Perspectiva
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Estudo clássico de Gregory Nagy sobre Homero ganha reedição no Brasil

Obra investiga as questões da performance, da autoria e da tradição oral na 'Ilíada' e na 'Odisseia'

Marcelo Tápia, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2021 | 15h00

No texto de quarta capa do livro Questões Homéricas, de Gregory Nagy, recém-lançado pela editora Perspectiva, diz-se que a obra é “uma leitura essencial para todos os estudiosos e interessados nos clássicos e nas tradições orais”. Verdade, sem dúvida, mas uma verdade parcial: o trabalho pode ter alcance mais abrangente, como pretendo demonstrar a você, leitor/a.

Comecemos com uma constatação do próprio autor, na tradução de Rafael Rocca dos Santos: “Vivemos em uma era em que as tradições vivas de sociedades tradicionais estão rapidamente se tornando extintas; em que muitos milhares de anos de experiência humana cumulativa estão se tornando obliterados em menos de um século, mais ou menos, de progresso tecnológico moderno.” Isso nos faz pensar, de imediato, em tudo que perdemos e em quanto podemos conhecer da memória viva que ainda resta de experiências profundas, como são as da criação e da transmissão oral, que, comum à tradição de culturas como a grega antiga, ecoa hoje em tendências performáticas de criação poética e musical, ligadas às origens da própria linguagem e à sua função mítica e encantatória.

Outro estudioso da oralidade, Paul Zumthor, diria – em sua Introdução à Poesia Oral: “O desejo da voz viva habita toda poesia, exilada na escrita. O poeta é voz, kléos andrôn ; a linguagem vem de outra parte: das musas, para Homero. Daí a ideia de épos, palavra inaugural do ser e do mundo ”.

No título de sua obra, publicada originalmente em 1996, Nagy pluraliza a familiar expressão “questão homérica”, relacionada à autoria, à composição e à datação das epopeias atribuídas a Homero; para ele, por meio de uma só questão não se pode conhecer “a realidade dos poemas homéricos”. Ao introduzir seus propósitos, lembra que nos tempos da Biblioteca de Alexandria – denominada museum, local das musas – quem presidia o texto eram as musas, que “haviam sido anteriormente as musas da performance”; haveria, então, uma nostalgia – que perduraria até hoje – “da filologia em relação às musas da performance inspirada”. 

O autor, que considera a performance como “a questão homérica primordial”, focaliza os notáveis pesquisadores Milman Parry e Albert Lord (continuador do trabalho do primeiro, morto prematuramente), considerando que suas próprias Questões Homéricas servem de extensão ao que foi proposto por Lord, autor de Singer of Tales (1960), Cantor de Contos. O trabalho de ambos envolveu a pesquisa de campo sobre tradições épicas orais eslavas: Parry levou para Harvard, após sua pesquisa realizada em 1934 e 1935, 3.500 gravações de cantores épicos, trabalho que seria a base para o grande insight “de que composição e performance são aspectos do mesmo processo de criação da poesia homérica”. No dizer de Lord, “um poema oral é composto não para, mas sim na performance”.

Nagy sustenta que “a análise sincrônica das tradições orais vivas revela que a composição e a performance são aspectos de um processo”; o conceito de “composição-em-performance” é um dos elencados por ele ao aplicar a ideia de poesia tradicional oral a Homero. Outro é o de “fórmula”, definida por Parry como “um grupo de palavras que são regularmente empregadas sob as mesmas condições métricas para expressar uma determinada ideia essencial” (num nível amplo e impreciso de generalização, creio que possamos considerar análogo à fórmula o recurso presente em manifestações orais como a de repentistas brasileiros, que se valem de um repertório de frases para a composição de seus versos). Nagy refere-se, também, à ideia de “tradição ‘versus’ inovação”, segundo a qual “a tradição oral torna-se viva na performance e o aqui e agora de cada nova performance é uma oportunidade para a inovação”. E, relativamente aos conceitos de “autor e texto”, considera que a própria tradição da performance oral teria proporcionado a unidade e a organização dos poemas homéricos.

O autor esclarece que, embora “a oportunidade para um texto se tornar o equivalente da performance” já existisse no século 8 a.C. (associado por muitos a Homero), época das primeiras inscrições poéticas, só após 550 a.C. se daria o uso da escrita na forma de manuscritos, que serviriam para a transcrição, ou seja, para o registro de uma composição e o controle das circunstâncias de uma performance. Para Nagy, portanto, as menções à escrita encontradas na poesia homérica não implicam que esta fora usada para sua criação: “até mesmo uma tradição oral pode se referir a uma tradição escrita sem necessariamente ser influenciada por ela”.

As evidências apontam para um “processo evolucionário na feitura da poesia homérica”; assim, Homero seria um “herói cultural”, projetado no passado como “o protopoeta cuja poesia é reproduzida por uma sucessão contínua de performers”. Essa noção faz com que percamos “um autor querido”, o Homero histórico; mas faz, também, com que recuperemos “um autor mítico que é mais do que um simples autor: ele é Homēros, herói cultural do helenismo, que irá renascer com cada nova performance de sua Ilíada e de sua Odisseia”. 

Podemos acrescentar por nossa conta, leitor/a, que, assim como o texto escrito – um equivalente da performance – tem perpetuado o resultado da tradição oral (nesse sentido, podemos nos maravilhar com a predição de Aquiles, no canto IX da Ilíada, de que a canção sobre ele duraria pela eternidade), a tradução poética é um fator decisivo nesse processo de perpetuação, por gerar “cantos paralelos” (como diria Haroldo de Campos) que são feitos criativos sempre renovados e diversos, embora preservem a identidade do texto construído através das eras. 

É muito estimulante pensar que toda a literatura tal como a conhecemos também resulte de um processo de derivação contínua, que reescreve vozes num processo infinito – nenhum autor deixa de estar imerso no coletivo da criação pela palavra. 

Se na tradição da performance, como afirma Nagy, para “sermos capazes de ouvir de fato, há de haver amor à palavra”, podemos admitir a ideia de que toda a literatura, oral e/ou escrita, move-se por esse amor; e que a palavra “não morreu, não está morrendo ainda, e não morrerá se for de fato amada”.

*É POETA, ENSAÍSTA E PÓS-DOUTOR EM LETRAS CLÁSSICAS PELA USP

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