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Eterno Capita: Carlos Alberto Torres foi o capitão de todos os brasileiros

Personalidade só há uma, e a ele não faltava. Brilhou nos clubes, na seleção, como comentarista. Foi o capitão de todos os brasileiros

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2016 | 16h00

Quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará ao futebol sua pretensão à condição de arte? Assim escreve o historiador inglês Eric Hobsbawm em seu livro clássico A Era dos Extremos – o Breve Século XX. Esses “dias de glória” por certo incluem as conquistas de 1958 e 1962, mas, sobretudo a de 1970, quando o Brasil praticou um jogo de bola lindo, envolvente e precursor do futebol contemporâneo – não à toa servindo de inspiração ao técnico Pep Guardiola para a montagem do Barcelona. Uma seleção cheia de estrelas, sem dúvida, a começar pela mais fulgurante de todas, Pelé, mas na qual havia também Tostão, Gérson, Rivellino, Clodoaldo, Jairzinho & Cia. Praticamente um craque em cada posição. O conjunto era comandado por um capitão digno desta patente – Carlos Alberto Torres, que nos deixou esta semana aos 72 anos, vítima de enfarte.

Carlos Alberto não era apenas o “Capita”, como o chamavam, mas ele próprio estrela de primeira grandeza dessa constelação de boleiros de altíssimo nível. Lateral diferente para a época, defendia, atacava e armava o jogo ao sair com a bola. Fazia tudo isso não apenas porque reunia fôlego e condições técnicas para tanto, mas porque dispunha daquela inefável qualidade chamada de “leitura de jogo”. Via o campo como o grande mestre de xadrez vê o tabuleiro. De maneira tática, antecipando jogadas, vendo na frente. Era um técnico dentro de campo e capitão por outra de suas características, esta a da personalidade: a capacidade de liderança exercida junto a seus companheiros. Naquela época, para ser capitão de um time era preciso ser um homem maduro e seguro de si. Não daria para imaginar um capitão que sentasse na bola e chorasse antes de uma cobrança de pênaltis. Ou que fosse um esquentadinho mais preocupado com rixas e selfies nas redes sociais do que com o interesse coletivo.

Carlos Alberto era esse ponto de equilíbrio entre as estrelas. Uma liderança natural, que não precisava se impor no grito, como dele falou Gérson, outro que não tem papas na língua. O que não significa que fosse santinho. Pelo contrário. Havia, em seu tempo, a concepção, hoje politicamente incorreta, de que o grande jogador deveria “saber se defender” em campo. Eufemismo para o bateu, levou. Pelé era adepto da prática: gênio da bola, desde muito cedo entendeu que, com sua capacidade técnica fora do comum, não duraria muito se não soubesse se impor aos zagueiros violentos. Carlos Alberto também não aliviava. Na partida contra a Inglaterra, talvez a mais difícil da Copa do México, deu um senhor chega pra lá em Francis Lee, represália a um lance em que o inglês teria sido desleal com o goleiro Félix. O Capita se impunha e defendia seus comandados. Mas “sabia bater” de modo a não ser expulso e prejudicar o time. Pode-se questionar a metodologia, mas o fato é que, a partir de sua intervenção junto a Lee, o jogo, que sob a complacência do árbitro Abraham Klein descambava para a violência entre os dois times, voltou aos eixos e terminou bem. Melhor para nós, de toda forma: 1 x 0, gol de Jairzinho, servido por Pelé.

Na final da Copa, Brasil x Itália, ambos eram já bicampeões. O vencedor ficaria com a Jules Rimet em definitivo. O Brasil vencia por 3 a 1 e o jogo se aproximava do desfecho. Houve então aquela série de lances mágicos. Bola recuperada, Clodoaldo dribla três adversários, dá a Rivellino, que lança Jair na esquerda, este entrega a Pelé na entrada da área, que, sem olhar, rola para a direita, sabendo que o companheiro de clube estaria entrando a toda velocidade para chutar. Caprichosa, a bola ainda dá uma levantadinha numa irregularidade do campo do Estádio Asteca e se apresenta como manteiga para o chute de Carlos Alberto, com o lado de fora do pé. Uma bomba, que morreu na rede italiana de Albertosi. 4 a 1, vitória garantida. Minutos depois, o próprio Capita erguia a taça e a beijava. O gesto entrou para a iconografia do futebol mundial.

Daí, por tudo que representava, a repercussão nacional e mundial da morte de Carlos Alberto Torres. Jogador símbolo de uma seleção que entrou para a lenda do futebol mundial, ele próprio passou a fazer parte da História ao comandá-la. O gol marcado por ele na final é altamente representativo do que deve ser o futebol-arte quando pensado sem fantasias simplistas. Ao contrário do que se pensa de maneira ingênua, o futebol-arte não é apenas resultado da soma de individualidades talentosas. É muito mais do que isso: são individualidades que jogam como time, pondo-se a serviço do interesse coletivo. O todo é maior que a soma das partes. Não é jogo bonitinho; é jogo eficaz. Um gol como esse, no qual a bola passa pelos pés de alguns do maiores talentos individuais do futebol brasileiro até terminar nos de Carlos Alberto é altamente simbólico. Era o comandante dando assinatura final daquela que foi, talvez, a mais bela página do futebol brasileiro em todos os tempos.

Estupendo jogador de clubes, Carlos Alberto se consagrou em duas agremiações em particular – Fluminense, que o revelou, e Santos, no qual jogou durante dez anos ao longo da fase de ouro do esquadrão da Vila Belmiro, ao lado de Pelé, Coutinho, Pepe, Clodoaldo e outros. Teve passagem pelo Botafogo e, assim como seus amigos Pelé e Beckenbauer, foi jogar no Cosmos de Nova York no final da carreira. Técnico vencedor de Flamengo, Fluminense e outras equipes, tornou-se depois um ótimo comentarista de TV. Desses que falam o que têm na cabeça e não usam meias palavras para dizer o que pensam. A mesma personalidade exibida em campo, Carlos Alberto mostrava em seu trabalho jornalístico. Aliás, personalidade é uma só. Quem a possui, a tem em todas as circunstâncias da vida. E personalidade era o que não faltava ao Capitão do Tri. Brilhando nos clubes, na seleção era o capitão de todos os brasileiros. O eterno Capita.

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