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Estudo clássico de Mikhail Bakhtin é reeditado no Brasil

Crítico russo analisou o tempo e o espaço no romance usando obras de Dostoievski

Flávio Ricardo Vassoler*, Especial para o Estado

10 Novembro 2018 | 16h00

Após a publicação de Teoria do Romance I: A Estilística, a Editora 34 lança Teoria do Romance II: As Formas do Tempo e do Cronotopo, do crítico literário e filósofo da linguagem e da cultura Mikhail Bakhtin (1895-1975). Teoria do Romance II assenta-se sobre o conceito de cronotopo, que “significa ‘tempo-espaço’, levando-nos à interligação essencial das relações de espaço e tempo como foram artisticamente assimiladas na literatura. (...) Como uma categoria de conteúdo-forma da literatura, o cronotopo tem um significado fundamental para os gêneros poéticos e determina (em grande medida) também a imagem do homem na literatura.” 

No posfácio, o tradutor Paulo Bezerra cita duas noções essenciais de tempo que dão materialidade ao conceito e acompanham suas transformações historicamente configuradas: “(i) o tempo cíclico que, em grau variado de intensidade, se revela primordialmente na natureza e se relaciona a elementos como o movimento do sol e das estrelas, o canto dos galos, os objetos sensoriais das estações do ano, tudo isso em relação indissolúvel com os respectivos momentos da vida humana, dos costumes e do trabalho; (ii) o tempo histórico, cujos indícios complexos são vestígios da criação do homem, vestígios de suas mãos e da inteligência: cidades, obras de arte, técnicas, organizações sociais etc. Com base nesses elementos, o artista interpreta as intenções mais complexas dos homens, das épocas, das nações e classes sociais.” 

É famosa a máxima do filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel, para quem “a coruja de Minerva [deusa romana da sabedoria e das artes, do comércio e das estratégias bélicas] só levanta voo ao entardecer”, colocação que insinua que a compreensão mais efetiva e aprofundada da história e suas múltiplas veredas apenas ocorre quando seus processos estão se exaurindo. Sendo assim, o filósofo, o historiador e o crítico de arte poderiam acompanhar o complexo, descontínuo e contraditório processo de constituição de determinada instituição ou gênero literário não a partir das tensões de seu apogeu, quando as mais diversas tendências disputam primazia, mas no momento em que a crise e a obsolescência da instituição ou gênero literário permitirem um acompanhamento genealógico mais panorâmico e distanciado. 

Nas primeiras décadas do século 20, o crítico literário húngaro György Lukács sentenciou que o romance alcançara, como gênero literário, um esgotamento devido à impossibilidade de a modernidade projetar (e narrar) novos sentidos para o mundo por sobre os escombros de Deus e da tradição que antes traçavam seus desígnios na abóbada celestial repleta de estrelas. Pois é justamente no contexto de crepúsculo da forma romance diagnosticado por Lukács que Mikhail Bakhtin procura acompanhar o processo de formação do romance europeu dos gregos e latinos clássicos, passando pelo romance medieval de cavalaria e seus pícaros e bufões, até se embrenhar pelos fundamentos folclóricos do cronotopo presentes na obra do renascentista francês François Rabelais (1494-1553). 

Ora, se a noção bakhtiniana de cronotopo nos permite refletir sobre as interações entre literatura e história para o acompanhamento do processo variegado e descontínuo de formação do romance europeu, seria possível imaginar, à revelia do voo tardio da coruja de Minerva, quais seriam as transformações e os desdobramentos cronotópicos entre os escritores próximos à época de Bakhtin para a reconfiguração e/ou o estilhaçamento da forma romance. É assim que as formas do tempo e do cronotopo, analisadas em Teoria do Romance II, nos levam a Problemas da Poética de Dostoievski (Forense Universitária), em que Bakhtin desvela, a partir da literatura de Fiodor Dostoievski, não só a formação de um novo gênero literário – as múltiplas vozes das personagens sempre em diálogo e altercação alcançariam o cume do romance polifônico –, mas também uma profunda crítica social ao então novo sistema de reprodução social, o capitalismo. Assim, segundo Bakhtin, “a ênfase principal de toda a obra de Dostoievski, quer no aspecto da forma, quer no do conteúdo, é uma luta contra a coisificação do homem, das relações e de todos os valores humanos no capitalismo. O autor conseguiu perceber a penetração da desvalorização coisificante do homem em todos os poros da vida de sua época e nos próprios fundamentos do espírito humano. Eis, então, o sentido de sua forma artística, o qual liberta e descoisifica o homem.” 

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela USP, com pós-doutorado em literatura russa pela Northwestern University

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