Excepcionalismo 2.0 e 1.0

A ideia de que os EUA são superiores vem do berço da nação. Já o Brasil não se compromete com a sua própria importância

Mac Margolis*, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 23h16

Outro dia, na saída do aeroporto de Caracas, me bateu uma sensação esquisita. Lá estávamos, eu e Jacobo, o bravo motorista escalado para me conduzir até o coração da República Bolivariana da Venezuela, e tive a fantasia de que não iria chegar ao destino, nunca. A estrada estava estrangulada por caminhões, carretas e carros. Carrões, aliás. Caracas era um desfile só de BMWs, Mercedes, Hummers e outros ícones da farra pré-colapso econômico mundial. Com a gasolina a uns centavos o litro, ninguém andava. Não sei por que os EUA temem tanto a falada revolução bolivariana. Ninguém jamais chegará a tempo.

Que saudade do Brasil. Não sou muito de ufanismos, seja para louvar minha terra natal, EUA, seja para rolar no berço esplêndido da pátria adotiva. Mas o Brasil comove. Para mim o estalo veio de longe: a imagem de um país especial engarrafado num continente incerto. Os argentinos, quando eram os ricos do continente, já passaram por isso. O Brasil, que sempre era a piada dos portenhos, agora dá seu troco. O novo país excepcional do pedaço fala português.

Os brasileiros resmungam, e com razão, com as falhas e falcatruas dos políticos. Condenam a farra fiscal dos governantes e os juros altos. Mas de repente o País se vê festejado. Descolou da sua vizinhança. Subiu à instância maior, para engrossar a sopa de letras do poder internacional - G-20, G-4, ONU e OMC. Empresta ao FMI e vê seu presidente saudado, sob holofotes, como "o cara".

Mas será o Brasil um país excepcional? Ou, melhor, sendo especial, se credencia ao excepcionalismo? "O papel do Brasil é civilizar os povos bárbaros do Prata", disse o barão do Rio Branco, há mais de um século. Será que esse tempo chegou?

Aí a resposta é mais complicada. Primeiro, um esclarecimento: Lula não é bem "o cara". Sim, foi celebrado assim - "he?s the man" - mês passado na Cúpula das Américas, pelo Barack Obama. Já Obama, o carismático líder da única hiperpotência do mundo, junto à qual o resto do planeta ou se levanta ou nela tropeça, ele sim é O Cara. Dessa forma, Lula, no máximo, é o cara do Cara, ou como Lula mesmo talvez diria, o subcara.

Nada disso desvaloriza o Brasil, um país em ascensão que desperta interesse e apetites dos países e empresas graúdos, fato que as autoridades e acadêmicos ligados a Brasília não cansam de lembrar em seus road shows e panfletos verde-amarelos. Festejar o novo Brasil virou quase rotina e beira o cult. Mas a badalação embaça a vista. O Brasil é, sim, uma potência, mas que tipo de potência e que papel desempenha? Pode-se falar de um excepcionalismo brasileiro?

O debate é animado. No país de Obama, é ponto pacífico: a noção de que os EUA não apenas diferem dos outros países, mas também ocupam um andar próprio no condomínio das nações - uma cidade na montanha, segundo Thomas Paine - praticamente nasceu com a república. É quase religião. Excepcionalismo à americana pressupõe evangelização, a missão de exportar a liberdade e democracia para onde der. A incumbência veio com reembalagem nos últimos anos, na guerra contra o terrorismo e na invasão do Iraque. Agora os EUA pós-Bush, mais contritos e de crista baixa, passam por uma ressaca. O resultado levou Obama ao poder. Mas foi mais um resgate do que um rechaço ao excepcionalismo. Obama - O Cara - mais do que ninguém aposta na redenção da missão civilizadora dos EUA. É o ex cepcionalismo 2.0.

O Brasil também é um país excepcional? O assunto surgiu, sem querer, numa palestra na Fundação Getúlio Vargas, no Rio, de Julia Sweig, que coordena estudos sobre América Latina no Conselho de Relações Internacionais (Council on Foreign Relations) de Nova York. O tema foi a América Latina no governo de Obama, e Sweig falou com desenvoltura sobre o embargo contra Cuba, a desocupação de Guantánamo, o Plano Colômbia e a luta contra o narcotráfico. Mas a plateia estava inquieta. "E o Brasil?", os alunos queriam saber. Julia, estudiosa da América espanhola e especialista em Cuba, até se desculpou, dizendo-se ainda aprendiz dos temas brasileiros. Mas o clima esquentou. Afinal, como falar sobre o futuro das Américas sem avaliar o outro gigante do hemisfério - o país presidido pelo "cara"? Fala-se muito de soft power, atributo de países que, em lugar de soldados, jogam no tabuleiro mundial com pesados investimentos (China). Há ainda o smart power, a alta tecnologia e informação (Finlândia, Taiwan). E há o poder à antiga, do império, a Rússia. O perfil do poder à brasileira é um pouco mais difícil de definir.

Pelo porte e desempenho econômico, o País tem reconhecida ascendência sobre sua região, mas não a gerencia. Os brasileiros "não se veem como uma típica potência regional", como diz Matias Spektor, coordenador de Estudos Internacionais da FGV, no Rio. Há nisso uma espécie de dança entre o que o mundo espera do Brasil e o que o Brasil quer do mundo. Os EUA, é claro, gostariam que o Brasil assumisse mais o papel de síndico das latitudes sulinas. O Brasil não tem nem o dinheiro nem o interesse em agir assim. Policiar as vias marítimas? Nem pensar. Enquadrar, ao vivo, os irmãos Castro ou Hugo Chávez por atentados contra direitos humanos e liberdades democráticas? Não contem com Brasília.

O Brasil se destaca de forma mais sutil. Não fala mal da vizinhança em público, embora possa puxar orelhas a portas fechadas, como dizem que Lula fez com o comandante Chávez. Não abona o modelo bolivariana de democracia, que mistura urnas e murros sob o escudo da soberania. É um jogo arriscado. Se a Venezuela de fato ingressar no Mercosul, terá que respeitar a democracia e os direitos humanos como obrigações contratuais. Qual será a postura do sócio majoritário do pacto ante o próximo espasmo autoritário de Chávez, que só nas últimas semanas levou um governador rival a fugir do país, prendeu outro com sua polícia política e ainda defenestrou o prefeito eleito de Caracas ao retirar-lhe o orçamento e todo o poder?

Até agora a resposta brasileira tem sido o malabarismo. "O Brasil é uma potência regional ambígua", como diz Spektor. Ele acha que o País paga um preço "altíssimo" por sua indefinição. Parte desse preço é a desunião latino-americana. Ao credenciar-se nos fóruns internacionais como potência da América Latina sem ter que efetivamente se comprometer com isso, o Brasil se arrisca a alienar seus vizinhos. De fato, não conseguiu o apoio regional como candidato a presidir o Banco Interamericano de Desenvolvimento, a OEA e muito menos a OMC. Excepcional e assertivo, o Brasil vai levando, incentivado pelos louros alheios, confiante no taco do seu badalado presidente. Pode ser que dê certo, pelo menos até o malabarista cair.

*Correspondente da revista Newsweek no Brasil

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