Ex-eterno constrangimento

Se as denúncias de corrupção contra Teixeira sempre aborreceram Dilma, a entrevista na qual ele disse que 'em 2014 eu posso fazer a maldade que quiser' a deixou especialmente furiosa

BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

18 de março de 2012 | 03h09

FLÁVIA TAVARES

No centro do palco, em Johannesburgo, o então presidente da República, Lula, dá as mãos ao então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e ao ainda presidente da Fifa, Joseph Blatter. Flashes e cliques internacionais. A foto, tirada em 8 de julho de 2010, marcava a apresentação do logotipo da Copa de 2014 no Brasil. Os três sorridentes, fraternos. Um ano e 22 dias depois, a presidente da República, Dilma, estrategicamente, posta Pelé, embaixador do evento, entre sua cadeira e a de Teixeira, na Marina da Glória, no Rio, durante o sorteio das cidades-sede da Copa. E tasca no cartola um protocolar "senhor" em seu discurso, em oposição ao meigo "querido" que selecionou para se referir ao craque brasileiro. O constrangimento de Dilma em ter de se relacionar com o ex-eterno chefe do futebol nacional já era evidente e foi registrado em fotos que se tornaram emblemáticas desse embaraço.

O relacionamento de Teixeira com o governo federal azedou assim que Dilma assumiu o poder. No tal evento no Rio, ele nem sequer pôde discursar, barrado por ela. Desde seus tempos de ministra da Casa Civil, Dilma já não escondia seu desinteresse, para sermos moderados, pelo homem. "Diferentemente de Lula, Dilma lê os jornais e se importa com o que sai publicado neles", explica uma fonte palaciana que prefere não se identificar. "As denúncias de corrupção contra Teixeira sempre a incomodaram muito." Acontece que, para seu desgosto, a vassoura que usou para a faxina na Esplanada dos Ministérios não alcançava a CBF, entidade privada e independente do Planalto. Assim, a ligação institucional com Teixeira lhe era obrigatória. "Mas eu observei que havia um estresse enorme entre os dois, o que produziu uma relação distante, muito distinta da existente na era Lula", diz Orlando Silva, ex-ministro do Esporte que atuou nas duas gestões.

Silva foi um interlocutor ativo de Teixeira enquanto esteve em Brasília. Sua saída do ministério, em outubro, isolou o cartola ainda mais. E sua substituição por Aldo Rebelo, que presidiu a CPI da CBF em 2000, enviou uma mensagem clara de que o aconchego oferecido por Lula não subsistia. Se as denúncias de corrupção contra Teixeira sempre aborreceram Dilma, a entrevista que ele deu à revista piauí a enfureceu. Frases como "em 2014, eu posso fazer a maldade que quiser", proferidas com notória arrogância, deram a ela a certeza de que ele tratava o Brasil como uma verdadeira república de bananas, da qual ela se recusaria a ser a presidente. "A revista saiu logo antes do evento no Rio e ela precisava marcar posição, mostrar que aqui as instituições são sérias", afirma uma fonte do Ministério do Esporte.

Cumprindo seu papel de opositor, o senador Alvaro Dias, do PSDB, advoga que Dilma poderia ter feito ainda mais. "Ela não tem ingerência sobre a CBF, mas tem sobre o COL e devia ter tirado ele de lá. As acusações contra ele têm mais de dez anos, afinal", diz o senador, que foi também presidente da tal CPI do começo da década. "Mas, apesar de estar visivelmente constrangida com ele, ela preferiu esperar que ele caísse de podre." Sim, porque Dilma não derrubou Ricardo Teixeira. Pelo menos, não sozinha. As relações dele com a Fifa já estavam inviáveis. Sua briga com Joseph Blatter, que chegou a considerar uma lei da ficha limpa para impedir que Teixeira se candidatasse a sua sucessão, levou Jérôme Valcke, aquele do chute no traseiro, a sugerir que Dilma escanteasse Teixeira de vez da organização da Copa. Ela preferiu esperar. Não ajudou, não atrapalhou.

Teixeira tentou várias vezes ser recebido por Dilma para aparar arestas e tentar seduzi-la. Ela nunca cedeu uma audiência sequer. Alguns atribuem a frieza à falta de traquejo da presidente. "Lula é um animal político e sempre agiu com Teixeira para tirar proveito desse relacionamento. Foi assim que ele trouxe a Copa para o Brasil. E, quando Teixeira estava fraco, era o ex-presidente que o orientava, para que o Brasil ficasse bem sem precisar passar por desgastes", diz um amigo de Lula. Pessoas próximas de Teixeira chegaram a pedir que o ex-presidente intercedesse a seu favor junto a Dilma. "Vou tentar. Mas, no momento, estou mais preocupado é com essa seleçãozinha do Mano", ele teria respondido.

Já os mais maldosos garantem que a indiferença de Dilma com relação a Teixeira se estende ao universo do futebol como um todo. Lula é corintiano roxo, jogou na várzea paulistana, gastou todas as metáforas possíveis enquanto era presidente para relacionar o mundo da bola com o da política. Dilma não entende e não gosta de futebol. "E tem aversão à cartolagem", completa um petista de alto calibre. Os mais indignados mencionam que a presidente chega a marcar reuniões de trabalho aos domingos, às 16h, horário sagrado dos gramados. "Mesmo quando tem jogo do Internacional. E olha que ela se diz colorada." Parlamentares ligados à Comissão de Turismo e Desporto da Câmara dos Deputados reclamam que, em 2011, a Copa praticamente não fez parte da pauta do governo. "Só tem mulher lá, né? Parece que há um bloqueio palaciano com o tema futebol", destila um. Talvez agora, sem Ricardo Teixeira, o bloqueio diminua.

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