Evitamania

A imagem da mulher do presidente Juan Domingo Perón está mais viva do que nunca

ARIEL PALACIOS, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2012 | 03h10

BUENOS AIRES - "Evidentemente, a vida de Evita acaba de começar." Com essas palavras irônicas, a escritora mexicana Alma Guillermoprieto definiu há alguns anos o revival da imagem de Eva Duarte de Perón, popularmente chamada de "Evita". Também designada de "A porta-estandarte dos humildes", a "Mãe dos Pobres" e "Protetora dos trabalhadores", a mulher do presidente e general Juan Domingo Perón transformou-se desde sua morte, há exatos 60 anos, em um mito político que foi usado pela direita e a esquerda peronistas. Assim como nos anos 90 a realização do filme Evita, de Alan Parker - protagonizado pela cantora Madonna e baseado no musical da Broadway -, gerou um boom "evitista" em todo o planeta, a chegada da presidente Cristina Kirchner ao poder, em 2007, fez o mesmo na Argentina.

Nos últimos cinco anos Evita consolidou-se como ícone pop ao decorar com sua efígie canecas de café, chaveiros, camisetas, posteres, adesivos e bonecas de pano. No ano passado a "Mãe espiritual da pátria" - como preferia chamá-la oficialmente o governo de Perón nos anos após sua morte - transformou-se em desenho animado, com o lançamento "Eva da Argentina". E também protagoniza um videogame junto com seu marido Juan Domingo Perón, enquanto combate e aniquilam "oligarcas". A própria marcha "Los muchachos peronistas", sacrossanto hino partidário do peronismo, hoje pode ser vista no YouTube em ritmo de rap e heavy metal.

De quebra, Evita - que era abstêmia - virou marca de cerveja. Uma cerveja loira, comme il faut, seguindo o estilo da platinada tingida que foi a primeira-dama mais famosa da História da Argentina. E os argentinos podem adquirir todos esses produtos usando notas de 100 pesos com a efígie de Eva Perón, lançadas oficialmente na quinta-feira por Cristina, na Casa Rosada.

Há Evitas para todos os gostos e padrões de consumo. Da elegante frequentadora de galas do Teatro Colón - com vestidos levados exclusivamente em avião desde Paris, feitos por Christian Dior, que dizia que Evita havia sido "a única verdadeira rainha que havia vestido" -, à Evita de discursos incendiários na sacada da Casa Rosada, adorada pela esquerda peronista, inclusive pela guerrilha montonera. "Neste mundo virtual, o fato de que o peronismo ocupe todos os espaços disponíveis, inclusive na web, em coisas como um videogame, é uma ponta de lança a mais na batalha cultural", afirmou ao Aliás o historiador peronista Pablo Adrián Vázquez, diretor do Arquivo do Museu Evita.

A imagem de Evita tem sido "desconstruída" por artistas peronistas ou filo-peronistas. Um deles é a artista plástica Marina Olmi, que mostrou Evita remando em um dia de sol ao lado de Cristina Kirchner ou vestida como uma sexy vizinha. O cartunista Rep exibiu no Museu Evita uma caricatura dela nua, disposta ao sexo. A revista satírica Barcelona publicou um número especial sobre os 60 anos des sua morte com uma fotomontagem na qual a "Protetora dos Trabalhadores" aparece caracterizada como a personagem Mulher Maravilha. Nas páginas internas, a revista ousa algo inimaginável há poucos anos ao propor uma enquete com a pergunta: "Evita era gostosona?"

"No marco dos séculos 20 e 21, da comunicação de massa, todo elemento ou personagem que adquire fama pode ser um ícone pop. O peronismo é antropofágico e devorou, digeriu e ressignificou uma série de elementos. Por isso, hoje é possível que uma canção de um musical transformado em filme que conta de forma errada a vida de Evita, seja utilizada pelos peronistas a seu favor. É o caso de Não chores por mim Argentina. Mas isso é possível porque a ortodoxia peronista é laxa nas novas gerações. E porque o peronismo é muito adaptável às épocas. Ideologias de esquerda na Argentina teriam dificuldade para exibir um bonequinho, um chaveiro ou um videogame do Che Guevara. Nós, peronistas, não", afirma Vázquez.

Evita está presente na própria geografia argentina. O traçado urbanístico de Ciudad Evita - um distrito do município de Ezeiza, na Grande Buenos Aires - constitui-se em verdadeira "ego-cartografia": vista de cima, a área, criada como um bairro modelo operário, é uma reprodução proposital do perfil de Eva Perón, incluindo seu tradicional coque. Casos semelhantes foram transitórios, como o da província de La Pampa, cujos deputados, nas últimas semanas de vida de Evita, em 1952, decidiram homenageá-la com a modificação do nome para "província Eva Perón". Na mesma época, a capital da província de Buenos Aires, La Plata, transformou-se em "Ciudad Eva Perón" - após a queda de Perón, em 1955, voltou a ser La Plata. As denominações referentes a Evita também foram suspensas pelo golpe militar que derrubou o viúvo Perón em 1955.

Evita também salta aos olhos de portenhos e turistas que visitam a cidade em dois megamurais de ferro de seis andares de altura afixados nas paredes do ministério da Ação Social, em plena avenida 9 de Julio, no centro da capital argentina. Esta obra foi criticada pela oposição por ter um "look stalinista". Inaugurada ano passado por Cristina, os imensos retratos de Evita tornam quase impossível fazer uma foto da principal avenida da cidade, onde está o Obelisco, sem imortalizar junto a imagem da "Porta-estandarte dos humildes".

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