Eu, Bandido Raça Pura

Jafar[br]Pit bull pioneiro nos exercícios do Game Dog[br]As memórias póstumas de um pit bull que só não virou homicida porque foi salvo pelo esporte

Fred Melo Paiva, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2007 | 12h28

O meu nome era Bandido Raça Pura. É isso mesmo, por quê? Tá achando ruim? Qualé que é? Tá achando agressivo? Gente preconceituosa... Nome não é a própria pessoa que escolhe, viu? Puseram esse nome em mim, conforme registro no Pit Bull Club do Rio de Janeiro: "Bandido Raça Pura, matrícula AAA-0169-RJ, nascido em 16 de junho de 1996". Particularmente eu gostava muito do Raça Pura, porque a minha linhagem só tinha mesmo cruza de campeões, nenhuma mistura de raças. E não venha você outra vez, que racismo em cachorro é virtude. Gente ignorante... E o que que tem o sujeito se chamar Bandido? Bandido não é gente? Uma pena que as filhas do meu primeiro dono, com quem tive graves problemas, quiseram me chamar de outra coisa. Eu aceitei porque sou cachorro, e cachorro tem um nome no documento e outro na vida real. Acabei virando o Jafar, aquele do Aladin. É o vilão da história, por quê? Algum problema, mermão?A família que me adquiriu primeiro era formada por pessoas estranhíssimas. Tinham uma casa na praia de Guaecá, em São Sebastião, no litoral paulista. Eu morava e trabalhava no endereço, fazendo a segurança 24 horas por dia, de segunda a segunda. No fim de semana eles apareciam. À noite, colocavam uma música alta, reuniam-se na sala e passavam a sacolejar seus esqueletos de forma bizarra. "Ma que p. é essa?", pensava comigo. A balbúrdia ia num crescendo, provocando meus instintos e invocando a experiência cruel de meus antepassados, forjados nas rinhas de cães da Inglaterra. A essa altura eu achava por bem fugir para a praia, me jogar no mar e ir entrando para o fundo. Minhas patas rompiam a água e eu achava gostoso a sua consistência. Isso me relaxava, ao mesmo tempo em que tonificava os meus músculos de quase atleta. Era capaz de ficar ali por duas horas seguidas. Infelizmente não posso dizer o que se passava pela minha cabeça - numa lista das cem raças mais inteligentes do mundo, bem... eu não consto dessa lista. Em pouco tempo a música alta e o sacolejar dos esqueletos começaram a consumir nervosamente as minhas entranhas. Passei a rosnar grotesca e indistintamente, tanto para convidados como gente de casa, adultos, idosos, crianças e mulheres. Qualé desse povo estranho? Os bêbados, então, tornaram-se alvos prediletos, incluindo meu próprio dono. Chegavam sempre no final da tarde, vindos da praia. Eu não podia mais admitir o ingresso dessa cambada na minha própria residência e local de trabalho. Diante do portão, eu os repelia com veemência. Se tivessem insistido, infelizmente teria sido obrigado a ir às veias de fato, que são as do pescoço. Mas tal providência não se fez necessária, porque fui imediatamente vendido para Rogério Conte por US$ 2.500. Na época, um filhote do american pit bull terrier valia US$ 1 mil. Eu tinha 1 ano e meio. Mas, ao contrário do pit bull corpulento, construído para as exposições da raça, eu era um cão esguio e ao mesmo tempo muito forte. O Rogério dizia que os outros eram Schwarzenegger - e eu, o Bruce Lee. Rogério sabia o que estava falando. Tinha lutado judô, karatê, boxe, jiu jitsu. Gostava especialmente do último porque, segundo ele, o jiu jitsu é uma arte suave em que você trabalha bastante a cognitividade entre o cérebro esquerdo e o direito. Na minha visão de cachorro, o Rogério era praticamente um pit bull, e isso me transmitia uma enorme confiança. Morávamos num apartamento em São Paulo. Mas todos os fins de semana descíamos para surfar no Guarujá. O Rogério remava em sua prancha até o outside. Eu ia junto. Ele saía, eu ficava. A natação era para mim um comprimido de Prozac: me acalmava completamente, eliminando até mesmo o ímpeto que tinha de me atracar com outros cachorros e por fim assassiná-los, o que vem a ser um dos nossos esportes preferidos. O Rogério percebeu o poder que o exercício físico tinha sobre a minha psiquê de serial killer. E passou a desenvolver comigo novas atividades, que acabariam por me transformar em um superatleta. Nada disso teria sido possível, no entanto, se ele não tivesse me apresentado aquele que viria a ser o meu melhor amigo, talvez até por uma compatibilidade de QIs - um pneu. A primeira das novas modalidades a que me dediquei foi o skate. O Rogério subia no carrinho, me pegava pela guia e alguém saía correndo na nossa frente segurando o meu pneu. Eu não pensava em mais nada: precisava recuperá-lo a qualquer custo. Assim era capaz de arrastar o Rogério a uma boa velocidade. Fazíamos a mesma coisa usando uma bicicleta. Depois um carro, e finalmente uma caminhonete. Com o tempo, condicionado ao exercício, não precisava mais do pneu - corria atrás dele do mesmo jeito. Se o pendurassem a 3 metros de altura, eu podia alcançá-lo em um pulo. Se o deixassem na copa da árvore, eu escalava a árvore. Se jogassem o meu pneu no fundo da piscina, eu mergulhava. Podia suportar até 2 metros de profundidade e 40 segundos sem respirar. Algumas pessoas dizem que pit bulls gostam mais de seus pneus do que de seus donos. Era esse o meu caso.O Rogério era um cara estudado. Tinha feito administração de empresas e trabalhava como operador da Bolsa de Mercadorias e Futuros de São Paulo, que ele achava parecido com um campeonato de Vale Tudo. Hoje ele tem 37 anos. Mas quando saiu da Bolsa tinha 28 e estava cheio da grana. O Rogério pôs o dinheiro todo numa empresa de transporte de cargas. E perdeu tudo. Ficou zerado. Diante da adversidade da vida, ele teve a idéia de partir para outra, ficando na mesma - e decidiu então profissionalizar as minhas atividades esportivas. Estabeleceu regras, criou novas modalidades, batizou as demais: Cabo de Guerra, Jump the Wall (pule o muro), Skate Individual ou em Dupla, Kick the Tree (espécie de salto impulsionado por escalada em árvore), Kick the Wall (idem, porém utilizando uma parede), Jump (salto em altura) e Delivery (corrida de revezamento cujo bastão, abocanhado por um pit bull, é erguido por duas pessoas, que correm 50 metros com o cachorro pendurado pela boca). A esse conjunto de provas o Rogério deu o nome de Game Dog. Tem feito eventos e aglutinado seguidores. Uma imbatível seqüência de Jump the Wall causou grande impacto aos milhões de espectadores que nos assistiram no Se Vira nos 30. O Game Dog é baseado na moral cristã, na família, no trabalho e no amor condicional. Foi o Rogério que disse isso. Da minha parte, eu só queria o meu pneu. Mas ele criou toda uma filosofia, citando inclusive Pitágoras - na verdade Pit Tágoras - e estabelecendo uma relação entre ele e os pit bulls que eu não me arrisco a reproduzir, tamanha a sua complexidade. Segundo o Rogério, o Game Dog busca o aperfeiçoamento constante dos recursos cinófilos disponíveis, visando ao justo e ao correto, em detrimento de atitudes negativas, com o objetivo de fazer presente o esporte, a atividade saudável e, acima de tudo, o respeito à vida humana e principalmente ao atleta canino. Socorro! Eu quero o meu pneu!Nos raros momentos em que estive afastado do pneu, era porque estava dando uma bimbada. Primeiro na Ruska, depois na Miss Game, também numa cadela mexicana, numa outra de Bauru, em duas Red Boy Jocko, e finalmente numa da linhagem dos Garners. Quando não rolava uma bimbada, e nem o pneu, então eu dormia ou me alimentava. Carne mal passada, retalho de filé mignon sem gordura, cenoura, beterraba, batata doce, gengibre, mel, hortelã. O Rogério gosta de cozinhar, mas apenas para os seus cachorros. Depois do treino, quando voltávamos para casa, ele me passava no dorso um pano umedecido na água quente. Em dezembro do ano passado, depois de um longo passeio, eu me acomodei no canto da sala para uma pestana merecida. Acordei morto. Tinha 11 anos de idade e é provável que o meu coração tenha finalmente ido para o saco. O Rogério verificou o ocorrido e se emocionou. Depois levou o meu cadáver para o Pet Memorial, um crematório de cachorro. Nunca mais voltou lá, porque cachorro não tem esse negócio de pegar as cinzas. Eu vim aqui dar esse testemunho porque tem gente querendo acabar com a nossa raça. Gente preconceituosa... Primeiro proibiram o pessoal de sair na rua sem focinheira. Eu saía sem. Eu sou um exemplo morto de que o pit bull tem jeito. Quando a Guarda Municipal abordava o Rogério, ele jogava sempre a mesma conversa: pit bull? Não, não, está sem focinheira porque é dogo argentino com bulldog. Sempre funcionava. Mas agora estão querendo castrar os irmãozinhos... Que que isso, rapá? Que violência é essa? Pra que isso? Já tá todo o mundo de focinheira, mermão... Não vai chutar cachorro morto... TERÇA, 11 DE SETEMBROMicrochips e castraçõesPrefeitura de Belo Horizonte inicia trabalho de implante de microchips em pit bulls, com o objetivo de evitar o crescente abandono dos cães nas ruas da capital. Em Campinas, vereadores aprovaram, em primeira votação, projeto de lei determinando a castração da raça. LINHAGEMEra esguio e forte.Os outros pit bulls eram do tipo Schwarzenegger. E eu, o Bruce Lee JIU JITSUArte que trabalha a cognitividade entre o cérebro direito e o esquerdoINSTINTOTinha o ímpeto de me atracar com outros cachorros e por fim assassiná-los

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