrínseca cristandade do lucro, na Igreja de St. Katherine Cree, e congratular-se com o papel de seus pares no reino dos homens: "Nós contribuímos para a sociedade sendo bons no que fazemos".

Se a Bíblia que habitualmente consulto não mentiu, Jesus desprezava dinheiro e quem acumulasse riquezas. Pediu cuidado com todo tipo de avareza, aconselhou seus discípulos a se despojar de tudo. "Não ajuntem riquezas neste mundo, onde as traças e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e roubam. Ao contrário, ajuntem riquezas no céu, onde as traças e a ferrugem não podem destruí-las, e os ladrões não podem arrombar e roubá-las. Pois onde estiverem as suas riquezas, aí estará o coração de vocês." (Mateus (6:19-21)

Muitos dos presentes aos sermões dos banqueiros na certa se lembraram de que, segundo Jesus, "é mais difícil um rico entrar no reino de Deus do que um camelo passar pelo fundo de uma agulha", fatalidade que os abastados sempre consideraram discriminatória, profundamente anticristã, apócrifo apotegma inventado e posto na boca do Filho de Deus por algum pobretão ressentido.

Já que não existem provas concretas, documentais, irrefutáveis do que Jesus realmente disse e fez, por que acreditar piamente nas palavras do Evangelho? Assim raciocinam os agnósticos e os ateus. E também, acabo de descobrir, um punhado de religiosos. Conservadores, claro. Tão conservadores que decidiram reescrever a Bíblia, afeiçoando-a ao ideário direitista, com uma defesa intransigente do criacionismo, do lucro à outrance, da entrada no céu de quem passou a vida a acumular riquezas.

A Bíblia Conservadora, como provisoriamente a batizaram, ainda é uma obra em progresso, mas tem-se a impressão de que os três superbanqueiros britânicos acima citados tiveram acesso a alguns versículos, tamanha a coincidência de ideias entre o que eles disseram nas igrejas londrinas e o que do Novíssimo Testamento já foi revelado na internet. Projeto mais ambioso da Conservapedia, resposta conservadora à Wikipedia, tida como "excessivamente liberal" por setores da direita americana, a Bíblia em andamento também é cria do jovem advogado Andy Schlafly, cujo fanatismo só sua mãe, a militante Phyllis Schlafly, talvez consiga superar.

Seus editores meteram a mão nas traduções existentes. Trocaram palavras, inverteram sentidos, sempre com o intuito de servir aos interesses políticos do conservadorismo mais estreito. Os "fariseus" das Escrituras originais viraram "liberais" (quase foram "intelectuais" e "elite"), e no lugar dos ricos entrou um eufemismo: "aqueles que confiam em riquezas" - estes, sim, terão dificuldade para entrar no reino de Deus.

Criticados até por blogueiros conservadores como Andrew Sullivan e Jon Swift, o site da Conservadopedia e sua Bíblia receberam uma pedrada certeira do liberal Alex Koppelman, da revista eletrônica Salon, que propôs, de molecagem, uma porção de alterações, ainda mais reacionárias, aos Evangelhos segundo Schlafly. Na paródia de Koppelman, os liberais foram substituídos por socialistas e os pobres, pelos políticos e eleitores do Partido Republicano. Os primeiros traem Jesus e os republicanos herdarão a terra - com os banqueiros.

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