Eu quase vi o Salinger

Ignácio de Loyola Brandão esteve perto da casa do ermitão. Por que não virou o carro e foi até lá?

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2010 | 01h00

Neste minuto em que leio sobre a morte de J. D. Salinger me veio uma viagem aos Estados Unidos no final de setembro, início de outubro do ano 2000, com minha mulher, Márcia, e meus primos Zezé Brandão e Marilda. Fizemos uma viagem de carro através da Nova Inglaterra: Boston, Salem, Exeter, Woodstock, Wilmington, Rutland, Hannover, Manchester, Marlboro. Roteiro das folhas vermelhas do outono, dizíamos. Escrevi um diário de viagem que jamais publiquei e traz muitos referenciais a encontros e desencontros com Melville, Fellini, Mark Twain e outros autores que me acompanharam pela vida. Este é um segmento desse livro, escrito em 2001 e jamais publicado. Também não sei se vou, ou devo, publicar.

"Meses depois de termos voltado da Nova Inglaterra, assisti pela GNT a um documentário sobre J. D. Salinger (O Apanhador no Campo de Centeio), que me deixou irritado. Porque vi o que perdi. Há 40 anos Salinger se eclipsou. Ele não deu entrevistas, não justificou seu gesto, não publicou mais nada, apenas manteve correspondência com algumas pessoas. Uma dessas correspondentes, Joyce Maynard, acabou se casando com ele. Ela veio ao Brasil para o lançamento de Abandonada no Campo de Centeio, suas ressentidas memórias sobre os tempos em que viveu com Salinger. Entre outras "revelações", contou que o nome do personagem Holden Caulfield surgiu no dia em que Salinger viu um cartaz anunciando um filme com William Holden e Joan Caulfield. Juntou os sobrenomes. Preciso fazer uma pesquisa para descobrir que filme foi esse, uma vez que Joyce não diz. No Brasil, Dalton Trevisan, depois Rubem Fonseca e Raduan Nassar também saíram de cena, há alguns anos. Sumiram da mídia - e ganharam mais mídia.

Há décadas todos esperam um novo livro de Salinger e ninguém sabe se ele escreveu. Joyce Maynard garante que ele mantém originais fechados em um cofre, cujo segredo somente ele sabe. E se ele morre, quem abre? Contratam um arrombador? O escritor não permite que se façam citações de sua obras em ensaios críticos ou documentários para cinema ou televisão. Muitas pessoas têm procurado sua casa em Cornish, onde mora. Chegar à cidade é fácil, encontrar Salinger é problema. Ele tem a solidariedade de parte dos habitantes, que se mostram hostis aos curiosos (há também a famosa privacidade americana) e não respondem às indagações. Afinal, com isso, Cornish permanece no noticiário. No entanto, mesmo os que descobrem o caminho dão com uma casa impenetrável.

Ao assistir ao documentário pela televisão fiquei frustrado. A paisagem mostrada no filme era familiar. Casas de tábuas brancas superpostas, varandinhas, venezianas presas, árvores de folhas amarelas e vermelhas. A certa altura, o narrador diz que de sua casa Salinger contempla as montanhas de Vermont. Em seguida, A. E. Hotchner, especialista em biografias (fez uma de Hemingway, que até hoje não sei se é realmente boa ou se é muito mais para mostrar Hotchner como o amigo; há gente que gosta de ser o íntimo da celebridade), afirmou que provavelmente Salinger, refugiado em New Hampshire, está sofrendo um bloqueio interminável. Uma parada criativa que já dura 30 anos?

No caso de bloqueios, o meu referencial ainda (e eterno) é Guido, o diretor de cinema em 8 ½. Um criador, com imaginação e ação paralisadas, tenta reencontrar o caminho que o levará a produzir outra vez, misturando memória, fantasia, realidade, delírios, desejos, sonhos, idealizações; sempre perseguido por um crítico/intelectual que coloca em cheque tudo que ele pensa. Muitas vezes vi esse personagem crítico como a castração acadêmica que impõe regras, formas de pensar e analisar, ideologias e filosofias. Nunca li uma crítica sobre 8 ½ que abordasse esse aspecto. Fellini satirizando o academicismo, denunciando-o. Às vezes, penso que passo pelo mesmo processo e vou desviando, fazendo outras coisas, crônicas, livros patrocinados, anotações sem fim, contos fantásticos. E o Brasil de hoje está a pedir a volta do realismo.

Salinger escreveu três livros, um excepcional. Exigir o que mais? Afinal, Juan Rulfo, um dos maiores nomes da literatura latino-americana, publicou somente dois romances. Rimbaud e Radiguet escreveram um livro cada um. Lembrei-me igualmente de um ensaio de Budd Schulberg publicado no Brasil entre os anos 60 e 70, As Quatro Estações do Sucesso, em que ele analisa William Saroyan, Sinclair Lewis, Scott Fitzgerald, Nathanael West, John Steinbeck e Thomas Heggen. Esse Heggen escreveu um dos maiores sucessos literários dos anos 40, Mister Roberts, um arrasa-quarteirão, o mais vendido entre os livros mais vendidos, milhões de exemplares, transformado em peça na Broadway com direção de Joshua Logan e depois em filme em Hollywood.

Heggen, sucesso antes dos 30 anos, nunca mais escreveu uma página. Foi cobrado, sentiu-se cobrado, cobrou dele mesmo. Uma pressão monstruosa da imprensa, do público, dos acadêmicos. E nada. A maldição da página em branco existe para muitos. Heggen foi encontrado morto em sua banheira, jovem demais. Nunca se determinou se foi suicídio. Pode ter sido angústia. Salinger não escreveu, mas fugiu da vida e da morte. No entanto, a vida não tem modelos, cada um vive a sua como quer. É preciso ser forte para recusar o rolo compressor que passa sobre nós. As exigências sobre a forma de escrever, a necessidade de vender, de ser figura pública, estar na mídia, montar uma imagem, tornar-se personagem pré-fabricado não de acordo com o que temos no íntimo, com nossos sonhos e desejos, nossas compulsões e vontades, tornam-se uma jaula/prisão que o público e a mídia e a crítica impõem. Não bastassem as grades que a violência coloca nas portas e janelas de nossas casas.

Salinger tem hoje 81 anos. O documentário conseguiu, subrepticiamente, uma imagem dele andando por Cornish. Alto, magro, cabelos brancos, rosto esquelético. Tem o jeito daqueles ermitões do deserto, consagrados pelos santinhos e pelas imagens de livros cristãos. A página branca o persegue? E se essa não é uma preocupação, nem uma opressão? Os outros é que fazem disso uma tragédia. Ele escreveu o que tinha a escrever, cumpriu "sua missão". Decidi reler O Apanhador e Frany e Zooey.

Então, comprei o número de fevereiro de 2001 da revista Lire, número 292. Na página 39, uma surpresa. O título: Salinger, Trahi par Sa Fille. Margaret Salinger acaba de publicar nos Estados Unidos Dream Catcher (jogo de palavras com o título O Apanhador em Campo de Centeio. Em inglês é The Catcher in the Rye), que alinhava uma série de memórias destruidoras para seu pai. Tanto que Mathew, irmão de Margaret, ficou indignado com tanto ódio alimentado.

Margaret mostra o pai (diz a revista) como um "homem irascível, tirânico e egocêntrico, cuja única preocupação é a realização de uma obra que o absorve inteiramente e o distancia das realidades". No fundo, não é essa a atitude que deveríamos ter todos nós que escrevemos? Mergulharmos no que é o nosso universo, nossa necessidade, alma, alimento, no que realmente nos dá prazer? A escritura. Tudo o mais nos dispersa, nos afasta, cancela a concentração, consome o tempo.

No entanto, há uma boa informação em Dream Catcher. Salinger jamais deixou de escrever, mas tudo será publicado postumamente.

Mais do que a suposição de Hotchner, foi a citação de New Hampshire que me explodiu na cabeça. Apanhei o mapa da Nova Inglaterra. Fácil descobrir Cornish. E me odiei. A cidade fica a cinco minutos de Woodstock, onde passamos dias e dias. Se eu tivesse ido a Cornish - e estava ao lado - certamente não ia ver Salinger, mas circularia pela cidade onde mora, procuraria sua casa murada, passaria pela paisagem, entraria na sua atmosfera. Quem sabe desse sorte? Não encontro sempre Dalton Trevisan em Curitiba? Certa tarde não nos falamos no lobby de um hotel? Eu faria uma viagem com Fernando Sabino pelo interior e Trevisan foi visitar Sabino, este o segurou até eu chegar, a conversa continuou. Essas coisas também me satisfazem, uma vez que fazem parte do escritor. Li o livro de Joyce Maynard e ela se refere tanto a Cornish. Faço tantas anotações, faltou essa. Fiquei em Woodstock procurando erroneamente o lugar do festival de rock. O famoso festival foi em Woodstock , New York, não Nova Inglaterra. Deveria ter procurado Cornish. Víamos na estrada a indicação e brincávamos: terra dos cornos, terra do milho. Não me conformei.

O livro de Budd Schulberg trazia outras informações preciosas, ainda que um pouco tardias. Foi em 1935 que ele procurou Sinclair Lewis, o Prêmio Nobel de 1930, autor de Babitt, Elmer Gantry (base do filme Entre Deus e o Pecado, libelo contra o monetarismo de seitas religiosas, tão próximas de nós com Edir Macedo e a Universal), Rua Principal, Dodsworth. Fui pego no fígado. Lewis estava morando a poucos quilômetros de Woodstock . Schulberg atravessou o White River para chegar lá, um rio que cruzávamos para lá e para cá a toda hora. O escritor morava em uma "casa branca de madeira, protegida por árvores". Casa "gostosa e acolhedora, solitária e vazia. Havia uma sala de estar comprida e maravilhosa, com as paredes cobertas de livros, que dava para um terraço, aparentemente sem fim...". Eles conversaram sobre vários assuntos, um deles a greve de operários marmoristas nas vizinhanças de Rutland, um antigo entroncamento ferroviário em decadência. Estivemos lá uma tarde, não havia uma única pessoa nas ruas. A greve e sua repressão revelaram a estrutura feudal e o comportamento fascista das comunidades de Hannover, Proctor e Rutland e das famílias que eram "donas" do pedaço.

Para muitos, Sinclair Lewis terminou aos 43 anos, quando publicou Dodsworth. Tudo o que produziu depois foi ruim. Os mais chegados sentiram que ele tinha se "desintegrado, destruído pela fama e se autodestruído pelo amargo reconhecimento do fracasso prematuro de sua genialidade". Ao receber o Prêmio Nobel, comentara com um amigo: "Isso é fatal! Não posso viver à altura disso". Eu bem gostaria de ter visto onde morou Sinclair Lewis. Afinal, Rua Principal é um romance que adoro e Babitt o livro que eu gostaria de ter escrito. Quem sabe a casa onde ele morou seja museu, a memória histórica é importante para os americanos. Devo reler todo Scott, Schulberg, Sinclair Lewis (há pouco comprei Rua Principal). Terei outros olhos.

Salinger e Sinclair Lewis. De repente, estive ao lado de algo que sonhei ver, que bate dentro de mim, mas me faltaram referenciais, informações. Li, mas esqueci. Viagens devem ser soltas, vividas ao sabor de descobertas momentâneas. Mas custava ao menos uma breve programação? Ainda mais para alguém como eu que, depois de ter tido formação humanista francesa no ginásio, recebeu, a partir dos anos 50, o impacto da literatura e do cinema americanos? Cornish. Bastaria, lembro-me bem, ter virado o carro para a esquerda e seguido alguns poucos quilômetros. E se desse sorte? E se naquele dia J. D. Salinger saísse um minuto à porta para ver se estava sol ou chovia?"

Trecho do livro inédito As Folhas Vermelhas da Nova Inglaterra no Outono de 2000

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