Reuters-FarsNews/Hamed Jafarnejad
Reuters-FarsNews/Hamed Jafarnejad

Estratégia de Pirro

A arma do petróleo mostrou-se ineficaz no passado tanto para quem produz como para quem compra, pois um lado não vive sem o outro; mas até que a ficha caia os oponentes pagam a conta do sacrifício

ALEXANDER JUNG E BERNHARD ZAND, DER SPIEGEL

15 de janeiro de 2012 | 03h10

Pode parecer surpreendente, mas os superpetroleiros não se incendeiam facilmente. Embora o petróleo bruto que transportam seja altamente inflamável, não há oxigênio suficiente nos tanques para criar uma mistura explosiva.

Em média, 14 desses petroleiros gigantescos atravessam diariamente o Estreito de Ormuz, entre o Irã e Omã. Se o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, realmente ordenar às suas forças que lancem mísseis contra um desses petroleiros, será necessário um grande poder de fogo para desencadear um inferno no estilo hollywoodiano. Mas os ataques verbais de Teerã têm sido mais que suficientes para incendiar os mercados globais de petróleo.

Na semana atrasada, os preços saltara m novamente acima dos US$ 100 o barril, mesmo com todas as sombrias previsões econômicas mundiais. Na Alemanha, em 2011, a gasolina teve a maior alta de todos os tempos.

E agora, a disputa sobre quem controla o Golfo Pérsico, provocada pela política do Irã no campo nuclear, sinaliza que uma nova escalada está em vista.

Durante dez dias, da véspera de Natal até o início do ano-novo, a Marinha iraniana fez manobras numa área por onde passa a mais importante rota de comércio internacional de petróleo, um gargalo pelo qual é distribuído cerca de um terço do óleo bruto transportado por navio para todo o mundo. O vice-presidente iraniano, Mohamed Reza Rahimi, advertiu que, se o Ocidente impuser novas sanções às exportações de petróleo iranianas, Teerã não permitirá que "uma só gota do produto" passe pelo Estreito de Ormuz.

Mas impor novas sanções é precisamente o que os países industrializados têm em mente. Na véspera do ano-novo, o presidente Barack Obama assinou lei proibindo quem quiser negociar com os Estados Unidos no futuro de fazer qualquer transação com o banco central do Irã. A lei tem por objetivo impedir Teerã de realizar qualquer tipo de transação relacionada com petróleo.

Óleo contra o Irã. Ficou claro na semana passada que, quando os ministros do Exterior dos países da União Europeia se reunirem no final do mês, poderão adotar sanções ainda mais severas, de forma a que os 27 países membros não comprem um único barril de petróleo do Irã. O ministro do Exterior da França, Alain Juppé, garantiu que as negociações a respeito estão "no caminho certo".

O petróleo está sendo utilizado novamente como arma, mas desta vez não só por uma das nações exportadoras. Os países industrializados também decidiram usá-lo como instrumento, contra o Irã. Um duelo de boicotes está tomando forma, um novo conflito energético entre um fornecedor e seus clientes em que são usados os instrumentos que cada lado tem para exercer pressão sobre o outro. A única dúvida é se os instrumentos - embargos e sanções - serão de fato eficazes. O que exatamente pode a arma do petróleo conseguir?

Steffen Bukold, autor de um estudo sobre comércio de petróleo, notou que existe um paradoxo surpreendente. Segundo ele, o público ainda considera o embargo o tipo mais grave de crise. "Mas quando se examina o real efeito sobre o mercado petrolífero, até os dias de hoje, a importância do embargo é mínima", diz ele. A história corrobora tal afirmação.

A arma do petróleo foi usada pela primeira vez no verão de 1967, pouco depois de iniciada a Guerra dos Seis Dias. Na época, os ministros árabes do petróleo decidiram punir o Ocidente por causa dos ataques aéreos de Israel contra alvos no Egito. E sem mais delongas, as nações árabes deixaram de vender petróleo para os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Mas o embargo foi relativamente ineficaz, porque a União Soviética imediatamente se prontificou a cobrir a lacuna. Além disso, a perda de receita foi tão dolorosa para os árabes que eles suspenderam o embargo depois de alguns dias. Assim, a primeira utilização do petróleo como arma fracassou.

A operação seguinte ocorreu sete anos mais tarde, logo após irromper a Guerra do Yom Kippur, em outubro de 1973, mas também saiu pela culatra. Na ocasião, o cartel da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) decidiu quase dobrar o preço de venda do produto de US$ 2,90 para US$ 5,11 o barril. E prometeu cortar a produção em 5% ao mês até Israel se retirar dos territórios ocupados em 1967.

A reação ocidental chegou ao limite da histeria. Os consumidores aprovisionavam gasolina e óleo de aquecimento, e o governo alemão proibiu o tráfego de carros aos domingos. O então chanceler Willy Brandt qualificou a medida dos árabes como "uma pausa na história do pós-guerra".

Embora os eventos possam ter sido politicamente dramáticos, numa certa perspectiva os temores foram exagerados, porque o mercado continuou bem abastecido. No final, a Alemanha foi privada de apenas 12 milhões dos 370 milhões de toneladas de petróleo que consumia num ano, o que podia facilmente ser compensado por outras fontes. Em outras palavras, não constituiu num obstáculo ao progresso. Só o temor era real.

Além disso, a frente unida da Opep contra o Ocidente em breve desmoronou. A Argélia retirou-se do embargo logo depois, seguida pelo Iraque. Quando alguns poucos países produtores insistiram num novo aumento do preço, para US$ 11,65, em 23 de dezembro de 1973, a Arábia Saudita, o membro mais importante do cartel, também desistiu do embargo. Mais uma vez, a arma do petróleo provou ser ineficiente.

Essa falta de unidade dentro da Opep ainda hoje não é inusitada. Na grande mesa de conferências no salão da sede da organização, em Viena, representantes do Irã, Iraque e Kuwait - países que guerrearam entre si nas últimas décadas - sentam-se lado a lado em ordem alfabética.

Existe uma divisão dentro do cartel desde sua fundação, em 1960: entre países moderados como a Arábia Saudita, que possui enormes reservas e tem planos de longo prazo, e radicais como Argélia, Líbia e Irã, que têm uma posição mais antagônica, de confronto, sem medir as consequências.

Os agitadores deliberadamente ignoram um mecanismo simples: o choque de preços que decidem afeta enormemente as companhias dos países compradores, provocando uma desaceleração do crescimento, que reduz a demanda por energia e, como resultado, o preço do petróleo. No final, os produtores beligerantes somente se prejudicam.

Ahmed Zaki Yamani, o famoso ministro do petróleo da Arábia Saudita, frequentemente alertava seus colegas do cartel para não se excederem. Em novembro de 1973 , ele afirmou que o objetivo da Opep não devia ser o de "paralisar e destruir" as economias do países ocidentais.

Yamani sabia que qualquer choque de preços detonaria um impulso fatal: à medida que o petróleo se torna mais caro, os países industrializados partem em busca de alternativas: as montadoras produzem carros mais econômicos e as construtoras aumentam o isolamento térmico nas novas edificações.

A demanda por petróleo dos países da Opep caiu substancialmente nos anos 80, com sua fatia da oferta global do produto encolhendo de 50% em 1973 para 30% em 1985. O Ocidente expandiu os próprios projetos de perfuração no Mar do Norte, Alasca e Golfo do México. O mundo observou uma superabundância de petróleo e os preços chegaram algumas vezes a cair abaixo de US$ 10 o barril. As empresas petrolíferas ocidentais ainda buscam reservas adicionais. Cerca de 40% das novas reservas de petróleo se encontram em águas oceânicas profundas. Desse modo, cada aumento drástico no preço do produto já vem com um prognóstico de queda iminente. Ou, diferentemente, a arma do petróleo no final se direciona contra aqueles que a tem em suas mãos.

A arma dos países consumidores - a imposição de sanções contra "Estados renegados" produtores de petróleo para trazê-los de volta à razão - tem fragilidades semelhantes. O Ocidente tentou utilizá-la seis vezes somente nos últimos 20 anos. Embora talvez seja muito cedo para prever o resultado nos casos mais recentes, em especial, Síria e Irã, os exemplos do Iraque, Nigéria, Sudão e Líbia mostram como é difícil adotar sanções em se tratando de petróleo e como é fácil contorná-las.

Sanções ao crescimento. As sanções também geram consequências além das pretendidas, geralmente punindo muito mais o cidadão comum, com fome e sofrimento, que a classe dirigente. E, no caso do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein e do ex-líder líbio Muamar Kadafi, quando um barão do petróleo é destituído não foi a arma do petróleo que selou seu destino.

Os consumidores, por seu lado, não constituem absolutamente um grupo homogêneo, como mostram as pretendidas sanções contra o Irã. Para países como Coreia do Sul e Japão, que compram cerca de 10% do petróleo de que necessitam do Irã, é difícil encontrar um substituto rapidamente. A Coreia do Sul tem contratos firmados com Teerã que não podem ser facilmente quebrados. E o Japão, em consequência do desastre de Fukushima, necessita de muito mais petróleo para operar suas usinas elétricas.

A Turquia, que compra 30% do petróleo que precisa do Irã, não pretende isolar seu vizinho. Na semana atrasada, no dia em que o ministro do Exterior turco, Ahmet Davutoglu, fazia uma visita a Teerã, um funcionário do Ministério da Energia da Turquia anunciava que Ancara pediria a Washington para isentar a Turquia de participar das sanções estabelecidas pelos americanos

A Índia, um país gigantesco que supre 12% das suas necessidades de petróleo importando do Irã, mantêm relações muito estreitas com Teerã. E, finalmente, a China criticou os planos de sanções de Washington, qualificando-os de arrogantes. Pequim, embora tenha reduzido consideravelmente sua dependência do petróleo iraniano, não pretende participar do boicote.

Os especialistas estão profundamente preocupados com o fato de, mais uma vez, um país produtor de petróleo do Oriente Médio, no caso, o Irã, estar no centro de uma guerra de sanções. "Mais de 90% do crescimento da produção global de petróleo se dará no Oriente Médio e no Norte da África nos próximos dez anos", afirma Fatih Birol, economista chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), que tem sede em Paris.

A Primavera Árabe, não obstante as esperanças que trouxe para o cidadão comum, já está afetando os investimentos na região. Países estão optando por investir mais em programas sociais que no setor petrolífero. As elites políticas estão mais interessadas nas próprias necessidades que nas do mercado do petróleo; e quanto pior a situação na área da segurança, mais difícil será atrair engenheiros e especialistas internacionais para a região.

Mas mesmo que o gargalo iraniano venha a ocorrer, os países do Golfo teriam condições de suprir as deficiências, diz Birol. "Em particular a Arábia Saudita, que costumo caracterizar como o banco central do comércio de petróleo, sempre atuou com responsabilidade em situações desse tipo." Os países membros da AIE, ele diz, também possuem reservas que podem ser utilizadas numa situação de emergência, além dos estoques mínimos que são obrigados a manter - o necessário para suprir 90 dias de importação.

No entanto, economistas duvidam que os mercados petrolíferos vão funcionar tão bem e com a estabilidade de que os consumidores gostariam. Eles provavelmente serão mais influenciados no futuro pelos interesses geopolíticos, especialmente no Oriente Médio, e em detrimento dos europeus. Em 2015, a Europa já estará precisando importar mais petróleo do que os EUA.

Até agora, Washington tem se sentido responsável pela estabilidade no Oriente Médio. Fatih Birol acredita que a região será menos importante para os Estados Unidos no futuro do que para a Europa e a China. "A Europa estará na vanguarda das potências responsáveis pela segurança do fornecimento de petróleo", diz ele.

Nessas circunstâncias, é questionável se tem sentido os europeus se juntarem ao boicote. De qualquer maneira, a arma do petróleo mostrou ser um instrumento ineficaz no passado, tanto para produtores como para consumidores. Os dois lados sempre dependerão um do outro, com os produtores precisando do dinheiro e os consumidores do combustível. Essa dependência mútua garante que, no final, a realidade econômica leve ao compromisso.

Mas antes de conseguirem entender bem isso, os oponentes terão que fazer sacrifícios. Os cidadãos dos países industrializados perceberão na bomba de gasolina, onde pagarão alguns centavos mais. E os que vivem nos países produtores também sentirão - e mais profundamente - porque não terão o que comer. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.