Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Estreia de Gabriela Aguerre mostra autora em pleno domínio da linguagem

'O Quarto Branco' conta com malabarismos estilísticos e elementos de autoficção da autora uruguaia radicada no Brasil

Mateus Baldi*, Especial para o Estado

13 de abril de 2019 | 16h00

Embora seja a estreia da escritora Gabriela Aguerre, O Quarto Branco parece trabalho de quem já tem chão suficiente para saber aonde está se metendo. Ao recusar a prosa cadenciada em favor de um jorro contínuo de emoções – mas que também não é exato como um fluxo de pensamento tradicional – logo de cara este romance estabelece um pacto indiscutível com o leitor: como não é possível me largar, vá até o fim – e num adendo enviesado, este humilde resenhista recomenda ter sempre um lenço à mão. 

Gloria, a protagonista, sofreu um aborto e descobriu ser incapaz de gerar vida. Às voltas com os 40 anos, sua existência parece estar intrinsecamente atrelada a toda sorte de malgrados – foi demitida e o pai se encontra hospitalizado. Assim como a autora, Gloria é uruguaia radicada no Brasil. Munida de incertezas, ela resolve retornar à terra natal para tentar reencontrar laços há muito perdidos – o tio, a irmã morta. A partir deste fio, que tinha tudo para ser mais um romance de formação qualquer, Gabriela Aguerre promove um verdadeiro road book pelo interior de sua turbulenta personagem, não sem antes cometer o delírio de nos deixar dentro do Uruguai, onde quer que estejamos. Por mais que à primeira vista as digressões assombradas de Gloria possam soar confusas, Gabriela sabe conduzir e dar o lastro necessário para que fantasmas, cinzas e ossos de baleia surjam e desapareçam no momento exato.

A certa altura, Gloria comenta sobre o inferno que é ter de se reinventar, e talvez seja esse o nervo do romance. Se perdeu o feto logo no começo da história, ela agora lega ao leitor a obrigação de expelir uma vida gestada a partir de sua narrativa – o livro.

uncionando como pequenas navalhadas numa carne que vai sendo constantemente amaciada até ser novamente cortada, a prosa de Gabriela Aguerre parece trazer em si elementos que se articulam com movimentos da poesia contemporânea: alguns muitos parágrafos poderiam ser versificados sem maiores prejuízos, e toda sorte de malabarismo estilístico – hífen fora de lugar, ausência de ponto final, pormenores de frutas como se estivessem na boca, etc. – remete ao inferno da reinvenção.

Uma vez no Uruguai, Gloria cuida de nos apresentar ao seu tio, muito voluntarioso, e às lembranças de um país objeto-de-fuga: foi no Brasil, criança, que aprendeu o significado da palavra ditadura. “As coisas que as crianças esquecem, as crianças que envelhecem” – quando diz isso, Gabriela Aguerre torce o livro e prepara para o final que demole as páginas como um dominó suspendendo a hipnose. Porque há um quê de hipnose, enfim, num livro com ritmo de torvelinho que se propõe a falar de crianças mortas, irmãos, família e heranças de passados distantes. O que nos traz de volta aos já mencionados pactos & risco: o leitor não desgruda das páginas porque toda essa tessitura tem alguma razão de ser, e é a cena final que parece dar conta disso, como uma grande revelação; e se não desgruda, também compra o risco que entrar n’O Quarto Branco oferece: despir-se de quaisquer escudos em prol de uma experiência literária calcada no labirinto.

A única queixa seriam alguns diálogos com um quê de deslocados, contudo, posicionados por uma narradora acachapada diante da realidade – a vida, em resumo – o mundo que absorve e expele sem dó nem piedade: até mesmo esses diálogos parecem possíveis. De modo que ao fim de pouco mais de cem páginas tem-se um romance que parece um grande branco, como o título, porém cheio de ranhuras profundas e uma nova voz despontando já sem medo nenhum. Bem-vindo ao inferno, leitor. Tente se reinventar. E se por um acaso olhar para trás, cuidado com as cinzas e os ossos de baleia. Boa viagem.

*MATEUS BALDI É ESCRITOR E ROTEIRISTA. FUNDOU A RESENHA DE BOLSO, PLATAFORMA DE CRÍTICAS DE LITERATURA 

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