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Evan S. Connell e Robert Aickman não são muito conhecidos, mas suas obras merecem atenção

Clássicos norte-americanos, Connell foi comparado a Nabokov e Aickman a Kafka

Michael Dirda, Washington Post

09 de abril de 2022 | 16h00

Um romance, de acordo com o poeta e crítico Randall Jarrell, é “uma narrativa em prosa de certa extensão que tem algo de errado”. Quem poderia questionar essa definição? Ainda assim, Mrs. Bridge, de Evan S. Connell (1959), de alguma maneira a renega: é quase perfeito. Qualquer pessoa familiarizada com este retrato pontilhista de uma mulher convencional de classe média na Kansas City dos anos 1930 e 1940 saberá o que quero dizer. Nas cenas da vida da Sra. Bridge e sua família, Connell mistura empatia, humor e emoção com os detalhes de época. Como, por exemplo, você poderia descrever com delicadeza as reações da nova esposa ao desejo sexual de seu jovem marido? Connell escreve: “Por um tempo depois do casamento, ela foi tão requisitada que não era desagradável quando ele adormecia”. Uma frase maravilhosa, mas Connell vai além: “Agora, porém, ele começara a dormir a noite toda, e então ela passou a acordar com mais frequência, olhando para a escuridão e se indagando sobre a natureza dos homens”.

Como Steve Paul – ex-editor de livros do Kansas City Star – nos lembra em seu soberbo Literary Alchemist: The Writing Life of Evan S. Connell, o versátil Connell sempre superou as expectativas. Apenas alguns anos depois de retratar a gentil Sra. Bridge, ele lançou The Diary of a Rapist (1966), que arrepiantemente leva o leitor ao mundo patético e à psicologia distorcida de um monstro. É um livro incrível. Paul o compara a Lolita, de Vladimir Nabokov, tanto em seu tema perturbador quanto em seu brilhantismo artístico.

Evan Connell (1924-2013) cresceu em uma família muito parecida com a do Sr. e da Sra. Bridge. Tinha uma beleza de estrela de cinema e estava sempre de jaqueta esportiva. Nunca se casou e sempre levou uma vida simples e até ascética (um terno, dois pares de sapatos). Introspectivo, avesso à vida pública e incapaz de participar das conversas nos jantares, gostava de beber em bares, jogar xadrez, estudar antiguidades pré-colombianas e passar tempo com mulheres. Sua namorada mais séria, Gale Garnett, ganhou um Grammy por seu hino ao romance efêmero, We'll Sing in the Sunshine.

Embora vivesse na região de São Francisco, Connell viajou muito não apenas na realidade – alguns anos em Paris, viagens ao México, Oriente Próximo e Ásia – mas também em seus livros. Seu verdadeiro best-seller, Son of the Morning Star, é uma meditação digressiva e rica em fatos sobre o general George Armstrong Custer e as forças da história americana que levaram ao massacre de Little Bighorn. No entanto, Connell também produziu contos fantásticos, montagens poéticas em forma de mosaico (“Notes From a Bottle Found on the Beach at Carmel”), romances sobre alquimistas e cruzados, uma série de ensaios explorando os caminhos românticos da história (recolhidos em The Aztec Treasure House) e até uma breve biografia bastante idiossincrática do pintor Francisco Goya.

Ao acompanhar a carreira de Connell, Literary Alchemist documenta tangencialmente sua associação com a revista literária californiana Contact e várias lendas editoriais (George Plimpton, Robert Gottlieb, Jack Shoemaker), dedica algumas páginas fascinantes a como o júri – que contou com Connell e foi dirigido pelo ex-crítico do Post Jonathan Yardley – escolheu o National Book Award de 1973 em ficção e apresenta com muitos detalhes o roteiro e a produção do filme ‘Mr. and Mrs. Bridge’ e da adaptação para a TV de Son of the Morning Star.

Como Paul enfatiza, Connell muitas vezes foi soterrado por esse elogio de dois gumes: ser um “escritor de escritores”. Algo semelhante poderia ser dito sobre Robert Aickman (1914-1981), cujos “contos estranhos” são elegantemente escritos, mais ou menos surreais e – dependendo do ponto de vista – frustrantemente inconclusivos ou assustadoramente abertos. Às vezes assumindo a forma de “histórias de fantasmas”, esses contos podem ser mais bem caracterizados como pesadelos kafkianos, geralmente com algum toque sexual. No final de The Hospice, The Trains ou Bind Your Hair, o leitor fica nervoso e se perguntando: o que aconteceu aqui?

Ninguém sabe mais sobre esse autor de contos alucinatórios e lindamente compostos do que R.B. Russell. Robert Aickman: An Attempted Biography – o subtítulo ecoa o livro de memórias de Aickman, The Attempted Rescue – revela um homem a um só tempo charmoso e ferozmente teimoso que parece ter dividido todas as pessoas que conheceu.

Aickman cresceu em circunstâncias privilegiadas – seu pai trabalhava como arquiteto e um dos avós, Richard Marsh, escreveu o transgressor thriller vitoriano The Beetle – e sua própria visão do mundo pode ser resumida como conservadora e elitista: “Acredito que magnificência, elegância e charme são as coisas que mais importam na vida cotidiana”. Aickman considerava nossa sociedade dominada por máquinas uma abominação, produto de uma barganha mefistofélica na qual a civilização ocidental vendera a alma em troca de poder tecnológico. Não é de surpreender, portanto, que ele tenha encontrado consolo no teatro, na ópera, nos livros e na companhia feminina (mais notavelmente a escritora Elizabeth Jane Howard). Por causa de suas convicções rígidas e personalidade espinhosa, bem como de sua prosa polida, Aickman muitas vezes lembra de Evelyn Waugh, embora sem o catolicismo. Ele acreditava no paranormal e na existência de “um mundo em outro lugar”.

Ao que tudo indica, a conversa cintilante de Aickman – Oscar Wilde foi um de seus heróis – conseguia transformar um passeio no fim de semana, fosse a pé, de carro ou de barco, em algo mágico. Como cofundador da Inland Waterways Association, ele gastou grandes quantidades de tempo e energia em sua campanha para a restauração dos canais da Inglaterra. (Russell relata essas atividades em detalhes que talvez sejam excessivos para os leitores americanos). Só quando estava se aproximando dos quarenta anos ele começou a escrever as 48 histórias perturbadoras que o colocam na companhia de Arthur Machen, Henry James, Algernon Blackwood e Walter de la Mare. Nos anos mais recentes, R.B. Russell e Tartarus Press produziram um filme no YouTube sobre o escritor, uma edição em vários volumes de suas obras completas e agora esta biografia ansiosamente aguardada.

Leitores que não conhecem Aickman podem muito bem começar com o livro de bolso da editora Faber, Dark Entries, ou o esgotado Painted Devils, ambos com seu famoso conto “Ringing the Changes”. Ainda assim, quase todos os seus “contos de amor e morte”, como ele intitulou uma coleção, permanecem na memória como poesia, lembrando a observação de Sacheverell Sitwell: “No fim, o que fica é o mistério e não a explicação”. Mas, na verdade, Aickman sempre aprofunda o mistério evitando qualquer explicação.

Literary Alchemist: The Writing Life of Evan S. Connell

Steve Paul

University of Missouri - 412 páginas - US $45


Robert Aickman: An Attempted Biography

R.B. Russell.

Tartarus Press - 245 páginas - US $ 45

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Michael Dirda resenha livros para o Washington Post toda semana. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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