REUTERS/Issei Kato
REUTERS/Issei Kato

Europa contra os negócios

O debate simplista do estímulo versus austeridade oculta problemas estruturais menores que, somados, afetam região

Steven Rattner, O Estado de S. Paulo

31 Janeiro 2015 | 16h00

 

Com grande frequência o debate a respeito de como reiniciar a economia da Europa aponta para as convenientes alternativas do estímulo versus austeridade. Devemos relaxar a pressão para reduzir os déficits dos governos? As medidas dos bancos centrais para reduzir os juros deveriam ter chegado antes, de forma mais agressiva?

Esse debate simplista voltou ao primeiro plano com o mergulho do Banco Central Europeu na compra da dívida soberana dos seus países-membros e o expressivo voto dos gregos nas urnas contra os cortes de gastos. Mas o foco na política macroeconômica não dá o devido valor à importância fundamental de problemas estruturais menores que, somados, representam um desafio maior para a Europa.

Restrições arcaicas para a contratação e demissão de trabalhadores, políticas energéticas equivocadas e camadas de burocracia que dificultam a abertura de empresas - para mencionar apenas alguns - se combinam para prejudicar a capacidade do continente de concorrer em mercados cada vez mais globais.

Entre os principais países, França e Itália são os que mais sofrem desse mal, com os salários aumentando mesmo com a eficiência dos trabalhadores estagnada. 

Na França, o presidente François Hollande foi eleito para o cargo em 2012 em meio a uma onda esquerdista, respondendo com políticas que foram da redução para 60 anos da idade mínima para aposentadoria ao aumento dos impostos corporativos e sobre o valor agregado. As políticas dele chegaram até a levar os executivos franceses às ruas gritando “já basta” em megafones - uma expressão de sua frustração com as camadas de regulamentações, como um novo requisito para que todos os empregos em meio período correspondam a uma jornada de pelo menos 24 horas semanais. Impopular e sob pressão da União Europeia, Hollande procurou modestamente se aproximar do centro. Enquanto isso, o jovem novo primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, chegou ao cargo determinado a reverter três anos de recessão reformando pontos como a rígida legislação trabalhista e a lentidão do sistema judiciário.

Depois de meses batalhando, ele conseguiu algum progresso recente numa proposta de reforma bancária e a aprovação inicial de sua ata dos empregos. Isso resultou em manifestações e greves pelo país por parte dos trabalhadores com medo de que ele conseguisse desmantelar as 2.700 páginas de regulações para o mercado de trabalho italiano, que na prática institucionalizaram a ineficiência ao dificultar muito a demissão de funcionários.

Até a Alemanha, geralmente razoável, adotou desvios consideráveis em sua política energética. Depois do desastre nuclear de Fukushima, no Japão, em 2011, a Alemanha, que obtinha um quarto de sua energia a partir de usinas nucleares de baixo custo, começou a desativar seus reatores. Isso ocorreu após a adoção do requisito para que os serviços públicos comprassem volumes específicos de energia limpa a preços muito mais altos do que a eletricidade gerada por fontes convencionais.

Um dos resultados é o enfraquecimento da competitividade do elogiado setor industrial da Alemanha e comentários de empresários dizendo que novas instalações com alto consumo de energia podem ser construídas em países mais hospitaleiros. 

No lado positivo, a Espanha, embora ainda afetada por um desemprego de 23,7%, conseguiu implementar reformas na legislação fiscal e trabalhista, ajudando o país a voltar a gerar empregos em meio ao crescimento econômico retomado.

Com todos os problemas enfrentados pela Europa, a recente decisão do Banco Central Europeu de comprar títulos corresponde a procurar um remédio no armário quando o paciente precisa de cirurgia cardíaca.

Para começar, o problema da Europa está longe de serem os juros altos. A França pode obter empréstimos a juros de 0,6% durante dez anos, e até Espanha e a endividada Itália podem contrair empréstimos a juros de aproximadamente 1,5%. E, apesar dos robustos programas de financiamento do Banco Central Europeu, a demanda local por parte do setor privado continua fraca. Desde 2008, o investimento teve queda de 15%.

Muitas explicações são oferecidas para as dificuldades na zona do euro. Alguns dizem que é uma falta de imigração. É claro que os Estados Unidos foram muito beneficiados pela diversidade e produtividade dos recém-chegados. Mas, com desemprego de 11,5%, não parece que a zona do euro precise de mais trabalhadores. Desigualdade de renda? Diferentemente dos Estados Unidos, onde a desigualdade aumentou muito, na Europa a lacuna entre ricos e pobres aumentou pouco, embora seja grande.

É claro que, no contexto apropriado, mais gastos públicos e investimentos e louváveis esforços para evitar a deflação, como os do Banco Central Europeu, seriam recomendáveis. Mas, nas circunstâncias atuais, passos como esses trazem o risco de desviar o continente ainda mais da necessidade de enfrentar os desafios mais sérios.

A Europa precisa se tornar mais competitiva nos mercados globais. Isso só pode ser alcançado com uma variedade de mudanças nas políticas, como manter o patamar máximo dos impostos em níveis razoáveis e reformas regulatórias que dariam às empresas mais liberdade para administrar seus assuntos como acharem melhor, incluindo, quando necessário, o fechamento de instalações e a redução da folha de pagamento. Esse é o único rumo viável para o crescimento sustentável e, consequentemente, para mais empregos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 


STEVEN RATTNER, ESPECIALISTA EM FINANÇAS DE WALL STREET, ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA O JORNAL THE NEW YORK TIMES 

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