Estética do tranco A violência atlética entre competidores, às vezes entre espectadores, é parte da plástica do esporte, provoca o autor

HANS ULRICH GUMBRECHT

HANS ULRICH GUMBRECHT É PROFESSOR DE LITERATURA DE STANFORD, AUTOR DE ELOGIO DA BELEZA ATLÉTICA (CIA. DAS LETRAS), O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2011 | 03h07

Pouco antes do início dos Jogos Pan-Americanos em Guadalajara, no México, uma notícia chocante se espalhou, "chocante" sobretudo pela violência e os detalhes repulsivos que continha: "A cidade está novamente engolfada pelo crime organizado, desta vez com mensagens de intimidação para autoridades que chegaram para o evento. Essas mensagens foram deixadas em caixas de gelo que continham cabeças de porco. A primeira foi encontrada perto do hotel que abriga a Polícia Federal, convocada para manter a ordem no evento. A segunda, na esquina das Ruas Cotilla e Emerson". Mais tarde, dizia a reportagem, representantes do Instituto Forense descobriram que as supostas "cabeças de porco" eram, na verdade, restos humanos.

Ao ler esse texto, percebi como não havia conseguido esquecer das imagens de brutalidade que surgiram nas investigações sobre o goleiro Bruno, do Flamengo, e ficou claro para mim que o incidente em Guadalajara estava fadado a provocar, de novo, aquelas tradicionais discussões sobre uma relação secreta - talvez devêssemos dizer uma certa ou uma hipotética relação? - entre esportes e violência. Será que a violência potencial e, em alguns casos, inevitavelmente inerente a alguns eventos esportivos, sempre provoca atos violentos que não podem ser contidos por seus sistemas de regras? A resposta supostamente correta, com todos os devidos sinais de pesar, é "sim, incondicionalmente". Sim, os esportes necessariamente produzem violência - embora nós saibamos que as coisas são mais complicadas. Uma resposta melhor à velha questão requer uma definição de "violência". Por isso, chamarei de "violência" todo ato que tente ocupar ou bloquear espaços com corpos, contra a resistência de outros corpos.

O cenário sanguinolento de Guadalajara sugere uma sequência de dois níveis de violência. Um se refere àqueles "restos humanos" que podem ser o resultado de assassinato, e o outro à colocação das duas "caixas de gelo" num espaço que não lhes é próprio. Mas qual é a conexão, se há alguma, entre esses rasgos de violência e os esportes? Decididamente, não é plausível supor que alguma violência potencial inerente a algum esporte possa ter acarretado esses atos criminosos. Deveríamos entender que grandes eventos esportivos atraem o crime (organizado). Isso porque esses eventos tornam os humanos vulneráveis de múltiplas maneiras. Eles atraem muitos atletas e quantidades muito maiores de espectadores que não conhecem os espaços locais suficientemente bem para se proteger contra ameaças criminosas; reúnem quantidades enormes de pessoas nos espaços exíguos de estádios onde elas não podem escapar da violência; finalmente, eventos esportivos importantes recebem atenção intensa da mídia, o que significa que qualquer violência que atinja seu contexto provavelmente se tornará mundialmente visível. Numa era em que as técnicas de terror do crime organizado superaram o monopólio tradicional da violência do Estado, nenhum evento esportivo pode estar completamente seguro contra crimes como os de Guadalajara - que, afinal, foi apenas uma "advertência". Essa é uma situação relativamente nova e preocupante que o governo brasileiro precisa levar em conta nos preparativos para a Copa e a Olimpíada.

Além da violência de fora que os esportes atraem, estamos familiarizados com perigos muito diferentes, mais intrínsecos, de força física em eventos esportivos. Quem já esteve exposto, como espectador, à dinâmica inocente da "olla" (onda) sabe como é difícil resistir à energia coletiva que ela desencadeia. O puro entusiasmo pelo jogo do seu time provoca movimentos similares cuja violência em breve excederá o controle de qualquer indivíduo na multidão e mesmo o controle dos presentes para garantir um certo grau de ordem. Foi uma dinâmica fatal como essa que, anos atrás, custou a vida de muitas pessoas num jogo no velho estádio de São Januário do Vasco da Gama. Mas será que nós realmente gostaríamos que essa fonte de violência e perigo fosse eliminada? Que gostaríamos de assistir a um jogo de futebol da mesma maneira como assistimos a um filme num cinema? Seguramente, a possibilidade de se integrar a um corpo coletivo faz parte do apelo de comparecer a eventos esportivos - tanto que essa pode ser a dimensão mais subestimada da ida a um estádio.

A questão real é, portanto, se esse potencial de violência perigosa - e, quem sabe, inevitável - de espectador espelha a violência que se desenrola entre os atletas em ação. Eu acredito - contra todas as suspeitas e sugestões politicamente corretas que estão pedindo repressão implacável a todo tipo de violência nos esportes - que não é esse o caso. O futebol, ao menos segundo suas regras (que decerto são ocasionalmente quebradas), é um jogo quase sem violência, e no entanto, é famoso pelos excessos de violência e agressões entre seus espectadores. Há muitos outros eventos atléticos - o rúgbi, o futebol americano, o hóquei no gelo e o boxe - em que a exibição de violência é muito mais franca e essencial, sem que suas assistências sejam particularmente notórias pela violência. Se já existiu uma relação direta entre o grau de violência inerente a certos esportes e a que surge entre seus espectadores, os estádios de futebol seriam lugares pacatamente bucólicos - e as arenas de boxe, um inferno vivo.

Como não é esse o caso, acho que as federações esportivas internacionais deveriam se preocupar menos do que estão com a repressão à violência. Isso porque, por mais provocativa e incomum que essa declaração possa ser, a violência atlética entre atletas e, ocasionalmente, entre espectadores, é parte inevitável da estética distintiva dos esportes - e pode haver até uma relação sistemática (mas raramente mencionada) entre estética em geral e violência. Os administradores esportivos e a mídia deveriam se concentrar em outros problemas mais sérios: no óbvio racismo que tem assombrado o futebol há muitos anos; na homofobia; na habitual exploração dos jogadores jovens - alguém já perguntou se Lionel Messi ficou feliz de engolir aqueles hormônios do crescimento que o FC Barcelona tão generosamente lhe forneceu? / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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