Celso Junior/AE
Celso Junior/AE

Excelentíssimo Zé

O segundo na linha decisória do País torna-se o primeiro quando se fala em luta contra o câncer

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2009 | 11h42

Eram mais ou menos dez médicos no centro cirúrgico, todos devidamente paramentados, alongados e concentrados para o que se avizinhava uma operação de grande fôlego. Eis então que o paciente, segundos antes de receber o anestésico, manda um recado estrito à equipe:

 

- Alguém aqui está pessimista ou desanimado com o meu caso? Se estiver, pode sair, porque eu não estou.

 

Ninguém saiu. Alguns inclusive voltaram à sala de cirurgia na quinta-feira retrasada, quase seis meses depois, para uma nova intervenção no mesmo paciente a fim de retirar com urgência mais tumores do seu abdome - 8 no primeiro boletim, 15 no final.

 

O pito preventivo de José Alencar foi lembrado nessa semana pelo cardiologista Roberto Kalil Filho numa sala da diretoria do Sírio-Libanês, hospital paulistano onde o vice-presidente continuava internado até o fechamento desta apuração. Kalil, que trata das aortas de Lula, Serra, Roberto Carlos e outras de considerável calibre público, queria ilustrar a determinação do homem que atende há quase sete anos. Afinal, a cirurgia de 18 horas, a de janeiro, não era a primeira, mas a 13ª a que Alencar se submetia para vencer o sarcoma, mais especificamente uma "subespécie" de sarcoma bastante agressiva chamada fibrohistiocitoma maligno, que aprecia recidivas.

 

Kalil, o "médico do poder", cujo conhecido humor bilioso deve ter azedado de vez ao ler esse aposto, resgatou uma frase aparentemente severa de Alencar à beira da anestesia. Já Adriano Silva, chefe de gabinete da Vice-Presidência, indica outro espírito pré-operatório. "Ele estava contando causos", diz, remetendo-se aos momentos prévios da operação seguinte, a14ª, que levou seis horas.

 

Adriano é escudeiro de Alencar há três décadas. Em Belo Horizonte, tem um apartamento que divide com os três filhos formados. Em Brasília, habita o velhusco Hotel Nacional, que já abrigou a rainha Elisabeth e o presidente Carter, mas hoje é endereço pouco luminoso. Com voz de barítono, ele atende alternadamente dois celulares enquanto deglute uma polpuda esfiha de carne umedecida por delicada xícara de café na lanchonete do hospital. Acabara de despachar com o vice-presidente. Alencar queria se escusar com Vladimir Putin por não poder comparecer, na semana que vem, a uma reunião da comissão de alto nível que trata de cooperações entre Brasil e Rússia. Não é de deixar ponta solta, afirma o assessor.

 

Na lista de visitas daqueles dias à suíte do 11º andar, restritas na medida do possível para não cansar o vice-presidente, constava Ivo Rosseti, também empresário de grupo têxtil, que trocou um dedo de prosa com o velho amigo sobre redução de impostos para a linha branca e oportunidades de emprego nas empresas nacionais. Compareceram também os senadores Eduardo Suplicy, Aloizio Mercadante e Romeu Tuma, os ministros Dilma e Temporão, o ex-presidente FHC e estava previsto um alô pessoal de Lula. O senador Collor de Mello passara pelo hospital na quinta para um check-up que envolvia, inclusive, o parecer cardíaco do dr. Kalil. Mas não foi à suíte para um abraço fora de palanque.

 

D. Mariza, por sua vez, não arreda pé do local. Das 7 da manhã às 7 da noite permanece na cola do marido. Enfermeira formada na escola Anna Nery, no Rio, entende muitos procedimentos e se desdobra em cuidados dos quais, às vezes, o marido reclama. Cumpre a promessa feita há 51 anos de fidelidade na saúde e na doença, mas também não esmorece no compromisso de privar-se eternamente de joias. Explica-se o que um câncer tem a ver com uma gargantilha. No início do casamento, quando Alencar apresentou sintomas semelhantes aos do irmão, que sofria com um tumor no estômago, ela se proibiu de usar penduricalhos em nome da saúde do marido. Havia feito coisa semelhante por causa do pai. Quando soube que ele estava com câncer de próstata, deixou de ir ao cinema, sua paixão maior. O pai protestou. No que lhe concerne, Alencar também. Em vão.

 

O vice-presidente, como diz Antônio, o irmão caçula entre os homens, é religioso, mas não dado necessariamente a missas e comunhões. Professa sua fé e cita Deus a cada entrada e saída de hospital, donde se explica, em parte, a gigantesca pilha de Bíblias, livros espiritualistas, volumes de autoajuda, santinhos e mensagens cristãs que chegam todos os dias a diferentes pontos de referência ligados a Alencar: o próprio Sírio-Libanês, o apartamento paulistano na Alameda Itu, a residência em BH, os escritórios da Coteminas (sua empresa), a sede do PRB (seu partido), o Palácio do Jaburu (a residência oficial). Imagens de santos também entram na fila. Uma delas, de frei Damião, chegou pintada de dourado ao hospital. "Vice-presidente merece esse tom", dizia o bilhete que veio junto.

 

Entre os e-mails que constam nas páginas do Orkut dedicadas a ele, há quem pergunte, em tom indignado, por que Alencar não se consulta no SUS. No blog do jornalista Ricardo Kotscho, que relata um fim de tarde com o vice no hospital, o comentário sobre o tratamento particular é exceção entre tantos elogios "à coragem e à garra do Zé". Mas a crítica aparece. "Não vejo isso como um ressentimento quanto ao meu irmão, mas a constatação de que a saúde pública do País está muito aquém do que deveria ser", avalia Antônio. Adriano sai em defesa do patrão: "Aquilo que o convênio não cobre, ele tira do próprio bolso, de medicamentos a exames". Insiste em que Alencar defende o sistema único de saúde brasileiro, exemplo até para países desenvolvidos, como os EUA.

 

O convênio não cobria, obviamente, a passagem para o tratamento voluntário que Alencar decidiu fazer em junho no Centro Oncológico MD Anderson, em Houston. Foi acompanhado do oncologista Paulo Hoff, que na época explicou ser um experimento novo, com uma droga que não está no mercado nem tem nome, mas vem motivando esperança na cura do sarcoma. Na sexta-feira, d. Mariza se mostrava agradecida a Deus com o fato de o marido ter sido, de fato, aceito no programa. Ao avaliar nódulos retirados de Alencar, o hospital americano constatou que alguns tumores, se não cederam, também não cresceram, o que indica que a química surtiu efeito.

 

Na mesma sexta-feira, no fim do dia, Alencar atendeu o celular que lhe foi passado por Adriano. Respondia ao chamado da repórter para saber se o boletim médico daquela tarde o abalara. Dizia o informe que "novos exames de imagens e laboratoriais feitos pelo vice-presidente da República, José Alencar, de 77 anos, revelaram uma nova obstrução parcial do intestino". As alterações clínicas haviam aparecido nos últimos dias, e o vice-presidente continuaria com o tratamento já administrado e em observação.

 

Entre os médicos, Alencar é visto como paciente top de linha em comportamento. "Ele tem um equilíbrio emocional diante da doença que só ajuda", afirma o cirurgião Raul Cutait, seu gastro há 15 anos. Além disso, quer entender item por item e sem firulas o que ocorre no próprio organismo. Então, se indicam medicamento, toma. Se recomendam cirurgia, abaixa a cabeça e fecha os olhos para, logo em seguida, mirar fixamente a equipe e dar a voz de comando: "Vamos lutar!"

 

Nesse espírito de ex-ministro da Defesa, disse ao telefone, com voz firme, que não se tratava exatamente de obstrução intestinal, mas de oclusão. O caminho não estava totalmente fechado, enfim, e os médicos avaliariam o que fazer dali em diante. Caso não tivesse alternativa à cirurgia, não precisaria de coragem para adotá-la, mas de bom senso.

 

Já a corrente de orações que recebia, desprovidas de qualquer interesse que não seu bem-estar, mostrava quanto torciam por ele. Fazia, inclusive, renascer na sua memória o episódio da Batalha de Riachuelo, quando o Almirante Barroso, diante da inferioridade em relação aos inimigos, deu o lema da disputa: sustentar o fogo, que a vitória é nossa. "Pois então", continua ele, "estou sustentando a chama porque, se eu me deixar apagar, eu não ajudo."

 

Sabendo que muitos da família são cruzeirenses, achei que seu coração tinha sofrido um baque com a perda da Libertadores durante a semana diante dos argentinos. Alencar torce pelo Nacional de Muriaé, sua cidade natal. Melhor: nasceu no distrito de Itamuri, a 17 km de Muriaé, mas foi para a cidade-mãe aos 14 anos, onde jogou futebol com a meninada do Nacional até os 16. Lembra parte do time de ouro - Mário Venâncio, Alonso, Tatazinho -, no qual inclui o irmão Álvaro, hoje com 90 anos, o mais velho dos seis que ainda vivem (eram 15 filhos). Álvaro jogava como arfa esquerdo, ou half esquerdo, e, de tão craque, iam buscá-lo na roça, sem treino nem nada, para entrar direto no time.

 

Não faz muito tempo, em Muriaé, prestaram uma homenagem a Alencar com o time a postos, goleiro, beques, centromédios, a linha, todos uniformizados. O vice-presidente perguntou se cantariam o hino do Nacional. Acharam que era o Hino Nacional.

 

- Nacional não tem hino não, doutor.

 

- Que é isso? Como não tem? Tem, sim senhor.

 

E, diante de conterrâneos que concordaram com a cabeça, cantou o hino pra eles. E para mim. "Nacional eu sou do coração, Nacional até debaixo d’água, quem fala mal do clube campeão, ou é de inveja, ou é de mágoa. Quem for Nacional de fato, joga, vence, nunca apanha, não se acovarda ao desacato. Nacional, Nacional, Nacional eu sou do coração..."

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