Reginaldo Castro
Reginaldo Castro

Ex-majestade

Os trágicos ‘esquecimentos’ de bebês em carros mostram que na nova experiência de família a importância dos filhos virou de ponta-cabeça

Joel Birman, O Estado de S. Paulo

20 Dezembro 2014 | 16h00


No início da noite da quarta-feira, uma criança de 2 anos foi encontrada morta dentro de um carro em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Segundo o relato da Polícia Militar, que ouviu o pai após a tragédia, ele disse ter saído para trabalhar e esquecido de levar a criança à creche. Quando, no final do dia, voltou à escola para buscar a filha, soube que a menina não teria ido. Só então, desesperado e atônito, foi até onde tinha estacionado o carro. Ao saber da morte da criança, entrou em estado de choque. 

Não sabemos nada sobre a figura do pai em questão, nem sobre sua condição social, tampouco sobre a sua história, pessoal ou familiar. Pouco importa, aliás, pois não se trata aqui de fazer sociologia desse fait divers, muito menos realizar um exercício de psicanálise selvagem. O que importa como grave nessa trágica narrativa é a repetição dessa modalidade de acontecimento quase inacreditável, em que pais esquecem filhos em carros por horas. As crianças são também deixadas ao léu pelos adultos em outros lugares. A indagação que se impõe de maneira irrefutável é por que se tornou comum que pais esqueçam seus filhos em circunstâncias perigosas e com um final funesto.

A primeira constatação é que essa nova modalidade de acontecimento ocorre nas cidades grandes e médias, onde existe uma experiência urbana complexa. Digo isso para destacar que existe uma relação insofismável entre a sociedade contemporânea e as novas relações dos pais com os filhos. A nova experiência da família e a importância nesta conferida aos filhos se transformou de ponta-cabeça, não apenas no Brasil, mas em escala global.

Nos tempos áureos da modernidade ocidental os filhos representavam o que havia de mais precioso, no campo social e psíquico. Com efeito, quando imperava a família nuclear burguesa, forjada no final do século 18, as crianças eram os bens maiores da existência dos pais, que se sacrificavam por elas, pois eram elas que realizariam tudo aquilo que eles não puderam ser e fazer na vida. Os filhos estavam, portanto, numa posição soberana. Pode se evocar aqui a famosa passagem de Freud no ensaio Introdução ao Narcisismo no qual afirmava que a criança seria para os pais “Sua Majestade, o bebê”.

Essa modalidade de relação libidinal entre pais e filhos supunha um projeto biopolítico preciso, como diria Michel Foucault, pelo qual a riqueza do Estado supunha a existência de uma população qualificada, dos pontos de vista sanitário e escolar. Daí porque as crianças representavam o que existia de mais precioso para a economia política e simbólica dos Estados modernos, pois delas dependia a pujança futura da nação.

Desde os anos 1970 e 80, porém, assistimos à desconstrução progressiva da família nuclear burguesa, assim como das formas tradicionais de conjugalidade. Os homens e as mulheres estabelecem entre si laços efêmeros, que permanecem apenas na medida em que o parceiro possa potencializar o seu desejo e seus projetos existenciais. Se assim não ocorrer, as rupturas são soluções tangíveis e não necessariamente traumáticas, tudo na maneira oposta ao que ocorria na modernidade.

Nesse contexto, os filhos não representam mais a realização ideal de seus pais no futuro. Não apenas a prole se reduziu a olhos vistos, como também não é incomum que os filhos sejam encarados como obstáculos importantes à realização dos projetos existenciais dos pais. Daí porque uma parcela significativa das classes médias e das elites prefira ter filhos, e mesmo se casar, bem mais tarde, para que homens e mulheres possam consolidar e construir suas carreiras profissionais sem grandes “estorvos”. 

Esses pais investem libidinalmente pouco nos filhos, que apresentam frequentemente signos de desnarcisação, como evidenciam diferentes formas de sofrimento psíquico. Das compulsões às drogas até as perturbações alimentares, passando pela disseminação das doenças psicossomáticas e das fragilizações da imagem corporal, o esvaziamento narcísico dos corpos é uma evidência incontornável. Quando se diz que vivemos numa sociedade narcísica, como afirma o historiador norte-americano Lasch, é preciso acrescentar que o dito narcisismo é francamente negativo. 

Dessa maneira, podemos assistir de modo patético à naturalização com que pais matam e abandonam seus filhos na contemporaneidade quando esses se transformam em “empecilhos” para aqueles. Assim como se torna também costumeiro que filhos possam assassinar os pais. 

Tudo isso pode parecer paradoxal numa sociedade como a brasileira, que constituiu um código de proteção à infância e à juventude cujo ápice é a lei da penalização da palmada. Portanto, não é um acaso que a pedofilia se dissemine como um rastilho de pólvora na sociedade contemporânea. Crianças mal-amadas e desnarcisadas se tornam presas fáceis de adultos inescrupulosos.

Enfim, as crianças esquecidas dentro dos carros e abandonadas em outros contextos estranhos se inscrevem num campo mais amplo, no qual se decide que tipo de investimento desejante queremos realizar com nossos filhos. Na atualidade se inverte a fórmula enunciada por Freud. O que assistimos, com frequência, é os pais exibirem seus filhos como troféus do que eles foram capazes. Hoje são eles, os pais, que estão na posição da majestade e do gozo soberano.


JOEL BIRMAN É PSICANALISTA, PROFESSOR TITULAR DO INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA UFRJ E PROFESSOR ADJUNTO DO INSTITUTO DE MEDICINA SOCIAL DA UERJ

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