Este é o doutor Zé

Depois de quase 50 anos de formado, Zé Celso retira seu diploma na Faculdade de Direito

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2008 | 22h56

"Você me dá uns minutinhos? Preciso dar uma bola, pra acordar." Eram 17h15, mas ele estava sonolento. Precisava de uma dose de seu "remédio vasodilatador", o baseado, para conseguir concatenar as idéias e dar a entrevista que queria. Enquanto tragava longamente entre os dentes amarelos, tirava de um envelopão pardo o diploma de advogado pela Faculdade de Direito da USP. José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso do Teatro Oficina, formou-se em 1960, mas só buscou o documento agora. Afinal, só agora ele tem um verdadeiro projeto acadêmico, a Universidade Antropofágica. Calma, sobre isso e sobre o passado de aluno de direito, falaremos depois.Primeiro, ele quis contar a causa jurídica de sua vida: a luta contra o Grupo Silvio Santos, seu vizinho de Bixiga, em São Paulo. "Tá gravando? Faz 28 anos que eles tentam construir um shopping e faz 28 anos que não conseguem. Aprendi a advogar por causa deles." Zé Celso tem uma equipe de advogados que o acompanha e assessora. "Eles me ouvem e acolhem minhas opiniões." Precisa de uma grande equipe, porque tem "incontáveis" processos contra ele. O mais recente é um criminal, em que é acusado de roubar sacos de cimento de uma construção do rival. "Eu, pessoa física. Você me imagina roubando sacos de cimento?" Quando se trata de Zé Celso, não é difícil imaginar nada, mas realmente...Bom, a pendenga contra o seu Silvio está no seguinte estágio: para levar a cabo a construção do "Anhangabaú da Feliz Cidade" (um teatro-estádio, uma praça-ágora, a Oficina de Florestas e a Universidade Antropofágica), Zé Celso quer que o governador José Serra desaproprie os terrenos em volta do teatro, impedindo, assim, que Silvio Santos expanda seu império. Para convencer o governador, o diretor dedica a ele a remontagem da primeira peça do Oficina, Vento Forte para Papagaio Subir, escrita pelo próprio Zé Celso, em cartaz desde a semana passada. "Serra já interpretou o papel de João Ignácio, o protagonista, numa remontagem da peça que rolou em Porto Alegre." Muito apropriado.Aí, o bacharel em direito José Celso começou a tentar me explicar suas idéias sobre a matéria. "Nesses 50 anos, nossos advogados tiveram que reinterpretar o direito para se adequar à inversão de valores proposta pelo Oficina. Aqui, a gente parte de Oswald de Andrade para fazer uma transformação do tabu em totem. Tudo que é limite a gente transforma em virtude. O direito brasileiro é muito preso ao romano, ao direito à propriedade." Caso encerrado.?VOU SUBIR NA BIGORNA?Antes de falar dos anos como aluno no Largo São Francisco e da proposta de sua universidade, é hora de fazer as fotos. Naturalmente, o diretor acaba por dirigir a sessão. Ao perceber que ainda não havia assinado o diploma, Zé Celso sugere que seja feita uma imagem desse momento histórico. "Pronto! Este é o doutor Zé. Advogado do teatro e da paixão", ri-se todo. Quis assinar sentado em uma bigorna, pesadíssima, símbolo do Teatro Oficina, que o acompanhou nesses 50 anos. De repente, a luz. "Tive uma idéia! Vou ficar pelado!" Não é exatamente uma idéia original - parece que tudo que esse homem faz tem de ser pelado. Antes que desse tempo de concluir esse pensamento, lá estava ele, nu em pêlo, meio que encoxando o diploma. "Vou subir na bigorna. Nunca subi na bigorna antes." Mais um clique do fotógrafo. "A Justiça não é cega? Peraí." Calça de moletom feita de venda e mais flashes. Ele estava mais do que acordado.Finalmente, Zé Celso decide me contar seu projeto da Universidade Antropofágica. No dia 1º de maio, quando ele realizará um banquete para celebrar os 80 anos do Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade, convidará o ministro da Educação e os titulares da pasta estadual e municipal para formular melhor o currículo e o método da academia. O que se sabe até agora: ela será, em princípio, gratuita. Terá vestibular. Aulas de meditação, ioga e expressão corporal. A principal disciplina: o tabu. Trabalhos sobre o tabu do sexo, da pobreza e da descriminalização das drogas farão parte das tarefas. A universidade será integrada ao Bixigão, projeto com as crianças da região que já existe e as educa nas artes. O senador Eduardo Suplicy poderá ser um dos professores convidados, "porque ele sabe cantar e é um político excepcional". Augusto Boal e o próprio Zé Celso seriam outros catedráticos. Roberto Justus, um dos chamados a dar palestras, "para que se dê voz a outros lados da sociedade e se aprenda com eles". O formado será um antropófago, capaz de atuar em qualquer profissão. O objetivo do curso é formar líderes, "que possam interferir na máquina instituída e fazer uma passagem suave, realizar a perestroika para um novo estágio da sociedade capitalista". As inscrições estarão sempre abertas.BONDE ANDANDOZé Celso é um homem de 70 anos com a cabeça voltada para o presente e o futuro. Então, a parte de suas memórias sobre os anos na faculdade fica por último. Ele prestou direito na São Francisco para sair de Araraquara, sua cidade natal. Seu melhor amigo, Plínio Pimenta, era filho de advogado e ia fazer o mesmo - estava aí a brecha. Zé era péssimo em matemática, física e biologia. Engenharia e medicina estavam fora das opções. Passou no vestibular, depois de pagar Cr$ 150 de inscrição, com nota 6 em português, 5,5 em latim e 6 em francês. Para fugir dos trotes violentos, matriculou-se no noturno, em 1955. "Raspavam a cabeça dos calouros e faziam rodas sádicas, uma coisa horrorosa."De terno azul marinho, gravata e uma balancinha de ouro na lapela, Zé Celso pegava o bonde na Av. Brigadeiro Luís Antônio e ia até o Largo. Adorava pegar o bonde andando. Em sua turma, eram 281 alunos. Todos se levantavam quando o professor entrava na classe. Só gostava de três professores: Goffredo Telles Jr., de ciência do direito, Esther de Figueiredo Ferraz, de direito penal, e Cesarino Júnior, de direito do trabalho. "O resto sentava lá naquela cátedra e ficava repetindo discursos que davam há 20 ou 30 anos, sem nenhuma relação com os alunos." Vem dessa cena a aversão ao palco italiano - o mais comum, com palco à frente da platéia.O professor de direito comercial, por exemplo, em plena era JK, falava em tílburis, aquelas carruagens romanas. Zé Celso foi reprovado na matéria. Outro mestre que o leva às caretas: Luís Antônio da Gama e Silva, de direito internacional privado. "Depois de 30 anos que tinha saído da faculdade, ainda sonhava com aqueles tratados de relações internacionais que ele nos obrigava a decorar. Tinha pesadelos de que era reprovado." Quando Zé estava na casa da atriz Maria Alice Vergueiro, fugido da ditadura, e viu que Gama e Silva tinha sido nomeado ministro da Justiça do governo Costa e Silva, era todo exclamações: "Que absurdo! O homem é um cadáver! Sempre agiu como se fosse um morto!" Não estava. Foi o redator do AI-5.Com tão pouca afinidade com os professores, como é que Zé Celso conseguia passar de ano? "Era só decorar as expressões em latim e tomar um Pervitin, uma anfetamina que deixava a gente ligadão." Do latim, ainda se lembra de duas expressões. A primeira era a solução de seus problemas nas provas. Para fugir da interpretação mais à direita ou à esquerda ideologicamente, numa época em que tudo se resumia a ser pró-União Soviética ou pró-Estados Unidos, ele lascava um in medio est virtus, algo como a virtude está no meio-termo. Da outra ele gosta porque ela foi proferida por um xará, o jurisconsultor romano Celso, e pela idéia que ela expressa: jus est ars boni et aequi, o direito é a arte do bom e do justo.Nos corredores da faculdade, circulavam na mesma época homens como os juristas Dalmo Dallari e Fábio Konder Comparato, o embaixador Rubens Ricupero e o ex-ministro Marcio Thomaz Bastos. O deputado Michel Temer entrou três anos depois, mas se lembra de ver o teatrólogo nas arcadas. "Ele já era envolvido com o teatro. Por ser alto, esguio, chamava a atenção. Lembro-me bem de seu olhar etéreo."Mas a turma do Zé era mesmo a dos boêmios. Renato Borghi, Carlos Queiroz Telles e Amir Haddad, por exemplo. Eles foram co-fundadores do Oficina e Borghi seria também seu parceiro por dez anos. As tradicionais trovinhas da faculdade não agradavam a Zé Celso, que já andava com a turma da bossa nova, tendo até namorado a cantora Miúcha por um ano. "Namoro de armário, pra não dizer pro mundo que eu era gay. Mas eu gostava dela." Da Pindura, ele participava.Zé Celso colou grau em 6 de abril de 1961, dia do aniversário de Cacilda Becker, sua amiga e musa. Foi ao baile de formatura com os pais, muito orgulhosos. A essa altura, o Teatro Oficina, fundado em 1958, estava a todo vapor e já se tornara a principal causa do doutor Zé.A entrevista termina. Ele ainda faz uma recomendação: "Olha, não faz uma matéria que só me elogie, que só diga que eu sou o máximo. Detesto isso. Não poupa nada." Dá um abraço, avisa que está solteiro e à procura, e segue para a leitura de um texto com seu grupo, provavelmente noite adentro. Bem acordado.

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