Estética bandida Uspianos contra a ditadura mostravam a cara, iam presos e sobre eles pesava a Lei de Segurança Nacional. Diferente dos riscos do encapuzado de hoje, diz sociólogo

DEMÉTRIO MAGNOLI

DEMÉTRIO MAGNOLI É SOCIÓLOGO, DOUTOR , EM GEOGRAFIA HUMANA PELA USP, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2011 | 03h09

Estética nem sempre é política. Na USP da mais recente invasão da reitoria, porém, toda a política se condensa na imagem dos invasores de rostos cobertos, uma estética inspirada na criminalidade. Os encapuzados só podem ser classificados como estudantes pela circunstância quase fortuita de que um dia passaram no vestibular e se matricularam na USP. São, de fato, militantes de seitas esquerdistas em estado de perene delírio ou, em alguns casos, analfabetos históricos que se imaginam anarquistas. Nada, exceto um número de matrícula, têm em comum com os quase 89 mil estudantes da universidade. Também nada têm em comum com a tradição do movimento estudantil, a não ser que representam o seu avesso perfeito.

A prova está na estética. Os encapuzados se justificam sob o argumento de que, cobrindo o rosto, escapam à ameaça de processos administrativos por depredação patrimonial. São covardes (e, aliás, por isso agridem jornalistas). Há 34 anos, os estudantes da USP deflagraram um movimento nacional contra a ditadura. Ninguém cobriu o rosto ou escondeu sua identidade. Havia prisões. No lugar de processos administrativos, enfrentava-se a Lei de Segurança Nacional. As passeatas estudantis se faziam sob chuvas de papel picado lançado de edifícios do centro da cidade. Hoje, os encapuzados da reitoria são alvo do desprezo da opinião pública - inclusive dos estudantes de verdade.

A estética conta toda a história. Os encapuzados não são os únicos que usam camisetas com a figura de Che Guevara. A imagem icônica está impressa nos trajes de muitos estudantes de verdade, que não os apoiam. Nessa uniformidade, há uma confusão trágica. Guevara é o autor da ideia da ação exemplar: o gesto insurrecional de uma vanguarda iluminada que funciona como faísca do levante geral. A tese guevarista, fruto tardio do stalinismo, coagula a lógica da invasão da reitoria. O rosto coberto e a iconografia na camiseta formam um conjunto coerente. Tragicamente, os diretores do DCE que condenaram a invasão também têm suas "camisetas do Che". É por isso que se revelaram impotentes diante dos vândalos encapuzados.

Nas passeatas de 1977, havia grupelhos de "anarquistas" que almejavam a glória suprema de depredar uma viatura policial. Sob orientação do DCE, os estudantes formavam cordões em torno das viaturas - e, se necessário, afastavam à força os ancestrais dos modernos encapuzados. Dias atrás, a PM desalojou os invasores da reitoria, realizando um serviço que deveria caber ao próprio DCE, apoiado pelos estudantes de verdade. Os dirigentes estudantis de hoje ainda não entenderam, mas não custa tentar explicar: ou eles expulsam os encapuzados de seu movimento ou os encapuzados implodem o pouco que resta de movimento estudantil.

Guevara foi executado por um sargento bêbado na selva boliviana, sob a silenciosa, mas sólida e aplastante, indiferença dos camponeses cujas consciências pretendia incendiar por meio de sua ação exemplar. Em Cuba, foi elevado à condição de mártir oficial e objeto de mediação simbólica para o exercício do culto à personalidade de Fidel. Na Argentina, no Chile, um pouco no Brasil, sua herança prolongou-se numa miríade de faíscas irrelevantes de violência que funcionaram como pretextos para ditaduras engajadas nas "guerras sujas". A iconografia guevarista é a celebração da morte. Na reitoria invadida, entre latas de cerveja e cigarros de maconha, em meio aos fantasmas de Videla, Pinochet e Médici, um punhado de idiotas fez uma festa macabra.

Estudantes são jovens, mas a USP nunca entenderá o que se passou se não olhar para seus próprios velhos. A mais recente edição da Revista Estudos Avançados, prestigiosa publicação do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), traz um "Dossiê Cuba" com 17 artigos, 14 dos quais escritos por intelectuais cubanos selecionados pela Casa das Américas - ou seja, diretamente pela ditadura castrista. No seu todo - com pálidas exceções destinadas a iludir os (muito) incautos -, a edição é uma peça de propaganda internacional do regime tirânico que encarcera os intelectuais independentes. Cuba é, de certo modo, um "Estado de encapuzados": no seu sistema de partido único, líderes iluminados conduzem uma nação à revelia dos cidadãos, longe do escrutínio da opinião pública. Quando o IEA se presta ao papel de porta-voz oficioso de uma ordem política erguida sobre a negação da liberdade de pensamento, clama por nada menos que a extinção da universidade.

Os rostos cobertos dos invasores, as "camisetas do Che" e o número 72 da revista do IEA são fragmentos que compõem um tecido estético matizado, mas contínuo. A invasão da reitoria não terminou pela ação de reintegração de posse da PM. Só a maioria dos estudantes e professores da USP tem a prerrogativa de encerrá-la de fato, escancarando as janelas da universidade a fim de que um ar limpo possa circular.

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