Natalie Behring-Chrisholm/Reuters
Natalie Behring-Chrisholm/Reuters

Ex-freira e teóloga Karen Armstrong pondera sobre o fanatismo religioso

Para a escritora, a raiz do fanatismo é que as pessoas ou consideram a religião de modo exageradamente literal ou a negam completamente

Randy Rosenthal*, The Washington Post

04 de janeiro de 2020 | 16h00

Comumente pensamos na escritura com um texto escrito, parte de um cânone fechado, sacrossanto, como uma verdade literal. Mas para a autora Karen Armstrong, que aos 75 anos é embaixadora com a United Nations Alliance of Civilizations, esta concepção equivocada é a razão das “nossas atuais dificuldades no tocante à religião”. Ou seja, hoje as pessoas ou consideram a religião de modo exageradamente literal ou a negam completamente. 

Esperando corrigir esse equívoco, Karen Armstrong, em seu livro mais recente, faz um histórico de como as escrituras do mundo foram produzidas e desenvolvidas. Em vez de tentar fazer com que a escritura diga o que desejamos, usando-a para promover a divisão e a intolerância, ela acha que devemos ver a “ambiguidade das escrituras mais como a expressão da complexidade do dilema humano e compreendê-las como obras evoluídas de arte que viabilizam a transcendência e a transformação moral”.

A introdução e conclusão de The Lost Art of Scripture (A Arte Perdida das Escrituras) têm um tom de manifesto, mas este trabalho robusto constitui, por outro lado, um tour panorâmico da história das religiões em que a autora não explora profundamente uma única escritura. Não se trata de uma exegese ou de ideias originais – ela é uma estudiosa, não acadêmica. E repetidamente se refere à escritura como uma forma de arte. Não obstante o título do livro, ela não explica satisfatoriamente porque a arte está “perdida” ou os textos sagrados necessitam ser “resgatados”. Mas Karen Armstrong é uma excepcional narradora e seu livro é fascinante. É um compêndio de filosofia religiosa.

Ela começa reformulando material de livros anteriores, particularmente A History of God (Uma História de Deus) traçando o desenvolvimento da Bíblia Hebraica, desentranhando-a e esmiuçando como é seu estilo. De Israel ela salta para a Índia, traçando as origens dos Vedas, e depois para a China e as escrituras mais antigas, no sentido moderno de textos sagrados escritos: os oráculos chineses. Em meio a esta história itinerante, ela ocasionalmente sublinha que a escritura não tem por fim ser lida “com os olhos passando rapidamente por uma página escrita, mas “sua mensagem tem de ser digerida, inscrita no coração e na mente e fundida com as profundezas do ser”. Por meio de rituais que combinam música e movimentos corporais, a escritura permite que os participantes incorporem a tradição. Desta maneira a escritura resulta não só em transcendência, mas em transformação moral.

Passando por Israel, Índia e China, Karen Armstrong traça as revoluções da escrita que refletiram “a maior transformação social, política e econômica” no século 6 a.C. Nesse momento havia Esdras, Confúcio e as Upanishads, Mêncio, Mahavira, Lao Zi e Buda – como foi retratado no Cânone Pali e nas sutras Mahayana, que podem ser as primeiras “fanfics” (contos escritos por pessoas inspiradas em outros autores). Mais ou menos no meio de seu livro, Armstrong se atém aos Gospels, que chama adequadamente de “midrash”, “um entrelaçamento de versos escritos para criar uma história que insere significado e esperança no presente confuso”.

Com seções meticulosas sobre os Talmudistas, neoconfucianos, os teólogos medievais e os cabalistas, Karen continua a história até o Grande Despertar, O hasidismo e a ascensão do fundamentalismo moderno – sem dúvida o mais equivocado desenvolvimento religioso do livro.

Em várias seções ela contextualiza as tendências agressivas do islamismo, explicando que no Alcorão “a jihad está principalmente associada não à guerra, mas à resistência não violenta”, como “a luta” para a entrega espiritual. Cada sura violenta do Alcorão, ela afirma, foi escrita durante a luta dos muçulmanos pela sobrevivência e elas foram na maior parte ignoradas até a era moderna, quando o colonialismo provocou uma reação violenta que precisava de uma justificativa religiosa. O significativo é que Karen Armstrong não tem explicações tolerantes similares no caso de qualquer outra escritura. Mas ela, que foi uma freira católica, não poupa críticas ao protestantismo. Na sua visão, empreendemos o caminho errado na Reforma, com sua ênfase na palavra escrita divorciada do ritual – no literalismo às custas da metáfora. Armstrong condena a Reforma como “uma ressurgência do hemisfério esquerdo do cérebro” e se existe um único deslize no seu livro é a sua tentativa de examinar a história religiosa através de lentes neurobiológicas.

“Os neurologistas descobriram que o hemisfério direito do cérebro é essencial para a criação de poesia, música, e religião”, ela escreve na introdução. Esta descoberta permite a ela escrever que “na Índia as pessoas recitam o mantra com o fim de lograr a transição do hemisfério esquerdo do cérebro, analítico e discursivo, para uma forma mais profunda e intuitiva de consciência”. A autora afirma ainda que o Deus da Bíblia não pode ser conhecido cognitivamente nos moldes do hemisfério esquerdo do cérebro: esta percepção exige a visão holística do direito em que o bem e o mal são fundidos de algum modo indescritível”.

Mas este apelo à neurociência é um tanto simplista. Por um lado, a escritura tem a ver com a mente, não com o cérebro e a autora não faz menção à mente – talvez porque os neurocientistas sabem pouco sobre ela. E ainda, ao filtrar a compreensão escritural através do prisma cérebro esquerdo/cérebro direito, ela cai na mesma armadilha que condena: tentar compreender a religião racionalmente.

Talvez Karen Armstrong esteja tentando convencer os céticos, mas ela própria admite que este enfoque é errado. À medida que chega perto do fim do livro, ela diz que ciência e escritura “são bem diferentes e aplicar uma à outra leva a confusão”.

A missão da autora de disseminar a compaixão por meio do entendimento é louvável. Mas apesar da extensa pesquisa e escrito com lucidez, os fins e os meios de The Lost Art of Scripture infelizmente são confusos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*RANDY ROSENTHAL É MESTRE EM ESTUDOS TEOLÓGICOS PELA UNIVERSIDADE DE HARVARD, ONDE É PROFESSOR 

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