ETs do Distrito Federal

Medo e insegurança induzem população a preferir hipóteses absurdas às plausíveis para explicar sumiço de jovens em Luziânia

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2010 | 07h20

Os caminhos que a mente humana percorre para explicar o inexplicável, mesmo nesta sociedade contemporânea supostamente dominada pela razão, são ainda muito estranhos e, ao mesmo tempo, muito reveladores do que de fato está acontecendo ao nosso redor. O caso dos adolescentes que, desde dezembro, vêm desaparecendo do mesmo bairro de Parque Estrela Dalva, no município de Luziânia, no entorno de Brasília, seis ao todo, situa-se nesse âmbito do imaginário popular. Não que os desaparecimentos não sejam reais e, portanto, não devam ser investigados com seriedade e urgência, seja em face da justa aflição dos pais, seja em face do compreensível clamor da sociedade. Pais que abatidos pela inexplicável lentidão e notória incapacidade da polícia local querem, com razão, a intervenção da Polícia Federal, uma polícia decididamente profissional.

Um site consulta seus frequentadores com esta pergunta em português extraterrestre: "O que vocês acham do caso dos seis meninos de Luziânia?" As respostas convergem para três alternativas: a primeira é a de abdução por alienígenas; a segunda, a de aliciamento para prostituição; a terceira, para trabalho escravo. Fora desse quadro há quem suspeite que se trate de rapto para extração e roubo de órgãos.

A hipótese de que os seis desaparecidos tenham sido levados por extraterrestres, de uma localidade pobre, não muito distante do alucinante e próspero Distrito Federal, em vez de constituir uma pista para investigar e resolver o caso complica-o ainda mais. Por que catar jovens lá no meio da pobreza de um mundo que é o desprovido cenário do Bolsa-Família, e não no cenário de euforia, poder e prosperidade nunca vistos neste País, que é a Praça dos Três Poderes, em que o Brasil inteiro está representado? Como é que se vai explicar que seres tão inteligentes, que conseguiram criar tecnologia para atravessar o espaço sideral, possam ter feito uma escolha de lugar incompatível com tal grau de avanço? A hipótese, portanto, não é boa.

A segunda suposição, de aliciamento para prostituição, é possível, mas não se cerca de indícios de que seja provável. Todos os desaparecidos são do sexo masculino, quando aqui as histórias recorrentes são de aliciamento de pessoas jovens do sexo feminino para tráfico internacional e prostituição em países ricos. Prostituição que pode até mesmo ser bem remunerada em países como a Espanha, em que os próprios donos de prostíbulos falam em sindicalização de suas funcionárias, com direitos trabalhistas reconhecidos. O que se dá também aqui, no caso da proposta vanguardista do governo, de reconhecimento da prostituição como profissão, em seu Plano Nacional de Direitos Humanos.

A hipótese do aliciamento para sujeição à escravidão é mais consistente do que as outras duas. No entanto, não se encaixa bem no que se sabe dos procedimentos que no Brasil os traficantes de mão de obra adotam para recrutar trabalhadores que, sem que o saibam, serão submetidos à servidão temporária por dívida em regiões cautelosamente remotas, sempre muito distantes do lugar de origem. O mais comum tem sido o aliciamento nas áreas rurais mais pobres do Nordeste para o desmatamento e a formação de fazendas na Amazônia, ou, então, para o corte de cana em São Paulo e no Rio de Janeiro. O recrutado é enganado com promessas de ganhos e confortos mirabolantes. É frequente que o recrutador deixe com a família do recrutado um adiantamento, um bônus. Seu valor multiplicado cresce com as despesas de transporte e alimentação. É o que acaba se constituindo em dívida que não há como pagar, que aumenta de acordo com a conveniência do dono do trabalhador, implicando seu confinamento, sob vigilância de pistoleiros, e até de tortura e morte em caso de fuga ou tentativa. O caso de Luziânia não parece se enquadrar nesse esquema.

O rapto de crianças para extração de órgãos para transplantes é tema frequente na internet e parece muito mais uma nova modalidade de literatura de terror do que outra coisa. Notícias mais consistentes se têm de roubo de órgãos de cadáveres em vários países. Quando há notícias de extração indevida e sem consentimento de órgãos sãos de pessoas submetidas a cirurgias relativas a órgãos enfermos. Mas a captura de pessoas vivas para extração de órgãos é algo que parece bem longe da realidade que cerca o tema. Um pronunciamento das associações médicas ajudaria a descartar as fantasias que o deturpam.

Raptos e ocultos aliciamentos de pessoas, sobretudo de adolescentes e crianças, sintetizados nessas quatro supostas motivações (abdução por alienígenas, prostituição, escravidão e roubo de órgãos humanos), independentemente do grau de eventual veracidade de cada uma, em sua esdrúxula combinação, são indícios de uma epidemia de medo. Hadley Cantril estudou o pânico gerado pela transmissão radiofônica, por Orson Welles, da novela de H. G. Wells sobre a invasão vinda de Marte. No clima de medo e insegurança que precedeu a 2ª Guerra Mundial, diante da força e dos recursos desconhecidos dos potenciais inimigos, o realismo da novela radiofônica gerou pânico em Nova York, levando a fugas, desespero e suicídios, no pavor do presumível desembarque de marcianos na cidade. Tal o medo que ninguém nem mesmo perguntou se os marcianos eram amigos ou inimigos.

O caso de Luziânia é diverso do caso analisado por Cantril, mas pertence à mesma espécie. Mais pessoas estão procurando a polícia para denunciar desaparecimentos ocorridos há tempos. Independentemente de serem reais, o que articula a diversidade das ocorrências é o mesmo medo ao que vem de fora, do espaço, de outros países ou de regiões longínquas. Essa fabulação sobre a presumível solidariedade dos próximos contra a presumível ameaça dos distantes é indício de crise e desorganização social. Por que nos arredores de Brasília, e não em outro lugar? Esse seria um bom começo para compreender e resolver, ao menos, como a questão se manifesta, o que já é um segundo e outro problema.

*Professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Entre outros livros, autor de A Sociabilidade do Homem Simples (Contexto)

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