Vadim Ghirda/AP
Vadim Ghirda/AP

Eternos indesejados

Sarkozy quis recuperar espaço na cruzada contra ciganos. Em vão

Gilles Lapouge

18 de setembro de 2010 | 16h00

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, levou um puxão de orelha da comissária da União Europeia para a Justiça, Viviane Reding, que expressou em Bruxelas sua indignação em face da ação que a França move contra os ciganos. Viviane anunciou que a União Europeia (UE) pretendia processar Paris.

 

A razão? Em agosto, no coração de um sonolento verão, um incidente opôs os nômades aos habitantes de uma cidade francesa. Sarkozy explodiu. Ele estava "cheio" daqueles sem eira nem beira que vêm da Romênia, da Bulgária, e plantam suas tendas, sua sujidade, suas roupas puídas, seus pés grandes por toda parte na doce França. Ele ia devolvê-los a quem os enviou. Nos dias que se seguiram assistiram-se a espetáculos pungentes: policiais com tratores derrubando tudo e levando mulheres, homens e crianças para um aeroporto. E pronto! Bons ventos os levem! Mas o fato é que os expulsos retornarão nos próximos dias, pois pertencem à UE e, portanto, podem circular livremente por ela.

 

Essas imagens ganharam o mundo, causando espanto e indignação. O papa, os bispos da França, o Parlamento Europeu, Washington, a ONU, todo o mundo protesta. Justo a França, o país dos direitos humanos!

 

Será o caso pensar que Sarkozy cometeu mais uma besteira? Sim e não. Os ciganos chegam à França (e estão no seu direito) e se instalam em qualquer parte, sem autorização (isso não é seu direito). A França está, portanto, fundamentada para reenviá-los a seus países de origem, onde eles encontram condições de vida indignas porque, na própria terra, são tratados como cães (a Romênia mantém essa minoria infeliz num estado deplorável: sem médico, sem escola, sem trabalho. Em casa, os ciganos são párias).

 

Até aí, nada a dizer. Sarkozy agiu sem carinho nem compreensão, mas não violou a lei. A derrapagem foi ter justificado a ação pedindo à polícia que retirasse não só alguns ciganos que seriam mal comportados, mas "os ciganos". Daí que um homem, uma mulher, pode ser julgado culpado e passível de expulsão não porque cometeu algum crime, mas por pertencer a uma certa etnia, a um grupo social. Foi aí que a França cometeu uma grande vilania: será preciso expulsar todos os ingleses porque um inglês roubou uma carteira? Jogar na prisão os russos porque um, embriagado, insultou alguém num bistrô?

 

Foi o que indignou a comunidade mundial e permitiu a alguns (na ONU, na Comissão Europeia, na imprensa inglesa e americana, incluindo New York Times e Economist) comparar policiais franceses aos soldados alemães durante a guerra, quando deportavam homens porque faziam parte de uma etnia (judaica, cigana). Claro, essas referências históricas são não só ignóbeis, mas tolas: que relação existe entre a expulsão dos ciganos pela França e os comboios da morte nazistas?

 

O que terá levado Sarkozy a lançar seus pretorianos no encalço dos ciganos? Talvez ele tenha um sentimento de repulsa por essa gente que, de fato, é eventualmente incômoda. São barulhentos, enfiam seus grandes caminhões em qualquer parte, pouco se lixam para as leis; suas filhas, por falta de meios de vida, às vezes se prostituem.

 

Isso será motivo para considerá-los um perigo para a França? Eles não são numerosos. No todo, são 15 mil. É um número insignificante. Em vez de relegá-los ao ódio dos sedentários, seria mais simples e mais humano ajudá-los a se integrar: encontrar lugares para suas tendas, escolarizar suas crianças, etc.

 

É provável que Sarkozy tenha aberto esse front por razões de política interna. A popularidade do presidente está em queda livre. Ele busca desesperadamente recuperar a confiança daquela "direita burguesa" que sua vaidade, suas bravatas, seu amadorismo alienaram. Ele pensou que, no trabalho de reconquista da sua base eleitoral, os ciganos fossem um bom truque. Ciganos são detestados, odiados, pelos burgueses, pelos sedentários. Lançar uma cruzada contra os "nômades", os "estrangeiros essenciais", permitiria a Sarkozy recolocar em torno de seu penacho desbotado todos que, no curso de seus equívocos, o abandonaram. Mas, como acontece frequentemente com Sarkozy, o tiro saiu pela culatra e a manobra que lhe permitiria sair das profundezas da impopularidade se revelou, ao contrário, mais um desastre.

 

Há algo fascinante em toda essa tolice: a persistência dos sentimentos que cercam os nômades, os roma, os ciganos. Esses eternos passantes suscitam contra eles, século após século, uma mistura de repulsa e fascínio. Há um século e meio, em 1867, o grande escritor francês Gustave Flaubert, autor de Madame Bovary e Educação Sentimental, escrevia a sua amiga, a escritora francesa George Sand, estas palavras que poderiam ser reproduzidas, quase até as vírgulas, em nosso ano de 2010, após as pantomimas de Sarkozy: "Fiquei extasiado, há oito dias, diante de um acampamento de boêmios que se estabeleceram em Rouen. É a terceira vez que os vejo. E sempre com renovado prazer. O admirável é que eles excitavam o ódio dos burgueses, embora inofensivos como carneiros. Ganhei o desprezo da multidão por lhes dar algumas moedas. E ouvi belas palavras burguesas. Esse ódio tem alguma coisa de muito profundo e muito complexo. Ele é encontrável em todas as pessoas de bem. É o ódio que se dirige ao beduíno, ao herege, ao filósofo, ao solitário, ao poeta. E existe medo nesse ódio. Eu, que sou sempre a favor das minorias, me exaspero. É verdade que muitas coisas me exasperam. No dia em que não me indignar mais, cairei de bruços como um manequim do qual se tira o suporte".

 

*Tradução de Celso M. Paciornik

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