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Examinando ‘Matadouro Cinco’ para descobrir evidências de transtorno de estresse pós-traumático

Autor americano Kurt Vonnegut foi um especialista em relatos de guerra

Elliot Ackerman, Washington Post

14 de janeiro de 2022 | 10h00

“Veja bem: ‘Billy Pilgrim se soltou do tempo’”.

Essas palavras, que iniciam o segundo capítulo do icônico Matadouro Cinco, de Kurt Vonnegut, ecoam por todo o novo livro de Tom Roston, The Writer's Crusade: Kurt Vonnegut and the Many Lives of Slaughterhouse-Five. Quando peguei o livro de Roston, esperava que fosse metade biografia literária, metade análise literária. Mas o que vi foi um livro sobre o tempo. Ou, dito de outro jeito, um livro sobre como Pilgrim (e Vonnegut) se soltou do tempo e como isso criou Matadouro Cinco.

Se você está lendo, provavelmente sabe que Matadouro Cinco é um romance quase autobiográfico sobre as experiências de Vonnegut na Segunda Guerra Mundial. Ele teve uma guerra agitada. Foi capturado durante a Batalha do Bulge e preso num matadouro em Dresden, o homônimo Schlachthof Fünf (ou matadouro cinco) do título do romance, onde sobreviveu ao bombardeio aliado daquela cidade alemã, o qual matou 25 mil pessoas. O romance segue de perto os episódios-chave da experiência de Vonnegut, mas brinca extravagantemente com o tempo, saltando de anos antes da guerra para décadas depois e vice-versa numa única página. Matadouro Cinco também incorpora elementos de ficção científica e apresenta alienígenas do planeta Tralfamadore, que vivenciam o tempo de forma diferente da que conhecemos aqui na Terra. O livro de Vonnegut muitas vezes é classificado como um romance de guerra, mas é muito mais do que guerra e, pelo menos para mim, parece inclassificável. Talvez por isso seja tão amado e perdure tanto.

Esse desafio à categorização provavelmente é o motivo pelo qual fiquei tão irritado logo no começo, quando Roston afirma que seu livro tentará responder “se Matadouro Cinco pode ou não ser usado como evidência de um transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) não diagnosticado de seu autor”. Essa investigação, que anima grande parte do livro de Roston, parece equivocada. O próprio Roston reconhece o reducionismo em que está engajado quando escreve: “Imagino que reduzir seu livro a um diagnóstico clínico ou, talvez pior, colocá-lo na categoria de autoajuda, faria Vonnegut estremecer”. Também acho que sim. Mas Roston segue em frente, apresentando-se como estudioso literário e detetive psicanalítico. Ele desconstrói Matadouro Cinco e a história em torno do livro em busca de provas incontestáveis de que Vonnegut sofreu o que hoje chamaríamos de transtorno de estresse pós-traumático, embora Roston reconheça que ao longo da vida Vonnegut deu recorrentes declarações de que suas experiências de guerra não o deixaram traumatizado.

A exemplo de Roston, você pode pensar que é meio difícil acreditar que um homem que sobreviveu à Batalha do Bulge, ao tempo de prisioneiro de guerra nazista e ao bombardeio de Dresden não tenha desenvolvido TEPT. Mas o que é TEPT? Refletindo sobre suas experiências de guerra numa entrevista – na qual disse ter testemunhado sua unidade do exército sendo “exterminada” e, mais tarde, visto “uma montanha de pessoas mortas” em Dresden – Vonnegut concluiu que essas experiências o deixaram “pensativo”. Voltar da guerra pensativo pode ser semelhante a voltar com o que agora chamamos de TEPT? Em vez de lançar uma nova luz sobre Vonnegut, a diferença entre as duas coisas talvez nos diga algo sobre nós mesmos e o tempo hipersensibilizado em que vivemos.

Os entendimentos contemporâneos do TEPT tentam definir o geral por meio do específico. Será que conseguimos identificar um evento específico, um trauma específico (ou uma série de traumas) no passado de uma pessoa e, ao fazê-lo, entender suas dificuldades no presente? Quando Vonnegut diz que suas experiências o deixaram pensativo, este parece ser um diagnóstico muito superior ao de TEPT. Ficar pensativo não anula os acontecimentos nem a maneira profunda como eles afetam uma pessoa; no entanto, a palavra sugere a capacidade de alguém assimilar as experiências da vida e, assim, ter algum poder sobre elas. Em última análise, o que diferencia o TEPT é essa falha de assimilação. Mas a assimilação é uma via de mão dupla.

Assim como é impossível haver romance sem leitores, não é possível ter o espectro do veterano com transtorno de estresse pós-traumático sem a sociedade na qual ele tenta se assimilar. A questão então vira outra: onde ocorre a falha de assimilação? Cabe ao indivíduo assimilar o trauma que pode ter testemunhado a seus eu do pós-guerra? Ou cabe à sociedade que o mandou para a guerra assimilar de volta nessa sociedade aqueles que foram tocados pela experiência – ou que ficaram pensativos?

Mais adiante no seu livro, Roston expressa ambivalência sobre seus esforços para enquadrar Vonnegut dentro de um diagnóstico de TEPT. Essa camada de dúvida enriquece seu estudo de Matadouro Cinco e deixa sua análise de Vonnegut mais interessante. Roston escreve: “Erramos quando tentamos rotulá-lo” e continua citando a filha de Vonnegut, Edith, que disse sobre o pai: “Talvez ele tivesse TEPT só por estar vivo. Ele viu coisas demais. E sentiu coisas demais”.

Em Matadouro Cinco, a consciência de Billy Pilgrim salta para frente e para trás, o que dificulta que ele se apegue aos fios narrativos de sua vida, pois o passado interfere no presente e até no futuro. A ideia de se “soltar do tempo” também é muito associada ao TEPT. Mas talvez se possa dizer com a mesma facilidade que é um sintoma da vida moderna, uma conexão que Roston explora detalhadamente no livro. Assim como a industrialização – e a Segunda Guerra Mundial foi a apoteose de uma guerra da era industrial – parece que a tecnologia conspirou para acelerar nossas vidas e nos desprender do tempo. Se interpretamos esse descolamento como sinônimo de TEPT ou concedemos a ele um significado menos literal, isto parece quase irrelevante. Estamos todos um pouco desprendidos. E já faz algum tempo.

Em última análise, Roston faz bem em deixar a questão do TEPT de Vonnegut sem solução, e este é um dos grandes lances do livro, porque abre um comentário incisivo não apenas sobre Vonnegut, mas sobre todos nós. Roston escreveu boa parte do livro em 2020, no meio da pandemia, da agitação social e da profunda disfunção política. Dado o uso e a definição cada vez mais amplos de TEPT, pode-se dizer que este se tornou um diagnóstico para todos. E assim Roston também nos mostra como – com ou sem diagnóstico – seu herói Vonnegut conseguiu escrever um livro para todos, um livro que continua solto no tempo. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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Elliot Ackerman, ex-oficial do Corpo de Fuzileiros Navais, serviu cinco vezes no Iraque e no Afeganistão. Ele é autor, junto com o Almirante James Stavridis, de 2034: A Novel of the Next World War

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